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Marcílio Diniz

Abaixo expomos algumas traduções nossas de uns trechos de Estrabão que acreditamos ter alguma utilidade para os de Foco Cultural Ibérico. O texto completo <em inglês> encontra-se aqui:http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Strabo/home.html.

*Cabe ressaltar: os textos em ‘<>’ ou ‘[]‘ são adições minhas.

ALGUNS TRECHOS DO LIVRO III DA GEOGRAFIA DE ESTRABÃO.

  • Cap. I.

[4]…Mas assim como para Heracles, diz, <não> há sequer um templo dele a ser visto no cabo (assim Éphoros erradamente situa), nem altar para ele, ou para outro deuses qualquer, mas apenas pedras em muitos locais, jazendo em grupos de três ou quatro, os quais em acordo com o costume nativo são viradas ao redor por aqueles que visitam o local, e depois, após porem uma libação, são movidas de volta para o lugar. E não é legítimo, ele adiciona, oferecer sacrifício lá, nem, à noite, pôr sequer o pé no lugar, por que os deuses, diz o povo, o ocupam a noite; mas os que vêem para ver o lugar passam a noite em um vilarejo vizinho, e então entram no local de dia, tomando água com eles, pois não há água lá.

[5] Agora estas asserções de Artemiodoros são adequadas, e devemos creditá-las; mas as estórias que contou em concordância com a multidão comum do povo são sem significado para serem creditadas. Por exemplo, é um dito geral entre o povo, de acordo com Poseidonios, que nas regiões ao longo da costa do oceano o sol é mais largo quando se põem e que se põe com um barulho como se o mar estivesse chiando a extingui-lo por estar caindo nas profundezas. Mas, diz Poseidonios, isto é falso, assim como a asserção que a noite cai imediatamente sobre o crepúsculo; pois a noite não cai instantaneamente, mas depois de um módico intervalo, assim como faz nas costas de outros mares largos. (…)

[6]…Chamam o país Baetica [Baitika?] por causa do rio, e também Turdetânia pelos habitantes; ainda chamam estes ambos por Turdetânios e Turdúlios, alguns acreditam que são o mesmo povo, outros que são diferentes. Entre a carta de Polybios, pois ele situa que os Turdúlios são vizinhos dos Turdetânios no norte; mas no presente momento não há distinção entre eles. Os Turdetânios são reputados como os mais sábios dos Ibéricos; e fazem uso do alfabeto, e possuem registros de sua história antiga, poemas, e leis escritas em verso que datam de seis mil anos de idade <!!!>, assim asseguram. E também os outros Ibéricos usam o alfabeto, embora não as letras de um e o mesmo caractere, pois suas falas não são uma e a mesma, ao invés. (…)

  • Cap. II.

[2]…No país dos Celtas [lat. Celti > gr. Keltoi] Conistorgis [Kunistorgis -> kuni, "cão", storgis, ?] é a cidade melhor conhecida; mas os estuários de Asta são mais afamados, onde os Gaditânios de hoje costumam manter suas assembléias, e esta não é mais de um cento de stadia além do porto da ilha.

[9] Poseidonios, em louvor a quantidade e a excelência destes minérios, não se abstém de sua linguagem retórica; ao invés, entusiasticamente coopera com as estórias extravagantes contadas; por exemplo, não desacredita a estória, diz, que, quando uma floresta havia sido queimada, o solo, uma vez que era composto de ouro e prata, derreteu e espalhou-se sobre a superfície, porque, como ele diz, cada montanha e cada colina é <uma> barra empilhada lá por alguma fortuna pródiga. E, em geral, diz ele, qualquer um que tenha visto estas regiões declararia que há armazéns intermináveis da natureza, ou tesouro inacabável de um império. Pois o país era, adiciona, não somente rico, mas também rico debaixo; e com os Turdetânios é verdadeiramente Pluto, e não Hades, que habita na região abaixo. Tal, pois, são as floridas articulações de Poseidonios acerca deste assunto ele próprio adornando muito de sua linguagem de uma mina, como foi. (…)

[11]…De acordo com Polybios, como queira, ambos este rio e o Anas, embora distante um do outro tão quanto nove mil stadia, surgem na Celtibéria; pois, como resultado de seu crescimento em poder, os Celtibéricos causaram a todo país vizinho a ter o mesmo nome que o seu próprio. Os antigos parecem ter chamado o rio Baetis “Tartessus”; e ter chamado Gades e as ilhas adjuntas “Erytheia”; (…)

[12]…Pior, nomeadamente, a sentença que Tartessos foi conhecido por boato como o “o maior pai do oeste”, onde, como o próprio poeta diz, cai dentro do Okeanos “a luz do sol brilhante, desenhando a negra noite sobre a terra, o que dá o grão”. Agora, que a noite é uma coisa de mau augúrio e associada com Hades, é óbvio; também que Hades é associado com Tártaros. Acordadamente, alguém poderia razoavelmente supor que Homero, por haver ouvido sobre Tartessos, nomeadamente o maior pai das regiões baixas Tártaros após Tartessis, com uma suave alteração das letras, e que ele próprio adicionou um elemento mítico, assim conservando a qualidade da poesia. (…)

[15] Ao longo com a parte feliz de seu país, ambas as qualidades de gentileza e civilidade têm vindo aos Turdetânios; e aos povos Célticos, também, em vista deles serem vizinhos aos Turdetânios, assim como Polybios disse, ou ao menos em conta de seu parentesco; mas tanto menos os povos Célticos, porque a maior parte vive em meras vilas. Os Turdetânios, como seja, e particularmente aqueles que vivem sobre o Baetis, teem mudado completamente para ao modo de vida Romano, nem sequer lembrando sua própria língua mais. E a maioria deles tem se tornado Latinos, e teem recebido Romanos como colonos, tanto que não estão distante de serem todos Romanos. E as cidades presentes juntamente colonizadas, Pax Augusta no país Céltico, Augusta Emérita no país dos Turdúlios, Caesar-Augusta próximo à Celtibéria, e alguns outros assentamentos, manifestam a mudança aos revestidos modos de vida civis. Além disto, todos aqueles Ibéricos que pertencem a esta classe são chamados “Togati”. E entre estes estão os Celtibéricos, que antes foram reportados como os mais brutos de todos. Tão quanto para os Turdetânios.

  • Cap. III.

[1]…Esta cidade Brutus, apelidada Callaicos, usada como uma base de operações quando guerreou os Lusitanos e trouxe este povo sob sujeição. E, para comandar a barra do rio, fortificou Olysipo, de modo que as vagens por terra e a importação de provisões não pudesse ser impedida; tanto que entre as cidades sobre o Tagos esta é a mais forte. O Tagos abunda em peixes, e é cheio de ostras. Nasce na Celtibéria, e flui pela Vettônia, Carpetânia e Lusitânia, em direção ao oeste equinocial, subindo a certo ponto estando paralelo ambos ao Anas e ao Baetis, mas depois de divergir destes dois rios, uma vez que se separam em direção a costa sulista.

[2] Agora dos povos situados além das montanhas mencionadas acima, os Oretanos são os mais ao sul, e o território deles alcança tão distante quanto as costa marítima na parte do país deste lado dos Pilares; os Carpetanos são os seguintes a estes ao norte; depois os Vettões e os Vaccaios, pelo qual território o rio Durios flui, o qual dispõe uma passagem em Acutia, uma cidade dos Vaccaios; e por último, os Callaicos, que ocupam uma parte bastante considerável dos países montanheses. Por esta razão, uma vez que foram muito difíceis na luta, os próprios Callaicos não só teem suprido o apelido para o homem que derrotou os Lusitanos mas também trazido sobre isto agora, já, a maioria dos Lusitanos são chamados Callaicos. Agora assim como para Oretânia, sua cidade Castalo é muito poderosa, e também é Oria.

