Comentário acerca do “Sobre a Antiga Religião” de Varg Vikernes

Varg Vikernes

Saudações!

Neste blog, vez ou outra, faço questão de tratar de temas que me chamam atenção ou que, no meu ver, precisam ser comentados de modo a trazer uma reflexão mais ampla para meus conterrâneos. Claro, nem sempre se alcança o objetivo, mas enfim. Hoje venho cá tratar de um texto super interessante e que, no meu ver, merece comentários. Mas antes de fazê-lo gostaria de indicar dois grandes blocos de pensamento que compõem o contexto no qual escrevo.

Radicalismo x Paganismo.

Uma sondagem rápida no meio pagão mostrará claramente que boa parte dos sujeitos com discursos mais radicais, de alguma forma, estiveram ligados à subcultura de Heavy Metal Extremo no passado – e geralmente, assumiram naqueles tempos viés extremo/radical no comportamento. Há uma espécie de fetiche, do “malzão”, de ser respeitado ou algo assim em torno disto e quando aliado à condição juvenil, tem-se a mistura perfeita. O pessoal do meio relembrará bem a oposição mortífera entre o “poser” e o “true“, entre o underground e o mainstream, o peso da ideologia e o cultivo de um puritanismo estético/musical/ideológico sério. Eu próprio experimentei isso na minha adolescência. Há quem diga – já ouvi bem dito – que o sujeito até sai do radicalismo, mas o radicalismo teima em não sair do sujeito. Considerando a diversidade e diferença natural entre as pessoas (e mesmo considerando os pagãos mais cultuais e os mais religiosos, para usar uma distinção do gardneriano Gus diZerega), é óbvio que não há, necessariamente, problema algum com gente radical – a existência disto está em conformidade com a Natureza. Sempre houveram radicais, sempre há radicais e sempre haverão radicais. O problema, ou melhor, o que pode causar problema, é um certo sentimento que pode emergir daí, um sentimento de que há “eleitos”, mais “puros” de acordo com a condição subjetiva de aderência radical, de acordo com a “fé” – eis a base clara do que tenho chamado aqui de Exclusivismo, isto sim, característica definidora do semitismo religioso, comum ao Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. É o que Jan Assmann, mais ou menos, coloca como sendo o sentimento originário do que chama de Distinção Mosaica e cujos frutos de violência radical são amplamente documentados, no Cristianismo por exemplo, por Michæl Gaddis. Daí, fica mais claro ver certa diferença entre Radicalismo e Exclusivismo, uma vez que o senso comum é bombardeado constantemente para considerar que o Radicalismo é fonte de todas as mazelas de origem religiosa, turvando nossa visão para identificarmos as duas coisas como sendo uma só. Seria, pois, o Radicalismo engendrado no Exclusivismo direcionado por uma motivação totalitária/dominadora a real fonte das violências intolerantes históricas; e como no geral, o Paganismo não ofereceu/oferece exemplos sistemáticos de Exclusivismo, há quem sugira que não oferece (nem oferecerá) exemplos sistemáticos de violência intolerante e persecutória (fundamentalista). Ou seja, estaríamos, pelo menos em teoria, livres de extremistas fundamentalistas. Antes que algum engraçadinho diga que Roma perseguiu os cristãos ou que Atenas condenou Sócrates, sendo claros exemplos de violência persecutória pagã, cabe lembrar que ambos os eventos se deram muito mais por motivos políticos do que por qualquer outra coisa (o mesmo com a proibição do Druidismo – reduto “ideológico etnicista” fomentador do independentismo gaulês, ou com a destruição do Templo de Jerusalém, igual reduto de “resistência” à Romanitas).

No entanto, aquele radicalismo nutrido e “aperfeiçoado” nos anos do Metal Extremo, uma vez tornado latente e dorminhoco, pode despertar ante as circunstâncias ideológicas do Paganismo. Quando a comunidade (neo)pagã ao nosso redor não oferece lá muitos elementos de coesão e identidade grupal, antes mostrando-se mais afinada com movimentos de ordem política de Minorias (feminismo, gayzismo, etc.) do que com o pensamento e visão de mundo dos pagãos antigos, aí é que as condições para este despertar do elemento radical aumentam. E logo, naturalmente, se forma o Nós e o Eles dentro deste conjunto. E para aprofundar ainda mais – eis que no horizonte despontam sinais de que, de fato, há uma separação interna. E isto nos leva ao próximo tema.

