Adversus Monotheismos: pars I
I. Contra a noção abstrativista-racional.
Este é um dos argumentos mais utilizados, quando não pressupostos. O que farei é tentar apresentá-lo de um determinado modo, pois ele se encontra esparramado de diversas formas e ao longo de boa parte da tradição filosófica ocidental que se voltou a questão. Buscar uma formulação clara logicamente para tal argumento me é bastante difícil em vista da multiplicidade de hipóteses ad hoc construídas em torno dele. Tentemos pois, uma descrição satisfatória. Tal visão deriva da concepção de que quanto mais próxima da unidade, matematicamente concebida, mais perfeita e racional uma coisa é. Neste sentido, o processo de formulação ou construção de um conceito, partindo de inúmeros exemplos concretos para uma unidade abstrata é o paralelo do processo mental do qual se concebe que o Monoteísmo seja.
Se vê o Monoteísmo como uma “evolução”, mais perfeita – por ser mais abstrato, conforme o paralelismo como o suposto esquema de construção de um conceito – que o Politeísmo, justamente tido como insatisfatório racionalmente. Posteriormente se vê tal visão como uma “derivação natural” do Politeísmo, por analogia ao suposto processo cognitivo da construção de um conceito (há quem o faça, racionalmente, diga-se de passagem, sem recorrer ao processo racional-abstrato de formulação do conceito; mas voltando-se à evolução/maturação de estados mentais de uma criança à fase adulta). Tal visão eu denominarei de ‘Monoteísmo Evolucionista’. Para esta visão, o Monoteísmo é o que existe de mais perfeito e evoluído racionalmente, a ponta da evolução, geralmente iniciada, de acordo com o jargão retórico dos antropólogos evolucionistas do início do século XX, com concepções “animistas”, “totemistas”, etc. Muita gente influente formulou isto, de Sigmund Freud à Santo Agostinho, passando por Hegel (para citar um que deixou isto claro, se é que há algo de “claro” em Hegel).
E no geral, o gérmen disto na literatura filosófica ocidental se reduz a uma passagem do De Meliso, Xenophane et Gorgia, atribuído a um peripatético aluno do Liceu de Aristóteles, na parte relativa a Xenófanes, o colofônio. Alguns estudiosos, que leem mal grego jônico antigo, veem em Xenófanes o primeiro monoteísta por suas críticas ao etnocentrismo e antropocentrismo do “politeísmo forte” da concepção popular grega e pela sua afirmação nos fragmentos 23 a 26, em especial no fragmento 23, preservados, propositalmente como lembra Alfredo Llanos (1967, p. 118), pelo apologista cristão Clemente. O texto grego é claro o suficiente: em NENHUM momento, Xenófanes nega absolutamente a existência de deuseS. Ele expressa sim, uma visão que pode ser adequadamente defendida como Politeísmo Henoteísta (talvez “forte”) ou um Panteísmo um tanto vagamente formulado; obviamente que me utilizo de um argumento filológico que tem se mostrado bastante seguro – e que aqui não é local para expor. Traduzi (sob a orientação do mestre Henrique G. Murachco) na minha monografia (que aliás, foi sobre 3 fragmentos deste filósofo) todos os fragmentos de Xenófanes e uma olhadela na bibliografia que consultei para tal, mostram a qualquer especialista que não falo levianamente.
Voltando a concepção do Monoteísmo Evolucionista, o que há de “errado” nela? Por que os cristãos e monoteístas em geral não podem sair por aí gritando felizes a superioridade intelectual de sua concepção? Primeiro motivo: o raciocínio evolucionista é uma petição de princípio; segundo motivo: é um “raciocínio” analógico, e como tal, por definição, carece de base lógica sólida e por terceiro: mesmo que não seja um raciocínio analógico, é um raciocínio indutivo inverificável e como tal não goza de nenhuma superioridade lógica aos demais raciocínios indutivos inverificáveis. Os olhares dos lógicos monoteístas (sim, há, podem acreditar, e não são poucos!) se arregalam e um sorriso sarcasticamente alimentando um certo ar de superioridade, nos diz: “como a concepção do Monoteísmo Evolucionista é uma petição de princípio?”