[3] E ainda o país ao norte do Tagos, Lusitânia, é a maior das nações Ibéricas, e é a nação contra quem os Romanos moveram guerra por mais tempo. As fronteiras deste país são: no lado sul, o Tagos; ao oeste e norte, o oceano; e ao leste, os países dos Carpetanos, Vettões, Vaccaios e Callaicos, as tribos bem conhecidas; não é problema quanto ao nome do resto, por causa da pequenez e fragilidade de dissociação. Contrariamente aos homens de hoje, como seja, alguns chamam também estes povos Lusitanos. Estes quatro povos, na parte leste de seus países, possuem fronteiras comuns, eis: os Callaicos, com as tribos dos Antúrios e com os Celtibéricos, mas os outros apenas com os Celtibéricos. Agora o comprimento do cabo Nerium dos Lusitanos é de três mil stadia, mas sua largura, a qual é formada entre o lado leste e a costa que jaz oposta, é muito menos. O lado leste é alto e agreste, mas o país que jaz abaixo é todo plano inclusive no mar, exceto umas poucas montanhas não muito altas. (…)

[5] Por último de todos vem os Artábrios, que vivem na vizinhança do cabo chamado Nerium, que é o fim de ambos os lados norte e oeste da Ibéria. Mas o país ao redor de sobre o cabo é ele próprio habitado pelo povo Céltico, parentes daqueles no Anas; pois este povo e os Turdúlios fizeram uma expedição ao lugar e tiveram então uma contenda, é dito, após haverem atravessado o rio Limaias; e quando, em adição a querela, os povos Célticos também sofreram a perda de seu chefe, dispersaram-se e ficaram lá; e foi desta circunstância que o rio Limaias foi também chamado o rio de Lethes. (…) Os homens de hoje, seja como queira, chamam os Artábrios Arotrebios [are+trebia+ios -> "aqueles que estão diante das casas"? ou aryox+trebia+ios -> "os de casa nobre/livre"? ou ario+trebia+ios -> "os que vigiam/guardam as casas"???]. Agora cerca de trinta diferentes tribos ocupam o país entre o Tagos e os Artábrios, e por todo o país houvera bênçãos em frutas, gado, e na abundância de seu ouro e prata e metais similares, ainda, a maioria das pessoas teem cessado de ganhar a vida da terra, e teem gastado seu tempo em bandolagem e em contínuos estados de guerra uns com os outros e com seus vizinhos atravessando o Tagos, até que foram parados pelos Romanos, que os dobraram e reduziram muitas de suas cidades a meras vilas, embora eles aumentassem algumas de suas cidades adicionando colônias lá. Foram os montanheses que começaram estas ilegalidades, assim como foi similarmente ser o caso; pois, desde que ocuparam pesarosa terra e possuíram todavia pequena propriedade, almejaram o que pertencia a outros. E os últimos, em defenderem-se contra os montanheses, foram necessariamente representados sem força sobre seus estados privados, assim eles, também, começaram a se engajar na guerra ao invés do cultivo; e o resultado foi que o país, negligenciado por que estava seco de produtos plantados, tornou-se o lar apenas de brigantes.

[6] Em qualquer grau, os Lusitanos, é dito, são dados a darem jacentes emboscadas, espionarem, são rápidos, ligeiros, e bons em desdobrar tropas. Eles possuem um pequeno escudo com dois pés de diâmetro, côncavo na frente, e suspendido dos ombros por meio de correias (pois não há nenhum anel ou abraçadeira). Ao lado destes escudos eles possuem uma espécie de adaga ou peixeira. A maioria dele usa couraças de linho; uma minoria usa couraças de cotas forjadas e elmos com três cristas, mas o resto usa elmos feitos de cordões <?>. Os soldados da infantaria usam caneleiras também, e cada soldado tem muitos dardos; e alguns fazem uso de lanças, com pontas de bronze. Agora alguns dos povos que habitam próximo ao rio Durios vivem, é dito, após as maneiras dos Lacônios usando salas de consagração duas vezes ao dia e tomando banhos nos vapores que se levantam de pedras aquecidas. Banhando-se na água fria, e comendo apenas uma refeição por dia; e esta em um modo limpo e simples. Os Lusitanos são dados a oferecerem sacrifícios, e inspecionam as vísceras, sem cortá-las fora. Assim como, também inspecionam as veias ao lado da vítima; e divinam por insígnias do toque, também. Profetizam por meio das vísceras de seres humanos também, prisioneiros de guerra, a quem primeiro cobrem com mantos grosseiros, e depois, quando a vítima foi golpeada abaixo das vísceras pelo áugure, traçam os primeiros augúrios da queda da vítima. E cortam a mão direita de seus escravos e as põem como oferendas para os deuses.

[7] Todos os montanheses levam uma vida simples, são bebedores de água, dormem no chão, e deixam seus cabelos fluírem abaixo em massas compactas a maneira das mulheres, embora antes de entrarem na batalha atarem seus cabelos sobre a testa. Comem carne de bode a maioria das vezes, a para Ares sacrificam um bode também prisioneiros e cavalos; e também oferecem hecatombes de cada tipo, a maneira Grega como o próprio Píndaro diz “sacrificar as centenas de cada tipo”. Também sustentam contendas, para soldados de armas leves e pesadas e cavalaria, no pugilato, na corrida, em refregas, e em luta em esquadrões. E os montanheses, por dois terços do ano, comem bolotas, as quais teem primeiro secado e moído, e depois a enterram e a fazem em pão que pode ser guardado por um longo tempo. Também bebem cerveja; mas são escassos de vinho, e o vinho que teem o fazem beber rapidamente em festas de casamento com seus familiares; e ao invés de óleo de oliva usam manteiga. Novamente, eles comem sentados no chão, pois teem assentos fixos construídos ao redor das paredes da sala, uma vez que sentam eles próprios de acordo com a idade e posição. A refeição é passada ao redor, e entre seus copos dançam para flauta e trombetas, dançando em coro, mas também saltando e se agachando. Mas na Bastetânia as mulheres também dançam promiscuamente com os homens, segurando em suas mãos. Todos os homens se vestem em negro, pela maior parte em mantos grosseiros, nos quais eles dormem em suas camas de serragem. E usam vasos encerados, assim como os Celtas fazem. Mas as mulheres sempre vão vestidas em longos mantos e becas de cores alegres. Ao invés de cunharem moedas o povo, ao menos os que vivem nas profundezas do interior, empregam escambo, ou ainda cortam pequenos pedaços de uma barra de prata e as passam como dinheiro. Aqueles que são condenados à morte empurram de precipícios; e os parricidas eles empedram à morte longe de suas montanhas ou rios. Casam do mesmo modo que os Gregos. Seus doentes expõem sobre as ruas, da mesma maneira que os Egípcios faziam em tempos antigos, com o propósito de obterem sugestões daqueles que experiemciaram a doença. De novo, já ao tempo de Brutus eles usavam botes de couro moreno em conta das marés e das águas baixias, mas agora, já, até mesmo as canoas esculpidas são raras. Seu sal-gema [???] é vermelho, mas quando triturado é branco. Agora este, como eu dizia, são o modo de vida dos montanheses, e me refiro aqueles que vivem nas marcas fronteiriças do norte da Ibéria, nomeadamente, os Callaicos, Antúrios e Cantábros, tão longe quando os Vascônios e os Pirineus; pois os modos de vida de todos eles são do mesmo caráter. Guardo-me de dar quantidades de nomes, evitando a desprazerosa tarefa de escrevê-los abaixo ao menos que comporte com o prazer de alguns escutar “Pleutaurios”, “Bardyetânos”, “Allotriganos”, e outros nomes ainda menos prazerosos e de menos significância que estes.

