Mais uma obra dedicada aos ancestrais. Desta vez, do outro editor deste blog.
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NESTA NOITE DE ESCURIDÃO, VIVEM NOSSOS ANTEPASSADOS (DO “FIM DO VERÃO”)
O meu canto é de louvor
Aos que partiram outrora
A onde descansa a aurora
E onde há mar e resplendor
Venho cantar meu amor
Aos que fizeram o passado
Cantaram e são cantados
Com grande veneração
Nesta noite de escuridão
Vivem nossos antepassados
Os passos firmes de marcha
Pela nuvem escura
Da névoa de brancura
Parece que o tempo racha
Atravessa véu que se acha
Entre os vivos e finados
Não existe mais passado
Só forte consideração
Nesta noite de escuridão
Vivem nossos antepassados
Os reinos dos mortos desce
Nas brumas das colinas verdejantes
As fogueiras e os viajantes
Guiam e também aquece
Não há aquele que esquece
Os cantos sombrios cantados
Os mares atravessados
E honra no coração
Nesta noite de escuridão
Vivem nossos antepassados
O silêncio das colinas
Canta a imensidão amada
Fúnebre música cantada
Pelo raio da silibrina
O fogo sozinho ilumina
O caminho em que são guiados
Banquetes são preparados
E versos de emoção
Nesta noite de escuridão
Vivem nossos antepassados
O vento sopra pela mata
Os segredos em canções
Cantadas pelos sertões
E pela estrela que reata
As juras que o tempo acata
No escuro do não-pensado
Pelos vales encantados
Por uma antiga canção
Nesta noite de escuridão
Vivem nossos antepassados
Na rima do declínio
O sol estende a mortalha
A noite não atrapalha
A hora do extermínio
A noite estende seu domínio
Quando o ano tem começado
Como se os céus fossem pintados
Com o pincel da imensidão
Nesta noite de escuridão
Vivem nossos antepassados
A figura que o futuro tem
Se mostra ou se esfumaça
Num gole de uma cachaça
O vento frio bebe também
Alegria hoje há além
Das fronteiras do passado
Laços são retomados
Com grande satisfação
Nesta noite de escuridão
Vivem nossos antepassados
Pois o vento varre os campos
O tempo enxuga os prantos
E o sangue é perpetuado.
(Marcílio Diniz)