Reconstrucionismo x Neopaganismo.

Eis que leio isto e depois isto. Somando com toda uma tendência que tenho acompanhado ao longo dos anos do Paganismo do Leste Europeu e da Rússia, assim como das organizações religiosas mais sérias e admiráveis da Europa, além de bem sucedidas (como o ΥΣΕΕ, o pessoal do Romuva, etc.), realmente a diferença salta aos olhos. Eu, anos atrás, estava plenamente convicto de que (no que melhor conheço, pois) o Reconstrucionismo Céltico e o Neodruidismo (assim como o tal do Xamanismo Celta) eram abordagens diferentes (metodológicas e discursivas) de uma mesma coisa. Talvez como trilhas diferentes para um mesmo lugar. E o principal, por isto mesmo, podiam e deviam estar lado a lado lutando juntos em prol de um crescimento e benefício comum. Houve (tenho isto registrado em e-mails) gente famosa do Reconstrucionismo Céltico estadunidense com quem conversava na época que afastou-se/decidiu encerrar a conversa comigo por haver eu sustentado esta visão (e talvez por haver elogiado em demasia a ordem neodruídica ADF). Na época, pareceu-me um comportamento sectário, improdutivo e me trouxe até certa má impressão sobre a pessoa. Hoje, suspeito que a pessoa – com anos e mais anos de experiência e vivência no meio (neo)pagão a mais que eu – sabia o que fazia.

As diferenças entre Reconstrucionistas e Neopagãos só aumentaram desde então, ou talvez tenha sido minha percepção delas. Em termos de preferências políticas, concepções da sociedade, ética e moral, família, comportamento sexual e visão de gênero, na própria concepção da vivência religiosa – e como constatei na prática, mesmo as pessoas leigas, que nada sabem das diferenças ideológicas, tendem a dissociar os grupos. E não é à toa que mais gente chega nesta questão (por exemplo, aqui – continuando – e aqui) tendendo a dissociar-se do rótulo “(neo)pagão”, a ter vergonha (da aparência, comportamentos, ao que são associados) ou desdém dos ditos “(neo)pagãos”. Não por mero “nariz rebitado”, mas por real prejuízo na vida e imagem pessoal/profissional/intelectual/amorosa ao ser associado/identificado com este povo. E isto é sério, muito sério mesmo (no mundo profissional, uma simples “googleada” mostra quem és). E não adianta “blá-blá-blá” sobre “sociedade hipócrita e mimimi” – no final, as contas ainda precisam ser pagas.

Voltando, para mim, a questão é que, historicamente, o que geralmente é chamado de Paganismo sempre teve espaço para quase tudo, pelo menos quando sob um governo político centralizado (ou dentro de uma hierarquia); pensar em como o termo hoje pode englobar este “quase tudo” em vistas da maior tendência “a separação” consciente (e justificada) de um parcela, é que é o ponto. Considerando isto como outra questão de fundo é que chego ao texto do sr. Varg Vikernes.

O texto de Varg Vikernes

Varg Vikernes, para quem não conhece, é o sujeito na frente do grupo Burzum, que foi Black Metal e hoje não sei bem como é definido o estilo musical (estou super desatualizado no mundo do Metal Extremo, desculpa-me, ó leitor). O sujeito ficou “famoso” por uma série de feitos nos anos 90: queima de igrejas na Noruega e o assassinato de um sujeito por desavenças juvenis e uma trágica paranoia, como ele próprio admitiu mais tarde. Recentemente, escreveu um ótimo (sim, eu achei) livro sobre feitiçaria e religião na Escandinávia Pré-cristã o que, pelo menos para mim, elevou minha consideração sobre o sujeito. Lembro-me, se não me falha a memória ainda no finalzinho dos 90, de ter ouvido pela primeira vez falar neste sujeito quando escutei o disco Filosofem, quando descobria as bandas de Black Metal norueguesas e sempre o tive como uma figura um tanto quanto “folclórica” até que em determinado momento soube de sua inclinação/simpatia pelo “real satanismo de nossa época” (como disse certa feita um sujeito) o Nacional-Socialismo. Afinal, somos formados para “tolerar” tudo, menos isto. Que há uma tendência “fascista/nazi” em parte do que se chama de Paganismo, creio que já não seja novidade para ninguém. Há sim, já de tempos que escrevo aqui sobre a questão do Nacionalismo (iniciamos a problemática com a questão da Identidade, Eurocentrismo, etc.) e a dimensão “política” do Paganismo, o que de alguma forma é a ligação com estes movimentos políticos e que me fez estudar algo de suas raízes. O problema é quando alguns tentam reduzir esta ala de simpatias “fascistas/nazi” existentes em partes do movimento com o Reconstrucionismo, opondo-o ao Neopaganismo, New Age, Libertário, Ultramoderno, etc. Que há zonas de intersecção, disto não tenho dúvida, mas a extrapolação destas zonas para um modelo reducionista e simplista, dual e maniqueísta é o problema – e pensando bem, é uma das teclas que mais tenho tocado neste blog. Abre brechas para críticas incisivas e nos fragiliza enquanto grupo, sem contar que pode gerar mal-entendidos de ordem mais séria, interna e externamente.