[8] A qualidade de intratabilidade e selvageria nestes povos não tem resultado somente de seus engajamentos em estados de guerra, mas também em sua remotidão; pois a viajem a seu país, seja por mar ou terra, é longa, e uma vez que são difíceis para comunicarem-se, eles teem perdido o instinto de sociabilidade e humanidade. Teem este sentimento de intratabilidade e selvageria de forma menos intensa agora, em todo caso, por causa da paz e da estada dos Romanos entre eles. Mas onde quer que tais estadas sejam raras o povo é mais difícil de acordo e mais bruto; e se alguns são tão desagradáveis meramente como resultado da remotidão de suas regiões, é aparentado aqueles que vivem nas montanhas e ainda mais bárbaros. Mas agora, como eu tenho dito, teem inteiramente cessado de moverem guerra; pois ambos os Cantábrios (que ainda hoje, mais que o resto, reunem-se em bandos de marginais) e seus vizinhos têm sido subjugados por Augustus Caesar; e ao invés de pilharem os aliados dos Romanos, ambos os Coniancos e Pleutusios, que vivem perto da nascente do Iberos, agora tomam o campo para os Romanos. Mais, Tiberius, seu sucessor, tem posto sobre estas regiões um exército de três legiões (o exército já apontado por Augusutus Caesar), e então acontece que ele já rendera alguns destes povos não apenas pacificáveis mas civilizados também.

  • Cap. IV.

[3] Após esta cidade vem Abdera, a qual é em si mesmo um local fundado pelos Fenícios. Além destas regiões em questão, no país montanhoso, Odisséia está para ser vista, e nesta o templo de Athena, assim tem sido situado por Poseidonios, Artemiodoros, e Asclepíades o Myrleo, um homem que ensinava gramática em Turdetano e havia publicado uma contagem das tribos daquela região. De acordo com Asclepíades, escudos e bicos de navios tinham sido pregados no templo de Athena como memórias dos feitos de Odisseu; e alguns daqueles que fizeram a expedição com Teucer viveram na Callaicia, e houve certa vez duas cidades lá, das quais uma foi chamada Hellenés, e a outra, Amphilokhi; pois não apenas Amphilokhos morreu no lugar, mas seus companheiros perambularam tão longe quanto o interior do país. E, ele acrescenta ainda, história conta-nos de que alguns dos companheiros de Heracles e de emigrantes de Messena colonizaram a Ibéria. (…)

[5]…Este espírito de auto-suficiência, entre os Ibéricos me refiro, foi particularmente intenso, uma vez que pela natureza tinham já recebido ambas as qualidades de pouca-vergonha e aquela da insinceridade. Pois pelos seus modos de vida tornaram-se inclinados a atacar e roubar, aventurando-se apenas sobre belos empreendimentos, e nunca atirando-se em grandes proporções, visto que não estabeleceriam grandes forças e confederações. Por seguramente, se tivessem sido desejosos de ser companheiros de escudo um com os outros, não teria sido possível, em primeiro lugar, pelos Cartagineses  atropelarem e subjugarem muito de seu país pela superioridade de forças, ou ainda nos tempos tenros pelos Tyrios a fazerem isto, ou depois, por aqueles Celtas que agora são chamados de Celtibéricos e Verônios; nem, em segundo lugar, depois, pelo brigante Viriathos, ou por Sertorius, ou por qualquer outro que tenha almejado domínio mais amplo. E os Romanos, desde que mantiveram meramente em partes guerra contra os Ibéricos, atacando cada território separadamente, gastaram um tempo considerável na aquisição do domínio aqui, subjugando primeiro um grupo e depois outro, até, depois de duzentos anos ou mais, os tiveram todos sob controle. Mas eu retornarei a minha descrição geográfica.

[12] Atravessando por sobre a Montanha Idubeda, estás uma vez na Celtibéria, um largo e acidentado país. A maior parte dele é de fato esburacado e banhado de rios; pois é por estas regiões que o Anas flui, e também o Tagos, e outros muitos rios próximos a eles, os quais, nascem na Celtibéria, fluindo para o mar ocidental. Entre estes estão o Durios, o qual flui ante Numantia e Serguntia, e o Baetis, o qual, surgindo em Orospeda, flui pela Oretânia dentro da Baetica. Agora, no primeiro lugar, as partes ao norte dos Celtibéricos são o lar dos Verônios, vizinhos dos Cantábrios Coniscos, e eles também teem sua origem na expedição Céltica; eles teem uma cidade, Varia, situada atravessando o Iberos; e o território também corre contíguo aquele dos Bardyetos, quem os homens de hoje chamam Bardúlios. Em segundo lugar, as partes ocidentais são o lar de alguns dos Astúres, Callaicos e Vaccaios, assim como dos Vettões e Carpetanos. Em terceiro lugar, a parte sul é o lar, não apenas dos Oretanos, mas de todas as outras tribos dos Bastetânios e Edetânios que vivem em Orospeda. E em quarto lugar, no leste jaz a Idubeda.

[13] De novo, das quatro divisões nas quais os Celtibéricos tem sido separados, a mais poderosa, falando em termos gerais, são os Arvacos, que vivem no leste e sul, onde seus territórios se juntam à Carpetânia e as fontes do Tagos; e eles teem uma cidade de grande renome, Numantia. Eles deram prova de seu valor na guerra Celtibérica contra os Romanos, que perdurou por vinte anos; deveras, muitos exércitos, oficiais e todos, foram destruídos por eles, e pelo menos os Numantinos, quando sitiados, lutaram até a morte, exceto uns poucos que cercaram a fortaleza. Os Lusões, do mesmo modo, vivem no leste, e o território deles, também, junta-se as nascentes do Tagos. As cidades de Segeda e Pallantia <Ballantia?> ambas pertencem aos Arvacos. A distância de Numantia de Caesar Augusta, a qual esta, como eu dizia, está situada no Iberos, é tão quanto oitocentos stadia. As cidades de Segobriga <Colina-forte> e Bilbilis ambas dos Celtibéricos, e é próximo a estas cidades que Metellus e Sertorius tiveram sua guerra. Polybios, detalhando as tribos e distritos dos Vaccaios e Celtibéricos, inclui de resto as cidades de Segesama <Fortíssima> e Intercatia <Entre-batalhas?>. Poseidonios fala que Marcus Metellus acurou um tributo de seiscentos stadia da Celtibéria, da qual podia ser inferido que os Celtibéricos eram ricos assim como bem numerosos, embora o país que habitam é antes pobre. (…)

[15] Os Iberos foram uma vez, virtualmente todos eles, peltados, e usavam armadura leve em conta de sua vida brigante (como eu disse dos Lusitanos), usando pequenos escudos, funda e punhal. E entremeado com suas forças de infantaria estava a cavalaria, pois seus cavalos eram treinados para escalar montanhas, e, mesmo que não houvesse necessidade disto, a ajoelhar prontamente à palavra de comando. Ibéria produz muitos cervos e cavalos selvagens. Em lugares, também, seus brejos produzem com vida; e há pássaros, cisnes e outros; e também ‘bustards’ <abutres?>. Assim como castores, os rios os produzem, mas o castor destes não tem a mesma eficácia daqueles do Pontus; pois a qualidade medicinal do castor do Pontus é peculiar, assim como é o caso com qualidades em muitas outras coisas. Por sua vez, diz Poseidonios, o tanoeiro de Cyprus é o único que produz cala mina, chalcanthite e spodium. E isto é peculiar à Ibéria, de acordo com Poseidonios, que as gralhas são negras lá e que os cavalos ligeiros mosqueados da celtibéria mudam sua cor quando conduzidos para fora do Pai Ibéria. Os cavalos Celtibéricos são como aqueles de parthia, ele diz, pois não apenas são mais rápidos mas também mais suaves corredores que os outros cavalos.