Primeiro, em Lógica se chama ‘petição de princípio’ (ou mais classicamente, petitio principii) um raciocínio falacioso no qual o sujeito pressupõe como dado justamente o que ele quer provar; em outras palavras: ele pressupõe implicitamente no raciocínio o que ele se propõe a demonstrar. Se extrai uma conclusão de um ponto de partida, sendo que é justamente a veracidade deste ponto de partida que a conclusão pretende provar. Muito simples, o que se quer demonstrar é pressuposto como verdadeiro no argumento, seja no que está implícito como “mais racional” (valorado moralmente) ou de forma mais hilária recorrendo aos textos sagrados, para “comprovar” justamente a credibilidade destes que é o que se pretende demonstrar. Obviamente que a saída mais adequada, como bem perceberam os teólogos mais sábios, é dizer que a credibilidade no livro sagrado é uma questão de fé. Não é uma questão lógica. No caso da concepção Monoteísta Evolucionista, o erro está na preconcepção de que o monoteísmo é uma ‘evolução’ e que tudo o que é ‘evolução’ é mais racional; isto é o que os argumentos pressupõem como “certos” quando é justamente isto que precisar ser demonstrado. O modelo teórico postulado para demonstrar a maior racionalidade da evolução, parte justamente do pressuposto que tal evolução é mais racional.
E por que seria um “raciocínio” analógico? Simples, por basear-se por analogia, no caso da formulação que chamei de abstrativista-racional, em supostos processos cognitivos da formação de um conceito ou em um processo qualquer de uma abstração razoavelmente complexa. Para qualquer pessoa que conheça uma analogia, sabe que logicamente uma coisa não tem de haver com a outra. Não há uma causalidade que implique uma coisa na outra, nem uma necessidade lógica que ligue o processo A ao B. Mesmo que comprovemos cientificamente, e até supra-cientificamente com 100% de certeza que os processos mentais para formação de um conceito abstrato-racional são de modo x (verticalmente evolucionários, como descritos acima vagamente), disto não decorre que tal sentimento/concepção religiosa seja oriunda dos mesmos processos e disponha do mesmo grau de infalibilidade de um conceito abstrato-racional, como o conceito de equação de 2º grau. Quem disse que abstrações-racionais são infalíveis? E mais, ser um conceito ou modelo abstrato-racional infalível não implica necessariamente em uma certa configuração ontológica que lhe seja referente, de modo que não pode ser um critério decisivo em religião. Ou seja, recorrer à analogia com processos cognitivos para demonstrar a maior racionalidade de uma concepção religiosa não demonstra sua ‘Verdade’ (com este V mesmo).
E por que, mesmo que não consideremos um “raciocínio” analógico, é um raciocínio indutivo inverificável? Pelo motivo simples de ser Monoteísmo Evolucionista um modelo explicativo construído com base na suposta verificação de um caso particular, e abrangido indutivamente para explicação de todos os casos existentes. Ok, há quem tente validar logicamente (através de lógicas heterodoxas bem interessantes) o processo de indução. No entanto, mesmo que aceitemos isto, o problema é que a suposta “verificação” é justamente isto uma SUPOSIÇÃO. Não há como verificar se realmente o processo evolutivo postulado pela teoria aconteceu de acordo com leis matemáticas infalíveis. E por que não ocorreu noutros lugares onde o Politeísmo persiste (como a Índia, por exemplo)? Ou por que não ocorreu em zonas onde o poder político confessional não interferiu (como no mundo greco-romano mesmo, que foi cristianizado pela retórica barata, armas e imposição política). A ideia do Monoteísmo surgir na mente de um ser humano como um processo natural e racionalmente previsível de acordo com leis lógicas infalíveis e constantes não passa de um truque argumentativo.
De modo que nestes três âmbitos (e noutros mais, confesso, que estão na manga) não me parece defensável a concepção de que o Monoteísmo é mais racional e preferível por ser oriundo de uma evolução cognitiva ou algo assim que o Politeísmo.
Mas ainda faltam duas partes do texto.


A discussão está tão boa que me inspirou a traduzir um texto do John Michael Greer, da AODA, o “Argument for Polytheism” (ele já autorizou!) –se tudo correr bem, até o fim de semana eu o posto no Bosque com um link para aqui!
Ô maravilha Endo!!!
Nem sabia deste texto do Michael Geer, mas vindo dele deve ser ótimo! Por favor, faça isso mesmo!
Inté e três vezes bênçãos sobre ti!