O texto que venho cá comentar foi-me passado pelas redes sociais e fui até o original na página virtual do Burzum verificar. É um texto bem recente, fizeram uma tradução em português que suprime alguns parágrafos, por isto recomendo a leitura do original; mas, caso tenhas dificuldade em ler na língua inglesa, o jeito é recorrer à tradução. Bem, vou pedir que antes que prossigas a leitura cá, leia o texto lá – é este “A Antiga Religião” (portuguêsoriginal).

Supondo agora que lestes, posso melhor expor meu comentário. Vou fazer pequenos recortes e tecer comentários, afinal o tempo é curto e faz tempo que planejo escrever de forma mais breve e menos prolixa aqui. No geral, é um texto provocador, diria até, polemista. Lembrando que uma polêmica boa é aquela que causa debates inflamados, revolta as pessoas, gera o confronto. O texto tem endereço certo e constantemente lembra isto e, claro, se utiliza de certos recursos para inflamar os endereçados. Por exemplo, para alguém que “briga” pelo termo “pagão” ser chamado de “cristão” é particularmente ofensivo, então – ao invés de chamarmos o sujeito (pagão) humanista ou modernista de “humanista” ou “modernista”, chamamo-lo de “cristão” (aproveitando-se do fato de haver várias áreas de contato causal ou ideológico entre o Cristianismo e o Humanismo Moderno), que neste contexto é mais ofensivo. Há algo ali feito para desagradar claramente certas pessoas, marcar uma diferença, erguer um muro – não é um texto diplomático, é mais um que pergunta: “afinal, estás conosco ou contra nós?”. Este tipo de postura é algo que se vê igualmente em certos círculos radicais de política quando situações limítrofes se apresentam e ação é requerida – é uma pergunta e um convite para sair de cima do muro, tomar partido. Considerando isto – o que podemos ver de intensão no texto e do modo como foi composto – estamos melhor contextualizados para compreendê-lo e aproveitar o que há de útil.

Sendo franco, e correndo o risco de desagradar muito por isto, creio que o texto possua dois erros grosseiros, mas que fora estes, traz uma mensagem importante no seu todo – apesar de escrita de um modo polemista e aparentemente “rancoroso”. Coloco o texto como que em seguida ao do filósofo Julius Evola sobre o Neopaganismo que aqui já comentamos. Há algo de profundo e de correto, mas, há também deslizes. Pelo menos os que percebo como tal são grosseiros e espero conseguir apontá-los satisfatoriamente aqui.