[16] Ibéria também produz quantidades daquelas raízes que são úteis para tinturaria.  Assim como oliveiras, videiras, figueiras e plantas similares, a costa Ibérica em nosso Mar é ricamente suprida com todas elas, e é também em grande parte das outras costas. Mas a costa do oceano no norte não tem em conta nada disto em vista do frio, e, pela maior parte, o resto da costa oceânica não tem nada em conta do caráter desleixado do povo e o fato de viverem em um plano moral que é, teem apreço, não ao viver racional, mas ao invés para a satisfação das necessidades físicas e instintos bestiais ao menos que alguns pensem que aqueles homens tem estima por uma vida racional ao banhar-se com urina que deixam envelhecer em cisternas e lavam seus dentes nela, ambos eles e suas esposas, assim como os Cantábrios e os povos vizinhos é dito fazerem. Mas ambos este costume e o de dormir no chão os Ibéricos compartilham com os Celtas. Alguns dizem que os Callaicos não teem nenhum deus, mas os Celtibéricos e sues vizinhos ao norte oferecem sacrifício a um deus sem nome nas estações de lua cheia, à noite, na frente das portas de suas casam e todas as famílias dançam em coros e o fazem durante toda a noite. Os Vettões, quando visitaram os campos dos romanos pela primeira vez, supervisionando alguns dos oficiais passeando pra cima e pra baixo nas ruas meramente pela causa de andar ao redor, supuseram que eles estavam loucos e procederam a mostrar-lhes o caminho para as tendas, pensando que deveriam permanecer quietamente sentados ou então lutando.

[17] Alguém poderia também classificar como bárbaro no caráter os ornamentos de algumas mulheres, dos quais Artemiodoros relatou. Em alguns lugares, diz ele, elas usam no pescoço colares de ferro que teem báculos curvados que <são> atados por cima e protegem até na frente das testas; e nestes irão moldar seus véis sobre, de modo que o véu, assim espalhado, fornece uma sombra que protege o rosto; e tudo isto eles consideram um ornamento. Em outros lugares, diz ele, as mulheres usam ao redor das cabeças um “tympanion”, envolto atrás da cabeça, e, distante quão ‘ouvidos rústicos’ <’ear-lobes’???>, atando a cabeça fortemente, mas gradualmente virando pra cima e aos lados; e outras mulheres mantêm o cabelo preso da frente da cabeça tão proximamente que brilha como uma testa; e ainda outras mulheres põe um báculo de cerca de um pé de altura na cabeça, enrolando o cabelo no báculo, e o cortinam com um véu negro. E ao lado de relatos verdadeiros deste tipo, muitas outras coisas teem não somente sido vistas mas também narradas com adições fictícias sobre todas as tribos da Ibéria em comum, mas especialmente os nortistas, me refiro não somente as estórias relatando a coragem deles mas também relatando sua ferocidade e insensibilidade bestial. Por instância, no tempo da Guerra Cantábria, mães matavam seus filhos antes de serem tomados cativos; e mesmo um garotinho, cujos pais e irmãos foram nas travas como escravos de guerra, ganhou a posse de uma espada e, ao comando de seu pai, matou-os todos; e uma mulher que matou todo <?> seu companheiro escravo; e um certo Cantábrio, a ser invocado na presença do homem embriagado, lançou-se em cima da pira. mas estes tratos também são compartilhados em comum com os Célticos assim como com os Thrácios e Scýthios; Em comum também os tratos relativos a coragem, me refiro a coragem das mulheres tal qual dos homens. Por exemplo, estas mulheres lavram a terra,e quando dão a luz elas põe seus conjugues para a cama ou invés de irem elas próprias e ministram à eles; e ainda quando no trabalho nas terras, as vezes, elas viram para certo riacho, dão a luz a um bebê, o lavam e o enrolam. Poseidonios diz que na Ligúria seu anfitrião, Kharmoleon, um homem de Massilia, narrou para ele que havia contratado homens e mulheres para cavarem uma fossa; e de como uma das mulheres, a <quem estava> sendo aumentada com as pontadas do nascimento da criança, foi ao lado de seu trabalho em um lugar próximo, e após ter dado a luz a seu bebê, voltou ao seu trabalho mais uma vez em vista de não perder o pagamento; e de como ele próprio viu que ela estava fazendo seu trabalho dolorosamente, mas não estava ciente até tarde no dia, quando ele soube e a mandou embora com seus empreendimentos, e ela carregou o infante a uma pequena nascente, o banhou, o enrolou com o que tinha, e o levou para casa são e salvo.

[18] Nem ainda é o costume que se segue peculiar aos Ibéricos sozinhos: cavalgam em dupla, pois na hora da batalha um dos dois luta a pé; nem o especialmente grande número de ratos, dos quais doenças pestilentas teem geralmente ocorrido. Este foi tanto o caso para os Romanos na Cantábria que, por meio de uma proclamação que foi feita para que os cata-ratos ganhassem recompensas proporcionais ao número de ratos pegos, os Romanos viriam apenas com suas vidas; e além da praga, havia escassez, não apenas de outras matérias, mas de grão também, e apenas com dificuldade puderam obter suprimentos da Aquitânia em conta das estradas ríspidas. Assim pela insensibilidade dos Cantábrios, tal é dito, nomeadamente, que quando alguns cativos Cantábrios tinham sido crucificados procederam a cantar seus hinos de vitória. Agora tais tratos como estes indicariam uma certa selvageria; e já há outras coisas quais, apesar de não <serem> marcas de civilização talvez, não são brutalidades; pois é costume entre os Cantábrios os maridos darem dotes as suas esposas, para as filhas serem deixadas como herdeiras, e os irmãos serem casados longe por suas irmãs. O costume envolve, de fato, um tipo de governo das mulheres mas isto não é no todo marca de civilização. Também é um costume Ibérico habitualmente ter em mãos um veneno, o qual é feito por eles de uma erva que é próxima a salsa e indolor, de maneira a terem em prontidão para qualquer eventualidade irreversível; e é um costume Ibérico, também, devotar suas vidas a quem quer que eles se apeguem, inclusive ao ponto de morrerem por esta pessoa.

[20] No tempo presente, agora que algumas das províncias terem sido declaradas propriedades do povo e do senado, e as outras aquelas  do imperador Romano, Baetica pertence ao povo; e para governar eles mandaram um praetor, que tem sob si um questor e um legatus; sua fronteira, pois, no leste, tem sido posta na vizinhança de Castalo. Mas todo o resto da Ibéria é de Caesar; e ele manda lá dois legati, praetori e cônsules respectivamente; o legatus praetori, que tem com ele um legatus de sua cidade, sendo enviado para administrar a justiça aqueles Lusitanos de cujo país é situado ao longo da Baetica e se estende até o rio Durios e suas bordas (ao invés, nos dias de hoje aplicam o nome Lusitânia especificamente a este país); e aqui, também, esta aquela Augusta Emérita. O restante do território de Caesar (e é a maior parte da Ibéria) esta sob o governante consular, que tem sob suas ordens, não apenas um notável exército de, devo dizer, três legiões, mas também três legati. Um dos três, com duas legiões, guarda as fronteiras de todo o país além do Durios ao norte: os habitantes deste país foram chamados assim pelo povo do egresso as vezes como Lusitanos, mas pelo povo de hoje são chamados Cantábrios. O rio Melso flui pela Astúria, um pouco adiante está a cidade de Noiga, e próximo à Noiga há um estuário do oceano, que é a fronteira entre os Astúres e os Cantábrios. O país em seguida, ao longo das montanhas até os Pirineus, é guardado pelo segundo dos legati e a outra legião. O terceiro legatus supervisiona o interior, e também conserva os interesses daqueles povos que hoje são chamados de Togati <”togados” – romanizados> (ou como poderias dizer “inclinados à paz”), e teem sido transformados, vestidos em suas togas, a sua presente gentileza de disposição e seus modos de vida Italianos; estes últimos são os Celtibéricos e os povos que vivem próximos deles em ambos os lados do rio Iberos até as regiões próximas ao mar. Assim como para o governante em si mesmo, ele passa os invernos administrando a justiça nas regiões costeiras, e especificamente em Nova Cárthago e Tarraco, enquanto que no verão vai ao redor da província, sempre fazendo uma inspeção de algumas das coisas que requerem retificação. Caesar também tem procuradores lá, de grau eqüestre, que distribui entre os soldados tudo que é necessário para a manutenção de suas vidas.

