Alguns pensamentos sobre a construção de comunidades orgânicas locais

Saudações. Este texto devia ter vindo antes, demorou mas está aí.

Diante da multiplicidade de desafios de ordem política e religiosa pela frente, a idéia de viver numa comunidade pequena composta por correligionários é algo que atrai muitos dos adeptos das religiões étnicas indo-europeias (e de tudo aquilo que convencionou-se chamar de “[neo]paganismo”). É uma opção convidativa e atraente, independente do perfil ideológico do adepto – seja um hipponga-libertário-new-age ou um militarista-conservador, além dos diversos tons entre um perfil e o outro. Claro, algo disto já foi discutido neste blog e viemos mais pôr um adendo aqui.

Por um lado, talvez isto – de formar comunidades paralelas – represente uma recusa ao grande embate político-social (e uma prévia aceitação da derrota), uma atestação de que não tem jeito mais (ou um reconhecimento de que não temos força suficiente); uma atitude conformista/negativa, que soa “egoísta”, uma “fuga do mundo” (condenável tanto pelo viés liberal social-democrata que no melhor dos casos pode se inspirar no civismo ateniense ou romano, quanto pelo marxista materialista-hitórico) e um apego a uma atitude “retrógrada” (e “alienada”, para o marxista) em prol de um idilismo “Amish”. Talvez, efetivamente, tenha algo disto, pois, na condição de minoria da minoria e da quase que completa falta de representatividade social e política na macro-sociedade é quase impossível não “cansar”, não estar saturado em algum momento e buscar algo mais fácil de ser posto em prática. Ainda por cima, quando há uma certa tendência anti-cívica, herdeira do Estoicismo e do Epicurismo, talvez, e reforçada pelo desprezo cristão por tudo que é “deste mundo” e pelo seu ascetismo amante de desertos é que se ache uma postura inadequada. No entanto, a tendência da viabilização de novas comunidades, a possibilidade de erguer algo diferente, é uma constante que se vê na colônias gregas desde a época arcaica, nos assentamentos romanos, nas expedições e migrações célticas e germânicas, por exemplo; e em muitos casos (especialmente entre os germânicos, célticos e mesmo alguns helênicos) o cariz rural/“de vila” se fez quase sempre presente.

Além de que a história mostra que “Fugir para as colinas” nem sempre significa derrotismo. Nossos ancestrais ibéricos, já cristianizados, que rumaram para a Galiza e Astúrias para reconquistarem suas terras gerações após a conquista moura, são um exemplo do que desejo apontar aqui. É possível, lá nas colinas, montar um acampamento e cuidar de, paulatinamente, tornar as condições de vitória/expansão reais, palpáveis. Este é o ponto que indico cá e encaro isto como inspirado no pioneirismo migratório/colonizador de Celtas, Germânicos e Gregos.

Nesta possibilidade, para qual converge muita coisa, creio que estão – na minha opinião – as idéias mais úteis de boa parte do “blá, blá, blá” político que se pretende “pós-moderno” (e defendido por quem se acha mais “descolado” e inteligente, etc.). É aqui que vejo, por exemplo, utilidade nos conceitos de “voluntarismo” e “comunidade orgânica” tão frisados por anarquistas; nas digressões sobre o tal do “municipalismo libertário” (e da ideia do “ocupe” venha da extrema-esquerda ou dos libertários/anarco-capitalistas), do esforço de “espalhar” ou realizar o esforço democrático em comunidades (impulso de setores progressistas de Esquerda, por exemplo), da retórica neo-tribalista (de radicais racialistas) ou das realizações hippongo-verdistas de permacultores simpatizantes do neoxamanismo, por exemplo.

