O eurocentrismo no paganismo brasileiro contemporâneo
Maio 15, 2008 de Rodrigo Leão
Antes de iniciarmos qualquer discussão, precisamos entender o que vem a ser em sua essência o paganismo contemporâneo. O mesmo surge junto o movimento denominado “Nova Era” – daí sua denominação de “neopaganismo” - e consiste em uma tentativa de revitalização de práticas religiosas consideradas “primitivas” ou “pré-cristãs”. Neste imenso leque podemos compreender religiões de origem nórdica, celta, grega, maia, inca, asteca e práticas xamânicas em geral – sendo que esta última ainda é praticada por muitos povos no mundo todo.
No Brasil o neopaganismo possui uma representação considerável, importante para o estabelecimento e reconhecimento do mesmo como prática religiosa e que traz informação, impõe respeito e destrói os preconceitos e suas conseqüências. Não tenho dados estatísticos que comprovem, mas, ao que tudo indica, a Wicca – religião neopagã que declara uma base nas tradições celtas – é o maior expoente do paganismo contemporâneo em nosso país. Mas vários outros grupos também podem facilmente ser identificados. Uma busca rápida na internet poderá nos mostrar que no Brasil existem pessoas pertencentes ao Asatru, de base nórdica; do Druidismo, de base celta; do Helenismo, de base grega; e do Xamanismo. Em pesquisa realizada com pagãos nordestinos e principalmente paraibanos na comunidade do Orkut “Parahyba Pagã”, em um total de 29 membros, 12 se declararam wiccanos (incluindo os integrantes de covens e solitários), 1 alegou seguir a tradição nórdica Asatru, 1 o Xamanismo, 8 seguidores do druidismo, 1 do Helenismo, 1 não se enquadrou em nenhuma das classificações e 5 declararam um caminho sem vinculações.
Há os que vejam essa variedade com bons e com maus olhos, eu particularmente acho interessante e muito lucrativa, já que cada grupo pode dar sua contribuição ao movimento como um todo. Porém, algo mostra-se bastante preocupante nisso tudo. Dentre os grupos mais evidentes no Brasil nós não conseguimos identificar nenhum que tenha sua base em alguma tradição natural ou até mesmo próxima de nossa terra. Muitos podem alegar que o Xamanismo representa esta parcela, mas isto não chega a ser verdade. O neoxamanismo (para diferenciar do xamanismo como prática ritualística presente em diversas sociedades) demonstra uma influência clara de elementos nativos norte-americanos, especialmente estadunidenses. A maioria dos cantos, práticas, instrumentos e símbolos utilizados por este movimento apresentam origem nas tradições dos nativos estadunidenses e/ou canadenses. Portanto, não encontramos nada oficial em nenhum grupo pagão sobre a utilização dos elementos nacionais em suas tradições. O que podemos encontrar é a utilização não-oficial – já que não consta em nenhum documento oficial – de elementos locais nas práticas ritualísticas, como acontece nos rituais organizados pelo “Parahyba Pagã”, em que alguns elementos da região são incorporados ao rito. Mesmo assim, estes elementos acabam servindo apenas de “tempero” para o prato principal de elementos europeus.
Mas qual o problema da utilização de elementos europeus nas tradições pagãs nacionais? Em princípio nenhum, já que cada um tem o direito de crer e praticar a sua crença independente de qualquer implicação social-geográfica. Porém, pensando o movimento dentro de sua própria lógica podemos detectar sérias contradições na insistência de uma prática essencialmente européia.
O paganismo contemporâneo em geral apresenta como elemento fundamental uma ligação com a natureza, isto inclui também uma reflexão sobre aqueles que já pisaram o mesmo solo que estamos pisando agora e sobre aqueles que têm parte de seu DNA correndo em nossas veias. Nesta perspectiva, soa estranho pensarmos uma prática pagã que evoque elementos completamente estranhos à nossa região. Exemplificando, podemos dizer que não há, em princípio, muito sentido na utilização de um símbolo como o “corvo” em uma prática pagã brasileira. Pensando na própria essência do paganismo, mais adequado seria a substituição do corvo por um elemento local que apresente características semelhantes. Outro exemplo seria a utilização do “urso” ou do “condor”, já que em nosso território não há indícios da existência de tais animais. E até mesmo a utilização de outros elementos, que não apenas animais, podem ser compreendidos nestes mesmos termos. Porque devemos beber “hidromel” quando não encontramos indícios da utilização desta bebida por nenhum povo brasileiro? Mais adequado não seria a utilização do “cauim”, do “alué”, do “açui” (ambos feitos da mandioca), ou até mesmo da “cachaça”? A partir disso podemos realizar uma série de associações que passam por todo o conjunto de símbolos e práticas do paganismo contemporâneo, incluindo aí os panteões. Afinal, sempre me pareceu muito distante pensarmos em Bridget, em Lug ou em Thor. Deuses de difícil adaptação às cores locais, já que suas características que não são associadas a elementos naturais (como o trovão, a força, a tempestade etc) são típicas da região em que eles viviam, afinal não podemos imaginar um Thor diferente do modelo loiro perpetuado pela editora Marvel.