De fato, há um “hippiesmo” desagradável que se infiltra no Neopaganismo, justificado pelo mundo anglófono – nos EUA e no Reino Unido, os movimentos dos anos 60 também significaram uma reabertura para “Religiões Alternativas”. Desde o começo deste blog que eu tenho criticado isto – que antes chamei de “paganismo de shopping” ou de “fim-de-semana”, a visão superficial e de “moda” de caminhos sagrados.  Mas que nem sempre fica clara para nós aqui na América do Sul (como creio que não fique para parte da Europa). Aqui tem-se o pessoal “espiritualista” que é xamanista, pagão, reikiano, crente nos poderes dos cristais-azuis-trazidos-pelos-extraterrestres, das terapias alternativas, holismo, pró-maconha etc. estes são os simpáticos e new agers que exalam certo hippiesmo e no fundo, acreditam que tudo se resolva com Paz e Amor numa comunidade igualitária e planetária de seres humanos felizes, abraços, cachimbos, de espíritos evoluídos, ecológicos e brilhantes de mãos dadas. Não deixa de ser uma espécie de messianismo utópico psicodelicamente esfumaçado. Daí haja uma subcultura de pacifismo doentio (doentio tanto quanto o seu o oposto, a “beligerância patológica”), cultura de consumo de drogas ilícitas para fins recreativos, uma tendência a misturar Índia com nativo-américa+europa+árabe+áfrica+tudo-que-não-seja-cristão, visual e comportamento “alternativo”, numa espécie de pequeno-burguesismo-esquerdista de Facebook. No Neopaganismo mesmo, o nível de incentivo à promiscuidade, descompromisso, individualismo (lembrei de outro artigo de Gus diZerega), materialismo disfarçado e confusão do ultra-modernismo (eu não uso mais “pós-modernismo”) com fabulações românticas sobre o mundo antigo é de assustar; e não são poucos os momentos em que um estudioso do Mundo Antigo se pergunta se este povo realmente crê-se sabendo algo deste Mundo. Quando não, temos (isto é mais comum ao povo das grandes cidades e de classe média alta) uma espécie de visão de Hobby-RPGística da religião, montada em torno de fantasias e romances (agora, filmes e séries televisivas), Otakus e cia. Tendo isto em mente, fica claro que o apontamento “zombaria da Antiga Religião” não é uma fala solta, sem base ou fundamento – há algo de muito sério nisto.

Nesta direção conflui o ponto de separação – acredito e advogo EU – entre as religiões étnicas/reconstrucionistas tradicionalistas (ou seja, um paganismo/politeísmo que tenta, de fato, recuperar uma visão de mundo Antiga, pré-moderna da forma mais integral possível) e o que mais usualmente se chama de Neopaganismo, mas que deveria ser mais estritamente endereçado a Wicca et similis (que absorve e fomenta visões e concepções modernas como Igualitarismo, Humanismo Moderno, Feminismo, Gayzismo, Remodelação familiar, etc.). Claro, de dois, surge um três. De modo que dentro desta divisão (entre tradicionalistas e “modernos”) há graus e prováveis zonas de intersecção/meios. Há Wiccans que se aproximam muito de um perfil tradicionalista (há até quem diga, que a BTW de fato, é sim, tradicionalista e conservadora – e até é acusada de homofóbica!) e há reconstrucionistas (por exemplo) que cultivam algo do Humanismo moderno, estando (filosoficamente) muito próximos de Liberais/Libertários ateus.

Para não demorar mais do que já estou fazendo, vamos aos dois pontos que acredito estarem errados no texto do sr. Vikernes.

No entanto, essa é a Filosofia de Vida Pagã: deixar com que somente os saudáveis, os fortes, os moralmente bons e bonitos sobrevivam. Somente os cristãos apreciam crianças deformadas ou geneticamente defeituosas que não deveriam ter direito a viver, crescer ou se reproduzir, fazendo com que destruam nossas propriedades genéticas ao longo do tempo. (…) Acho que esses “pagãos” percebem que não são pagãos, mas – como eu já disse – apenas um punhado de cristãos. Você não pode ser pagão e antirracista.