Em termos práticos, isto se reduziria numa estratégia geral de fundar pontos sólidos em diversos lugares do país – teríamos três tipos de projetos:

1. fundar “colônias” rurais

2. formar “maioria” em alguma cidade pequena

3. formar “maioria” em algum bairro de alguma cidade grande

Revitalizar laços orgânicos e reais, promover um cotidiano integrado que possibilite a experiência de imersão cultural integral ao religioso, reforçar, para utilizar um termo durkheimiano, a “solidariedade mecânica” (aquela existente naturalmente, entre pessoas linguística-cultural-religiosa e geograficamente próximas, ou seja, a solidariedade do “ethnos”, da tribo) em oposição à solidariedade “burguesa” (derivada da globalizante divisão do trabalho)/moderna/“orgânica” (no dizer de materialista-progressista/evolucionista de Durkheim: de notar que ele chama de “orgânica” à burguesa e de “mecânica” a orgânica, sendo que é justamente o contrário!), universalista, virtual, do anônimo cosmopolita, é a meta. Com isto, naturalmente, brilhará mais forte nossas instituições e tradições, facilmente brotarão árvores vistosas e bosques sadios. Ou seja, basicamente se trata de criar bolsões, “viveiros” (religiosos) sadios que garantam exemplares vigorosos e centenários.

Onde isto está, dentro de uma perspectiva escatológica (seja do amedrontado prenúncio do fim da era petrolífera-tecnológica, seja da fé no fim religioso da Era presente, seja do geopolítico “fim da história”, etc.), não é o que me disponho a tratar aqui. Se trata de algo paralelo (e independente) a tudo isto. Que tenha utilidade para os prenúncios deste Inter-regnum, que seja, mas é outra coisa.

Particularmente, tenho algo destes projetos mas também creio que a “grande cidade” não deve ser de todo abandonada – creio que deve algo do efetivo ficar lá, entrincheirado, e talvez recebendo algum suporte “das colinas”. Talvez inspirado pelo que há de melhor em virtuosismo cívico no mundo ocidental, justamente, formulado por “pagãos” como Platão, Aristóteles, Cícero, etc.

Mas como operacionalizar isto, quais táticas?

O mundo virtual, por enquanto, possibilita um ferramental de organização formidável mas que parece também levar a dispersão e esvaziamento do Real, quando esquecemos de seu cariz instrumental e o encaramos como finalidade em si mesma. Enfatizar a dimensão instrumental da informática e pô-la em prática é o primeiro passo.

Bem, depois disto é necessário considerar umas coisas que acredito serem entraves. Vou expor a primeira destas coisas tomando como referência o pouco que percebi do projeto louvável do Rafael Noleto da “Vila Pagã” cá no Nordeste.

Bandeira da "VIla Pagã" no Piauí

Bandeira da “VIla Pagã” no Piauí

Para que o objetivo geral tenha melhores condições de frutificar enraizando-se, num quase osmótico processo de configuração com a Bio-região local, é importante que haja uma “unidade” de foco. Todos serem da mesma religião, ou ao menos cultuarem os mesmos deuses dentro de um mesmo arcabouço cultural, é crucial. Daí que “vilas” ecléticas/ecumênicas estão fadadas a problemas de ordem prática e forçarão seus moradores a desenvolverem um linguagem religiosa comum (que pode soar demasiado artificial ou não) que possibilite o mútuo entendimento, coesão grupal e o conforto “ideológico”, digamos. No caso do projeto Vilã Pagã, é mais ou menos o que me parece – estando eu distante, posso estar enganado – que ocorreu e levou ao desenvolvimento do “paganismo Piaga”. Mesmo se juntarmos, por exemplo, Reconstrucionistas Célticos de foco irlandês, com gaulêses, com galeses e ibéricos (todos, em teoria, RCs), haverão “desconfortos” (explícitos ou não) que levarão as partes minoritárias ou mais constrangidas a cederem ou saírem, cedo ou tarde. OK, talvez no casos dos Reconstrucionistas (ou “etno-religiosos”, digamos) assim seja e que entre os neopagãos ecléticos (Wiccas, Neodruidas mais ecléticos, etc.) isto não seja lá problema.