Inté!

Lúnasa

AO DEVS LVGV

Marcílio Diniz.

Terras Altas de Ypuarana, Parahyba.

Em louvor canta o poeta
Que roga à deusa em verso
Que um pouco do universo
De imensidão completa
Venham como uma seta
Em três raios a iluminar
Onde o escuro fez brotar
Uma gota de som rimado
Em um rio enladeirado
Possa o verso enlaçar

Canto a glória do brilhoso
Da lança que nunca falha
Cortante como navalha
Em gesto harmonioso
Que é multi-habilidoso
De mãos largas a manejar
Mirou certo pra disparar
Pelo raio da silibrina
Pela terra nordestina
Ao firmamento alcançar

O olho mais destruidor
Que seca açude e barreiro
Assa a folha do juazeiro
E mata o boi cultivador
Tira a beleza e o frescor
Trazendo um rubro de matar
Fazendo o vento assoviar
Uma canção de lamento
Que não deixa o esquecimento
Conta da morte tomar

O som da marcha da guerra
Alegra muito o coração
Atravessando a imensidão
Do firmamento que enserra
Cortou a lança que não erra
Fulminante a bem acertar
O olho que fez inflamar
O mundo em um fogareiro
Fazendo fechar o brazeiro
E achuva branda escorregar

A vitória do de mão larga
Sobre o olho destrutivo
Faz possível o cultivo
Canteiro e roça larga
A laranja não amarga
O tamboril põe-se mostrar
Verde copa a sombrear
O broto nascendo no chão
Cantando alto o azulão
No espinheiro a balançar

Me despeço agradecido
Ao deus da lança certeira
De mão hábil e ligeira
Que muito tem favorecido
Deusa que tem permitido
Os versos aqui se enlaçar
Vendo a chuva se deitar
Pelos campos e plantações
Alegrando os corações
Pelo Nordeste a cavalgar!

Lugus, o vitorioso.

LVGVS.

Marcílio Diniz.

CARMICHAEL, A. Carmina Gadelica v.1. Edinburgh: Oliver and Boyd, 1928. p. 210.

Lugh* nam Buadh.

Deanam an cuarta
An cluanas mo naomh.
Air machair, air cluan domh,
Air fuar-bheanna fraoch;
Ged shiubhlam an cuan
‘S an cruaidh cruinne-ce
Cha deifir domh gu sior
‘S mi fo dhidionn do sgeith;

A Lugh nam buadh,
M’ ailleagan ere,
A Lugh nam buadh,
Buachaille De.

Tri Naomh na Gloire
Bhith ‘n comhnuidh rium reidh,
Ri m’ eachraidh, ri m’ lochraidh,
Ri cioba cloimh an trend.
Am barr ta fas air raona
No caonachadh an raoid.
Air machair no air mointeach,
An toit, an torr, no an cruach.

Gach ni tha’n aird no’n iosal,
Gach insridh agus buar,
‘S le Trithinn naomh na gloire,
Agus Lugh corr nam buadh.

————————-

Boudikos Lukus[1].

Damnami mouom koruinom
Enibratirata mouo noibo.
Are rouesiaz, are klouniokuz,
Are ougrobrigiz rosokuz;
Iom enimoribarui kensu
Ekue enikaletei koruinei bitos
Nenuz drukom uermez anseti
Usanetlom touo skeito;

A boudike Luku,
Tlustus mouos kredos,
A boudike Luku,
Boukolis deiuos.

Tris Noibos Glorias
Aiui me tanegounei,
Mouus ekuus, mouus bouus,
Ouim ulano enialamubos.
Seimetus eniaratei to staunei
Iste enigablei to makounei.
Are rouesiaz arenuzue,
Enimukai, enialtei enisondubosue.

Oskuez arduos istelosue,
Oskuez gortiga alamukue,
To noibuz Triuz glorias,
Ekue boudikos Lukus.

————————-

Lugh o vitorioso.

“<Eu> faço meu circuito
Na irmandade de meu santo.
No machair**, no prado,
Na gélida colina em charneca;
Embora viajasse no oceano
E no duro círculo do mundo
Nenhum prejuízo possa recair até mim
Embaixo do abrigo de teu escudo;

Ó Lugh o vitorioso,
Jóia de meu coração
Ó Lugh o vitorioso,
Pastor dos deuses

Três Sagrado de Glória
Sempre em assistência a mim,
A meus cavalos, a meu gado,
A ovelha de lã em rebanhos.
As safras crescendo no campo
Ou amadurecendo no feixe.
No machair ou no charco,
Na fumaça, no monte ou no maço.

Cada coisa <que> está no alto ou  em baixo,
Cada fornecimento e floco <cardume?>
Está para a Trindade santa da glória,
E a Lugh o vitorioso.”

————————–

OBS:
*Lugh está no lugar de Michael, vd. KONDRATIEV, A. Lugus – o Senhor de muitos Talentos.
**Machair > no nosso pequenino dicionário, achamos apenas ‘mach’ – “fora, lugar aberto, lado de fora”. Em todo caso, o próprio Alexander Carmichael não traduz o termo para o inglês.

[1]versão em keltiberika: O Vitorioso Lugus

“Amarro meu cercado
Na irmandade de meu santo.
Diante da campina, diante do prado,
Diante da colina-gélida na charneca;
Enquanto  andar no grande-mar
E no duro círculo do mundo
Nenhum mal chegue até mim
Embaixo do refúgio de teu escudo;

Ó Lugus vitorioso,
Jóia de meu coração
Ó Lugus vitorioso,
Pastor dos deuses

Três Sagrados de Glória
Sempre a proteger-me
A meus cavalos, a meu gado,
A ovelha de lã em rebanhos.
As sementes a porem-se-de-pé no arado
Ou a crescer no ramo.
Diante da campina ou no charco,
Na fumaça, no monte ou nas varas.

Cada alto ou baixo
Cada tessera e rebanho
<Está> para o santo Trio da glória,
E a Lugus o vitorioso.”

Inté!

M. Diniz, Parahyba.

UMA POSSÍVEL REINTERPRETAÇÃO DA ‘INCVBATIO’ RELACIONADA À ENDOVÉLLICO.

O breve texto que se segue é oriundo de leituras e de algumas experiências que gostaríamos de compartilhar. Deve ser visto como um teste, ou antes como algo provisório e passível de melhoras. Em todo caso, espero que vos seja útil em algum aspecto; e sejais livres para modificar e adaptar qualquer aspecto, sugerir e criticar. Seguimos, no geral, o excelente artigo do estudioso José Cardim Ribeiro, O Deus Sanctus Endovellicus durante a Romanidade, exposto na revista Paleohispanica v. 5 (2005) e sua argumentação, relacionada aos testemunhos arqueológicos, acerca da interpretatio romana do deus como ‘SILVANVS’.