1) O primeiro é esta redução, como apontada por mim num texto “velho”, de que “verdadeiros pagãos são racistas”. Isto, como já demonstrei lá (e aqui e aqui), não procede historicamente. Hoje, anos depois, acrescentaria que há uma terrível confusão entre os sentidos de “raça” na Antiguidade e o sentido que a coisa adquiriu depois do Gobineau, Postivismo e Darwinismo, como já expus cá numa “discussão” com um neonazi nas caixas de comentários. No geral, os neonazis confundem e se utilizam de um elemento super-moderno/não-tradicional (a noção de Raça biologicista, darwinista, positivista) julgando ser algo antigo, por não compreenderem a noção clássica da Eugenia (acreditando se tratarem da mesma coisa do que aconteceu no III Reich alemão), confundindo a experiência de Esparta como norma, trocando a exceção pela regra, e negando o aspecto metafísico da “raça” – a Casta, esta sim, uma visão tradicional (neste sentido, o perenialista Frithjof Schuon tem um livro interessante no assunto). Mesmo gente “conhecida” deste pessoal, como Julius Evola os criticara por isso. Por mais que se possa defender, com uma base considerável, que o primeiro movimento intelectual de massa antirracista surgiu com o Cristianismo (um de pequenas dimensões talvez tenha sido o Estoicismo – este de origem pagã e anterior; um texto que traz uma visão interessante sobre o a origem cristã do antirracismo é esse), o máximo que se pode defender de forma consistente é que “verdadeiros pagãos tendem a ser etnicistas” e não “racistas”. Esta diferença é crucial e basilar e minimizá-la é um salto declarado no anacronismo. Aqui há um “wishful thinking” dos racistas em relação aos antigos, que possuíam uma visão muito mais espiritual e metafísica que a moderna e materialista sobre o tema. Agora claro, se o sr. Vikernes está utilizando “racista” aqui no sentido mais amplo e difamatório que os antirracistas fazem questão de utilizar talvez algo possa ser contornado, mas no geral é o que me parece ser o primeiro erro sério.

(…) Você não pode ser Pagão e homossexual, ou mesmo tolerar a homossexualidade. (…)

2) Aqui talvez seja o erro mais grosseiro. Então, os pederastas gregos e romanos não eram “pagãos”? E mesmo aqueles mercenários gauleses que em longos anos fora de casa em campanhas marciais, conforme Ateneu registrou, tinham lá suas licenciosidades homossexuais também não eram pagãos então? A questão aqui é que há duas confusões por parte do sr. Vikernes. A primeira é tomar uma parte pelo todo. Explico: de fato, entre os germânicos (e especialmente entre os Escandinavos), homossexualismo era algo abominável – tanto que alguns códigos jurídicos registram que o simples insulto a alguém de, digamos, “baitola”, dava ao ofendido o direito de tentar matar o ofensor. De modo que podemos fazer a afirmação, nos moldes do politicamente correto, de que foram sociedades, como se diz, homofóbicas. Do fato de ter sido assim, tão extremado e forte, entre os germânicos não implica que fosse assim para com todos os demais povos Indo-Europeus, ou seja, houve uma espécie de generalização apressada no raciocínio do sujeito. Por outro lado, não quer dizer que a Antiguidade fosse completamente “pró-gay” como tentam pintar alguns foucaultianos militantes do gayzismo. Não, de modo algum, a coisa nunca fora bem vista (para a tristeza de alguns, pois; na Irlanda, suspeitas de comportamento homossexual eram condição legal para a mulher pedir divórcio do marido, por exemplo) – o que acontecia é que algumas sociedades arrumaram modos menos conflituosos (e traumáticos para os gays) de arranjar as coisas no seu tecido social hierárquico. Por exemplo, um gay rico e aristocrata poderia viver sua licenciosidade e promiscuidade relativamente bem na Roma imperial, no entanto, ele sendo um aristocrata, estava submetido hierarquicamente a Res Publica – regulada na lei do dever sagrado de gerar filhos para a pátria e estabelecer/dar continuidade à família/linhagem. Daí que havia os sujeitos que casavam e faziam um filho por “formalidade” – convenção social, dirão alguns; mas também não precisavam “esconder”, pôr no armário, sua opção sexual. Pelo menos não como fora com a cristianização.

No geral (com possíveis exceções de estratos sociais, épocas e lugares específicos), da Índia à Ibéria, o mundo Indo-Europeu não foi de incentivar o homossexualismo mas também não o foi de reprimir de modo tão enfático quanto o feito pelo mundo judaico-cristão. E isto porque o Mundo Antigo fazia um grande diferença entre coisas que nossa sociedade (e os gayzistas) tratam como sendo uma. E isto nos leva a segunda confusão. Uma coisa é comportamento homossexual outra a feminização/desvirilização; a confusão é justamente tomar uma coisa pela outra e ambas como idênticas. O sujeito que nega sua condição natural e passa a travestir-se a comportar-se como uma mulher, de fato, até onde eu saiba, foi não só alvo de terríveis escárnios, quanto de reprovação social e exclusão (e pensando no caso germânico hoje, talvez, um travesti ásatruar seja tão tosco como um judeu nazista). Mesmo no âmbito religioso, há quem argumente – no caso da Grécia mesmo – que a existência esporádica de um sacerdote travestido e eunuco em um culto de mistérios femininos é muito mais uma influência “Oriental” que produto do Indo-Europeísmo. Em todo caso, para uma ética e visão de mundo guerreira (ou dominada pela classe aristocrática e guerreira) é perfeitamente compreensível o eventual escárnio pela feminização e, de alguma forma, compreensível o “desconto” para com aqueles que (apesar de não apresentarem um comportamento sexual majoritário) não deixam de ser bravos na guerra, leais e pessoas de palavra. Achar que as duas coisas eram uma só, que todo “gay” era visto, necessariamente, como uma espécie de travesti contemporâneo decadente é uma incorreção. Estas são as características gerais deste segundo erro grosseiro.