Muitas tradições utilizam um bom argumento, alegando que se utilizam de elementos europeus em suas práticas porque o Brasil foi colonizado por portugueses (a quantidade de franceses e holandeses na colonização é insignificante em termos de influência cultural) e que as tradições destes povos foram incorporadas de forma significativa em nossa cultura. De fato muito dos elementos culturais brasileiros têm origem portuguesa. No Nordeste por exemplo, temos o São João, uma festa tradicional de grande popularidade e que apresenta em sua essência elementos das tradições pagãs européias: ser uma festa da colheita, fogueira, pau-de-fita etc. No entanto, devemos considerar um fator importante: tais elementos vieram, antes mesmo de ser através dos portugueses, através do catolicismo. Ou seja, nossos ancestrais lusitanos não possuíam mais nenhum vínculo consciente com as práticas pagãs de sua terra natal, afinal, não podemos nos esquecer que o descobrimento do Brasil se dá no século XVI, portanto, após mil e quinhentos anos de prática da destruição de tradições pagãs. Isto não invalida de forma alguma a argumentação da “ancestralidade”, já que os ancestrais dos portugueses que povoaram as nossas terras provavelmente praticavam o paganismo.
O problema de tal argumento é que ele demonstra uma supervalorização da influência européia em nossa cultura e desconsidera completamente a influência de outros povos que foram fundamentais na constituição do que somos hoje, tanto cultural quanto biologicamente. Não podemos nos esquecer que negros e índios também são parte de nosso DNA. Do ponto de vista da naturalidade, de ligação com os elementos naturais da região ou com o passado da terra em que pisamos, considerar a utilização de práticas indígenas é obrigatório. Claro que a ausência de material teórico sobre a prática religiosa dos povos que habitaram esta região é um imenso impasse para o que proponho. No entanto, alguns povos indígenas têm sua cultura bastante estudadas, como acontece com os Guarani e Tupi. Considerando que estas duas nações eram as maiores do território na época da colonização, podemos fazer a associação dos elementos deles para nações que habitavam na região do país que habitamos, no meu caso a Paraíba. Tal associação se justifica mais ainda quando observamos as nações indígenas contemporâneas que habitam o Xingú. As mesmas apresentam uma semelhança cultural significativa entre si, o que reforça ainda mais a idéia de um elo cultural comum.
Outra influência importante e que não pode ser desconsiderada é a dos negros e suas tradições. Estas permanecem ainda hoje nos terreiros das religiões de origem afro por todo o país. Os africanos que chegaram ao país como escravos eram também pagãos, com um panteão vasto e representativo dos mais variados sentimentos humanos e elementos naturais. As próprias religiões afro-brasileiras contemporâneas apresentam elementos pagãos, para comprovar isso basta irmos em qualquer terreiro e observarmos a importância dada à natureza, sem falar no vasto número de deuses e deusas (os orixás) e de outras entidades (cabocos, pretos-velhos etc). Tecendo uma auto-crítica (que espero seja entendida positivamente), podemos dizer que o Candomblé e a Umbanda separados são muito mais representativos do verdadeiro paganismo brasileiro do que qualquer prática “neopagã”.
Claro que não estou pregando o esquecimento de suas tradições por parte dos grupos já formados e perpetuados em nosso país. Afinal, apernas para citar exemplos, seria impensável pensarmos em uma Wicca ou um Druidismo sem a presença dos elementos celtas. Apenas chamo a atenção de todos os pagãos do Brasil para a importância de nossa herança não-européia. Afinal, esta não apresenta mil e quinhentos anos de influência cristã e corresponde de forma mais próxima à nossa geografia.

Que legal! Vocês falaram o que vivo dizendo. Dá a sensação de não ser tão só. Abraços!