Sobre os aspectos mais metafísicos e certos “comprometimentos ontológicos” este passo também é discutível, ainda sim, preferimos relegar tais questões ao campo das ‘crenças’ ou das UPG (GPN: Gnose Pessoal Não-substanciada).

O deus Endovéllico, um dos mais populares, se não o mais, deuses lusitanos nos nossos dias (na verdade desde um bom tempo, inclusive na Antigüidade), de tal forma, que seu culto estendia-se das camadas mais populares (escravos, camponeses, etc.) às mais favorecidas (RIBEIRO. 2005, p. 726) oriundos de diversos lugares, é uma deidade essencialmente silvestre, do mato, dos bosques, rochedos e lugares selvagens (em especial o local onde havia seu santuário: São Miguel da Mota, Portugal) a quem nos voltamos nestes esboços. Durante a presença romana, geralmente era representado nú (as vezes com uma capa ou pele de animal nas costas), corpo não atlético (no sentido de músculos não tão bem-definidos), barbado, cabeleira espessa, olhar sereno, face madura, segurando uma vasilha ou copo, segurando ainda uma vara, ou galho – lembrando, a exceção do martelo, as representações do deus gaulês Sucellos. Associado simultaneamente as aspectos infernais (no sentido “sub-múndico”), salutíferos e ’salvadores’ além de oraculares, ainda, de acordo com os animais que geralmente lhe eram sacrificados – o porco, javali, aves e frutos silvestres – eventualmente cabras, à terceira função dumeziliana (Ibid.), à palma, à pinha, o louro e, apesar de não ser unanimidade entre os estudiosos, o lobo. Muitas são as interpretações do nome do deus, sendo as mais aceitas (remontando à Leite de Vaconcellos) – “aquele que contém em si próprio o querer bem”, “aquele que é em si mesmo benemerente, favorável, propício” (Ibid.).

É aceite em nossos dias (Ibid. p. 735), que tanto haviam práticas oraculares “diretas” como as “intermediadas” por meio de sacerdotes ou áugures especializados (no ‘templum’ do deus), sendo em sua maioria, práticas “diretas”. Nos voltaremos à estas práticas diretas, em especial à denominada pela tradição latina de ‘incubatio’. A ‘incubatio’, “encubação”, consistia, grosso modo, em ritos específicos que após realizados o executante dormia, geralmente junto a uma fonte, gruta, fenda ou nascente, e através dos sonhos a divindade lhe comunicava algo. Ainda, pelas matas onde o deus presidia e pressentia (eis os atributos ‘praestantissimus et praesentissimus numen’ – ser prestantíssimo e presentíssimo na região delimitada?), haviam a possibilidade direta da voz do deus ser ouvida pelo devoto. Neste sentido, o devoto, geralmente dirigia-se ao local “ao natural”: cabelos soltos, vestes rústicas, nenhuma jóia ou adorno, pés descalços ou mesmo nu, algumas vezes oferecia o sacrifício ele próprio e com parte deste sacrifício junto de si (a pele no animal ensangüentada, por exemplo) dormia no chão. A voz do deus vinha de baixo, “ex imperatio auerno” (Ibid. p. 737). A idéia do ‘contato íntimo’ com o natural e com os aspectos “não-civilizados”, parecia ser de extrema importância (como o era no culto de Silvanus/Faunus). Doravante, perguntar-nos-ia: e nos nossos dias?

Eis uma possível proposta:

  • Oferendas: frutas sazonais silvestres.
  • Local: o ideal seria um local específico, como uma mata, um bosque, um rochedo, uma nascente ou um local que reunisse isso tudo, e que houvesse um altar ou espaço dedicado para oferendas às entidades do local ou mesmo ao deus Endovéllico. Como isto é problemático em certos contextos, a não ser que estejamos pertinho de São Miguel da Mota, sugiro que busquemos alternativas. Uma seria dedicar um espaço, ou um altar próprio à este deus em um ambiente da casa ou nos arredores (se houver algum espaço “natural” na propriedade). O importante é que seja um local/espaço já previamente associado ao deus, e que “funcione”, onde o dedicante sinta sua “presença”; isto pode levar anos. De acordo com os pressupostos ontológicos de cada um, um local onde há uma constatação de que povos indígenas ou outros honraram uma divindade de “funções semelhantes” talvez seja adequado. Sinceramente, tenho minhas reservas a este tipo de procedimento (de “neo-interpretatio”) por considerá-lo desrespeitoso em certo sentido e problemático com certos pressupostos que assumo.
  • Vestimenta: de acordo com o local, acredito que este ponto pode ser definido de maneira mais adequada. Por exemplo, se o/a dedicante mora sozinho em seu apartamento, acredito que nada impede que faça o rito nu/nua. No geral, seria interessante roupas bem simples ou rústicas, nenhum adornou ou bijuteria (no máximo uma coroa ou guirlanda de folhas de palmeira, ou louro) e pés descalços.
  • (Opcional)Utensílios: uma faca, foicinha ou punhal ritual.
  • Preparações: seria interessante (no sentido de que “provavelmente funcionaria melhor”) se o/a dedicante estivesse “limpo”. Caso não conheça uma técnica específica as “rezadeiras” e “benzedeiras” são uma boa opção. O/a dedicante deve estar concentrado o máximo possível e principalmente “conectado” com o local (também há várias técnicas neste sentido, como os “centramentos”, meditações diversas como a da árvore, dos dois pilares, etc.). Grosso modo, o/a dedicante deve estar concentrado, com o nível de trabalho da freqüência cerebral em ‘alfa’, no mínimo, e com o ’sentimento/percepção’ de estar integrado e a vontade no lugar. Também é necessário que o/a dedicante tenha meditado por certo tempo o que procura, sobre o que gostaria de receber o “conselho”, a ordem, e tenha os objetivos claros em sua mente.
  • Tempo: a assimilação da divindade com o sub-mundo e com aspectos avernais num geral, parece indicar que o rito seja melhor feito durante a noite. Este ponto é obscuro, não há nada em nossas fontes que sugira algo. Caso o rito seja realizado durante a noite, talvez seja necessário algum tipo de fogo.

O rito:

Após as devidas preparações, o/a dedicante dirige-se ao altar:

“Venho em teus domínios, ó Endovéllico,
deus santo, do mundo de baixo,
cuja escuridão e bonança auxilia,
salvador que traz o bem,
cura e revela o que há de ser,
deus santo Endovéllico,
à ti sacrifico,
para que digas a ordem do mundo de baixo,
pelo sono encantado,
e peço de boa mente, que aceites meu sacrifício”*

São ofertados as oferendas (caso haja um utensílio ritual como um punhal, este é passado sobre a oferenda simbolizando a ‘passagem de estado’).
É guardado alguma parte da oferenda, mesmo que seja simbolicamente.

O/a dedicante deita-se e tenta dormir em cima da parte guardada (este ponto também dependerá de vários contextos, pode ser forrado algo no chão e colocado a parte guardada da oferenda em baixo, por exemplo. Talvez, colocada a parte guardada da oferenda em baixo do travesseiro funcione, não sei, é algo a se testar…).

Recomenda-se que se tenha um caderno ou algo a mão para que assim que quando desperto o/a dedicante possa de imediato anotar o sonho. Evidentemente, acontecerá de não dar certo, por algum motivo, ou ainda, como já aconteceu comigo, outra pessoa próxima (um familiar, conjugue, etc.) venha a ter um sonho significativo (provavelmente não haverá muito “simbolismo” não: uma voz ou uma pessoa, geralmente, fala abertamente sobre o assunto).

Em todo caso, está ai, e espero que vos seja útil de alguma forma.