Encerrando

Estes são os que me parecem ser os 2 grandes erros do texto do sr. Vikernes – as generalizações “retóricas” presentes no texto entendo mais como elementos de polêmica e não as levo tão à sério. Mas, como disse, há algo de importante aí – o apontamento para a via tradicional, da ética heroica, da vivência mais integral e não afeita ao mundo ultra-moderno. Esta é uma via (e as pessoas tem o direito de preferí-la e propagandeá-la), mas talvez não a única via – e precisar onde estão os limites nisto é o que nos leva a mais duas questões, i) de que se, de fato, o Neopaganismo e os Reconstrucionismos são dois rios separados que se unirão num futuro maduro, se são dois rios separados que possuem uma mesma fonte mas que correrão separados, ou se são dois rios separados e com fontes próprias, completamente independentes desde o início e até o final. E ii) a da natureza e lugar do “radicalismo” dentro de nossas fileiras. Espero que tenha ficado claro. Em todo caso, é bom não cairmos numa “fiscalização” da ortodoxia alheia e muito menos deixemos que surja um Exclusivismo nos moldes abraâmicos entre nós.

Comentários?

3 pensamentos sobre “Comentário acerca do “Sobre a Antiga Religião” de Varg Vikernes

  1. Parabéns pelo texto, põe bem a gente a pensar.

    Apesar de não me identificar com nenhuma vertente nem dos neopagãos, nem dos reconstrucionistas, eu encontro a minha fé por esses diversos caminhos, aparentemente diferentes.
    Não gosto de falar “o que” sou, é reduzir muito algo irredutível. Mas nessa vida, infelizmente (ou não) precisamos de rótulos.
    Diante da sociedade, um grupo precisa existir com uma identidade definida para ganhar espaço, ainda mais hoje.

    Para a Religião Antiga ganhar espaço, e especialmente respeito, é necessária a união embaixo do grande guarda-chuva que é o Paganismo. Sei que o contexto político-social lá na Noruega é bem diferente do nosso aqui, e talvez por isso Varg e cia desejem justamente uma cisão.

    Mas nós aqui, com “bancadas evangélicas da vida” atuando cada vez mais forte na política governamental, é o momento de fazer uma boa frente a essas investidas. Não é fácil, mas melhor recolhermos nossas diferenças por hora.

    OBS: antes que alguém me entenda mal, não estou falando em criar partido pagão!

    • Sim, na Europa em geral não há lá “Bancada Evangélica” – os mais politizados lá, em especial nos círculos nacionalistas, tem por alvo o Islamismo, etc. De fato, aqui estamos mais próximos dos EUA, no sentido de haver uma força política cristã muito atuante e mais dada ao fundamentalismo – lá o bloco WASP já firmado em torno de um Conservadorismo Cristão de Direita e suas derivações (NeoCons, etc.), aqui o moralismo cristão das Igrejas (especialmente as evangélicas) que começa a engatinhar um esboço de movimentação mais séria, mas que já têm forte apelo no número crescente de fiéis.

  2. Marcilius, boa tarde!
    adorei o texto, e isto só vem a corroborar com aquilo que sempre discutiamos desde a época da ODB…só não concordo plenamente com a questão do distanciamento no meio celtico..acho que há sim espaço para uma visão de que “são trilhas diferentes da mesma montanha”…é só termos a visão do filósofo, que sempre está pronto a aprender, e não a visão do jogador de RPG em masmorra, que se mecheu, desce o porrete.parabéns e sucesso!

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