AO DEVS LVGV
Marcílio Diniz.
Terras Altas de Ypuarana, Parahyba.
Em louvor canta o poeta
Que roga à deusa em verso
Que um pouco do universo
De imensidão completa
Venham como uma seta
Em três raios a iluminar
Onde o escuro fez brotar
Uma gota de som rimado
Em um rio enladeirado
Possa o verso enlaçar
Canto a glória do brilhoso
Da lança que nunca falha
Cortante como navalha
Em gesto harmonioso
Que é multi-habilidoso
De mãos largas a manejar
Mirou certo pra disparar
Pelo raio da silibrina
Pela terra nordestina
Ao firmamento alcançar
O olho mais destruidor
Que seca açude e barreiro
Assa a folha do juazeiro
E mata o boi cultivador
Tira a beleza e o frescor
Trazendo um rubro de matar
Fazendo o vento assoviar
Uma canção de lamento
Que não deixa o esquecimento
Conta da morte tomar
O som da marcha da guerra
Alegra muito o coração
Atravessando a imensidão
Do firmamento que enserra
Cortou a lança que não erra
Fulminante a bem acertar
O olho que fez inflamar
O mundo em um fogareiro
Fazendo fechar o brazeiro
E achuva branda escorregar
A vitória do de mão larga
Sobre o olho destrutivo
Faz possível o cultivo
Canteiro e roça larga
A laranja não amarga
O tamboril põe-se mostrar
Verde copa a sombrear
O broto nascendo no chão
Cantando alto o azulão
No espinheiro a balançar
Me despeço agradecido
Ao deus da lança certeira
De mão hábil e ligeira
Que muito tem favorecido
Deusa que tem permitido
Os versos aqui se enlaçar
Vendo a chuva se deitar
Pelos campos e plantações
Alegrando os corações
Pelo Nordeste a cavalgar!