*Os que possuem alguma familiaridade com línguas antigas, em especial com o latim ou uma língua celta continental antiga (as reconstruídas), podem desejar falar o conjuro nestas línguas.

Em latim seria algo como:
“In tuis dominationibus uenio, o Endouellice,
deus sanctus auerni,
eo tenebris tranquilitatibusque auxiliatur,
liberator bonum conferens,
curens et futurum patens,
deus sanctus Endouellicus,
tibi sacrifico,
ut ex imperatio auerno dicas,
per incantatum somnum,
et libens rogo, ut meum sacrificium acceptes”.

Em keltiberika:
“Enitouubos rigiubos anku, a Endouellike, <em teus domínios venho, ó Endovéllico,
noibodeiuos udumno, <deus-santo do mundo-de-baixo
es tei skatem iakamkue ambitikonti, <(vindo) de ti constituem a escuridão e a salvação
anetlatis iom matom bereti, <protetor que traz a coisa boa,
ekue iskati ekue toruati bueteiom, <limpa assim-como proclama a-coisa-que-está-para-ser
noibodeiuos Endouellikos, <deus-santo Endovéllico,
totei atiberiu, <para-ti sacrifico,
toiomei sketlem es udumnei toruaii, <para-que proclames a récita (vinda) do mundo-de-baixo,
deiuoreikei sounu, <pelo sono atado/querido-pela-divindade(sagrado/inviolável),
uta comatumelbunez ueziu, iom mouam abertam komberaii” <e com-boa-mente oro, que recebas minha oferenda.

Em labraion:
In towobi rîgiobi encû, â Endowellice, <em teus domínios venho, ó Endovéllico,
windodêwos anderni, <deus-santo de baixo,
ex te dubu iâninc atespînt, <de ti o escuro e a verdade respondem,
anextlâtis dagon rodîtio, <protetor que-dá a coisa boa,
â iaccîovire ac welîtsagie, <ó curador e propício-a-ver (o futuro),
windodêwos Endowellicos, <deus-santo Endovéllico,
do tei adberû, <para ti sacrifico,
do sepon ex andumnû radesio, <para que fales o dito (vindo) do mundo-de-baixo,
canta nemetosounon, <pelo sono-sagrado,
ac con subritû wediû, mowin adbertin comberaissio (comberxetio?)” <e rezo com boa-mente, que recebas minha oferenda.

FONTES:
RIBEIRO, José Cardim. O Deus Sanctus Endovellicus durante a romanidade: ?uma interpretação local de Faunus/Silvanus? In PALEOHISPANICA v.5. Zaragoza: Institución “Fernando el Católico”, 2005.

ALVISSMOL

ALVISSMOL

Versão em português por Marcílio Diniz a partir da tradução inglesa de Henry A. Bellows (BELLOWS, H. A The Poetic Edda. Mineola: Dover publications, 2004.)

Alvis -> em islandês all+vis -> “(o que) tudo sabe, que é certo em tudo”. A noiva em questão é a filha de Thor, Thruth -> þrúðgr, “forte, poderosa” – talvez relacionado à þruma, “trovão”.

1. Alvis:
“Agora deve a noiva | meus bancos adornar,
e em direção à casa imediatamente;
Ansioso pelas núpcias | à todos devo eu parecer,
Nem em casa hão eles de roubar-me do descanso.”

2. Thor:
“O que, rogas, tu és? | Por que tão pálido ao redor do nariz?
Pelos mortos tu tens jazido tarde?
A um gigante como | tu fazes parecer, penso;
Tu não nascestes para a noiva.”

3. Alvis:
“Alvis eu sou, | e embaixo a terra
Eu tenho meu lar próximo as pedras;
Com o guia-de-vagão | uma palavra eu procuro;
Permita aos deuses não quebrar suas juras.”

4. Thor:
“Eu hei de parar isto, | por sobre a noiva
Seu pai tem direito a mais;
Em casa eu não estava | quando a promessa tu tivestes,
E eu dei-a sozinha dos deuses.”

5. Alvis:
“Que herói clama | ter tais direitos
Sobre a noiva que reluz tão brilhosa?
Não muito te conhecerá, | tu, homem  vagabundo!
Quem foi comprado com anéis para suportar-te?”

6. Thor:
“Vingthor*, o vagador | amplo, eu sou,
E eu sou filho de Sithgrani**
Contra minha vontade | tu hás de obter a dama,
E ganhar a palavra de casamento.”

7. Alvis:
“Tua bem querença agora | eu facilmente hei de obter,
E ganhar a palavra de casamento;
Eu a muito a ter, | e eu não falharia,
Esta dama branca-neve para mim.”

8. Thor:
“O amor da dama | eu não posso prender-te
Do ganho, tu hóspede tão sábio,
Se de cada mundo | tu puderes contar-me tudo
Que agora eu desejo saber.

9.
Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como eles chamam a terra, | que jaz diante de todos,
Em um e cada mundo?”

10. Alvis:
“’Terra’ aos homens, ‘Campo’ | aos deuses é,
‘Os Caminhos’ é chamado pelos Wanes;
‘Sempre verde’ pelos gigantes | ‘A que cresce’ pelos elfos,
‘A aquosa’ pelos altos sagrados.”

11. Thor:
Responda-me, Alvis! | Tu que soubestes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como eles chamam o céu, | visto do que é alto,
Em um e cada mundo?”

12. Alvis:
“’Céu’ homens o chamam, | ‘Altitude’ os deuses,
Os Wanes ‘O Tecelão dos Ventos’;
Gigantes ‘O Mundo de Cima’,     | elfos ‘O Belo Telhado’,
Os anões ‘O Salão Gotejante’.”

13. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como eles chamam a lua, | que os homens vêem,
Em um e cada mundo?”

14. Alvis:
“’Lua’ com os homens, ‘Chama’ | entre os deuses,
‘A Roda’ na casa de Hell;
‘A que Vai’ os gigantes, | ‘A que Cintila’ os anões
Os elfos ‘A que Conta o Tempo’.”

15. Thor:
Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como eles chamam o sol, | que todo homem enxerga,
Em um e cada mundo?”

16. Alvis:
“Os homens o chamam ‘Sol’,| deuses ‘Orbe do Sol’,
‘O Enganador de Dvalin’ os anões;
Os gigantes ‘O Sempre-Brilhoso’, | elfos ‘Bela Roda’,
‘Todo-Ardor’ os filhos dos deuses.”

17. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como eles chamam as nuvens, | que prende as chuvas,
Em um e cada mundo?”

18. Alvis:
“’Nuvens’ homens as nomeiam, | ‘Esperança-de-Chuva’ deuses as chamam,
Os Wanes chamam-as ‘Pipas do Vento’;
‘Esperança-de-Água’ gigantes, | ‘Poder-do-Tempo’ elfos,
‘O Elmo dos Segredos’ no Hell.”

19. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como eles chamam o vento, | que vai amplo,
Em um e cada mundo?”

20. Alvis:
“’Vento’ os homens o chamam, | os deuses ‘O que faz Ondas’,
‘O relinchador’ os altos sagrados;
‘O que Geme’ os gigantes, | ‘Dirigente que Ruge’ os elfos,
No Hell ‘A Rajada Violenta’.”

21. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como eles chamam a calmaria, | que repousa quieta,
Em um e cada mundo?”

22. Alvis:
“’Calmaria’ os homens a chamam, | ‘A Quietude’ os deuses,
Os Wanes ‘O Silêncio dos Ventos’;
‘O Abafamento’ os gigantes, | elfos ‘Repouso do Dia’,
Os anões ‘O Refúgio do Dia’.”

23. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como chamam eles o mar | por onde os homens navegam,
Em um e cada mundo?”

24. Alvis:
“’Mar’ os homens o chamam, | deuses ‘O que jaz macio’,
‘A Onda’ é chamado pelos Wanes;
‘Lar da Enguia’ os gigantes, | ‘Estofo de Beber’ os elfos,
Para os anões seu nome é ‘O Profundo’”

25. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como chamam eles o fogo | que arde para os homens,
Em um e cada mundo?”

26. Alvis:
“’Fogo’ os homens o chamam, | e ‘Chama’ os deuses,
Pelos Wanes é ‘Fogo-Selvagem’ chamado;
‘O que Fere’ pelos gigantes, | ‘O Queimador’ pelos anões
‘O Veloz’ na casa de Hell.”

27. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como chamam eles o bosque | que cresce para a humanidade,
Em um e cada mundo?”

28. Alvis:
“Homens chamam-no ‘O Bosque’, | deuses ‘A Crina do Campo’,
‘Alga das Colinas’ no Hell;
‘Comida da Chama’ os gigantes, | ‘Belo-Enramado’ os elfos,
‘A Vara’ é chamado pelos Wanes.”

29. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como chamam eles a noite | a filha de Nor,
Em um e cada mundo?”

30. Alvis:
“’Noite’ homens a chamam, | ‘Trevas’ deuses a nomeiam,
‘O Capuz’ os altos sagrados;
Os gigantes ‘A destituída de Luz’, | os elfos ‘Alegria do Sono’,
Os anões ‘A Tecelã de Sonhos’.”

31. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como chamam eles a semente | que é semeada pelos homens,
Em um e cada mundo?”

32. Alvis:
“Os homens a chamam ‘Grão’, | e ‘Cereal’ os deuses,
‘Crescimento’ no mundo dos Wanes;
‘O Comestível’ pelos gigantes, | ‘Estofo de Beber’ pelos elfos,
No Hell ‘Haste-Esbelta’.”

33. Thor:
“Responda-me, Alvis! | Tu que sabes tudo,
Anão, da condenação dos homens:
Como chamam eles a cerveja | que é tragada a grandes goles pelos homens,
Em um e cada mundo?”

34. Alvis:
“’Cerveja-Ale’ entre os homens, | ‘Cerveja’ entre os deuses,
No mundo dos Wanes ‘A Espumante’;
‘Gole Brilhoso’ com gigantes, | ‘Hidromel’ com os habitantes do Hell,
‘O Gole-de-Festa’ com os filhos de Suttung.”

35. Thor:
“Em um único peito | eu nunca tinha visto
Maior riqueza de saber antigo;
Mas com estratagemas traiçoeiros | eu devo agora te trair:
O dia tem te apanhado, anão!”
(agora o sol brilha aqui na sala***)

*“Thor o lançador”
**“Longa-Barba”, Othin.
***Os anões são transformados em pedra quando expostos à luz do sol.

Umas considerações…

Pedimos nossas desculpas aos que frequentam este blog pela demora em postagens novas. Os dois autores estão envolvidos em demasia com seus cursos e outros assuntos, num geral, esperamos que agora nestas férias o barco ande a bons ventos.

Em todo caso, não esquecemos as traduções (inclusive as da Edda poética) e esperamos em breve compartilhar convosco algo neste sentido.

Inté!

Marcílio Diniz.

AO SOLSTÍCIO DE VERÃO

CANTO PARA O SOLSTÍCIO DO VERÃO.

(Marcílio Diniz. A maneira dos aboios)

O poeta invoca a deusa
Que trás sempre Inspiração
Por meio destas palavras
Recitadas de antemão
Possa o fogo surgir
Tomar a cabeça e ir
Pelos versos num clarão

Eu venho diante do vento
Cantar os Imortais
Os Poderosos serenos
Desde nossos ancestrais
Pela palavra briosa
Pela rima imperiosa
Que não caia aqui jamais

Ô, nascido muito fremoso
Um touro marrom-dourado
Do couro mais bonito
Como nunca foi avistado
Grande, forte e valente
Da respiração tão quente
Que deixava capim queimado

O Touro era garboso
E imenso na grandeza
Suas patas eram troncos
Seus chifres uma fortaleza
Seu olhar era um feitiço
Que despertava o viço
Em um elogio de beleza

Os cascos pesados batiam
Parecendo um truvão
O mugido poderoso
Estremecia o chão
O andar despreocupado
Três garças do seu lado
Acenando à imensidão

De tanta beleza e força
Passou a ser cobiçado
Todos olhavam p’ra ele
Cum desejo arraigado
Sua fama s’espalhou
Inté o vento cantou
O seu nome por todo lado

Na boca de todo vaqueiro
Da região onde se fez
Até as Terras Encantadas
Onde um dia é um mês
Por sobre as terras  altas
Aonde a perna do vento salta
E onde a escuridão é a tez

No manto da bruma branca
Do vistoso verde da serra
No cheiroso cheiro da chuva
Quando esta beija a terra
Disseram a Dama do Sol
Que o brilho do arrebol
Diante do Touro erra

O Sol tão curiosa
Passou a percurar
Quando viu o Touro garboso
Não pode não s’apaixonar
Um pássaro do amor
Voou fazendo um Flor
Para o Touro enxergar

Esta paixão violenta
Fez o Sol sair correndo
Deixou o seu lugar
com verocidade se movendo
Atravessou o céu
Nos lábios um beijo de mel
Cum desejo ia trazendo

O Touro sumiu da vista
Por alguém foi roubado
Foi escondido aonde
Pelo Sol não era avistado
O sol se modificou
Em um mostro se tornou
D’um olho amaldiçoado

O olho do Sol furioso
Queimava a terra achatada
Queimava o riacho doce
A mata toda fulorada
Sem piedade nem dó
O ranço de um amor só
Faz a terra toda tostada

Nos rumores da guerra
Nas lanças reluzentes
Os mortais e alguns divinos
Em gumes de combatentes
A Jurema dispôs poder
O Umbuzeiro sem padecer
Ao Sol em guerra moventes

Os vaqueiros se reuniram
Sob a égide do Caçador
O mundo secando branco
Em morte, quintura e dor
No campo de batalha
Correndo fora da mortalha
Num galope de valor

O olho do Sol mortal
Em vantagem reinante
Tirou a força dos rios
O frescor do ar soprante
Mas o Caçador achou
O Touro que procurou
Graças ao vento falante

Trouxe o Touro valoroso
Diante do olho solar
Enfiou-lhe uma pexeira
Fazendo o sangue jorrar
Por isto o vermelhidão
Qu’está nas terras do sertão
No chão raso a descansar

Numa cavalgada certeira
O zumbido então se ouviu
O soar de um berrante
Cortando como um vento friu
Fez o sol parar no instante
Em que viu o seu amante
No aço que sucumbiu

A Gameleira gritou
Imburana e o Marmeleiro
A Espinheira e o velho
Embaixo de um Oitizeiro
Na toada da viola
Onde um cantador imbola
Na sombra do Cajueiro

O Sol voltou em tristeza
Num percurso inconsolado
Cortando o firmamento
Num rastro desmoronado
Cambaleante e serena
Não teve quem viu a cena
E não ficou emocionado

Triunfante o Caçador
Levanta a cabeça bovina
As três garças levantam vôo
Por sobre a vasta campina
Num vôo do céu azul
As três deslizando do sul
Como som d’uma concertina

Mas o sangue derramado
Não se dá por tão vencido
Quando o escuro triunfa forte
E cada estrela já tem ido
No meio da treva brada
No brio de luz dorada
Outro Touro já nascido

Eu me dispeço agora
Neste verso recitado
Agredecido a deusa
Que as rimas tem rimado
E ao vento que porta a voz
E os deuses de todos nós
E aos condutores do gado

Ê… ô gado que corre no firmamento!

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