Outro fator é que Além de sermos poucos, e muito dispersos geograficamente, a viabilidade prática dos “iguais” unirem-se num ponto geográfico é complicada, especialmente quando já se começou a pôr em andamento algo destes projetos (mais ou menos nossa situação cá, confesso). Este é o fator logístico, digamos. Daí que tal projeto requer certa radicalidade e uma disposição de ferro de mudar-se (e arriscar-se, especialmente os que não possuem tanta fixidez ou raízes já fincadas em certo local) em prol de tal ideal. Este é um ponto crucial, é o que decide o sucesso ou o fracasso, o que decide o movimento ou o repouso. Trata-se da pulsão interna, da ação. Trata-se de quebrar a inércia da cadeira sedutora do conforto e ir para os elementos, faça chuva ou faça sol. E isto, definitivamente, não é para qualquer um – é a afirmação aristocrática, arcaica, que zomba do comodismo bundão.

Por outro lado, se considerarmos que os “iguais” devem permanecer onde estão (não se juntando), devendo fundarem grupos em seus respectivos locais, surge o desafio – já tratado – de como “crescer”, em qualidade em quantidade. Como inspirar, propiciar os chamados dos deuses ou despertar o interesse em dada religião? Há “público”? E quando a comunidade neopagã mais ampla sabota nas escondidas, seja por ranços de inferioridade declarada ou por picuinhas diversas? Ano após ano temos aprendido muito sobre estas questões aqui e digo, sob a égide de Bandu, que é difícil não se decepcionar e mais difícil ainda é não formar “filtros”, cada vez mais espessos, a ponto de se tornarem muros. E muros sem portas, são prisões. Simples assim.

Então, como proceder?

O caso de 3. em cidades grandes, é o mais fácil e exequível e me espanta que ainda não esteja ocorrendo: basta que os sujeitos se articulem para mudarem de bairro (basta escolher um bairro onde já 2 ou 3 de um grupo já residam e tal) – não precisam deixar os empregos ou transferirem-se para outros municípios, estados, etc. Longe das amizades e familiares, nada disto. Uma outra possibilidade ainda menor disto, é se houver uma combinação para “ocuparem” um dado edifício – se as pessoas decidirem investir em apartamentos em um único edifício, em pouco tempo se “controlará” o mesmo. Em poucos anos já se terá um núcleo duro, operativo comunitariamente.

O caso de 2. é mais difícil pois requer que vários sujeitos se mudem, e isto não é coisa simples, pois depende de empregos, familiares, amizades e toda uma vida já construída. Mesmo que os sujeitos de uma mesma unidade federativa (ou de vizinhas) decidam levar isto a frente, passará por todas estas coisas, apesar de estarem mais próximos para visitarem familiares e amigos. Além de que, se um grupo, completamente “alienígena” chega numa cidadezinha, com toda a excentricidade, sem “enturmar-se”, corre um risco sério de serem expulsos rapidinho, ou despertarem ódios que impeçam o projeto. Numa cidadezinha de 5000 pessoas é possível ter 50 que, estando presente em setores estratégicos (serviços essenciais ou inovadores para economia local, policiamento, burocracia administrativa, ensino, mídia/jornalismo local, etc.), permitam a execução de um tal projeto. E perceba, leitor, por exemplo, 50 asatruars se acham num único show underground de Heavy Metal em qualquer grande cidade (especialmente do Sudeste). Mas em todo caso, exige muita articulação e planejamento.

O caso 1. é o mais trabalhoso, talvez, mas possível, como a “Vila Pagã” de Rafael Noleto bem demonstra, mesmo tendo optado por uma espécie de “condomínio fechado” (neste sentido, algo mais urbanizado e para uma “vila” mesmo). A tática, neste caso, seria de alguém comprar uma área rural e dividir um pedaço dela em lotes (inclusive, num sistema de “mini condomínio horizontal fechado”), deixando uma área de trabalho comum, outra para a construção de um templo, etc. Conforme o interesse e o tipo de projeto que se queira levar a frente. Outra possibilidade é que uma vez que um sujeito já dispunha de um pequeno pedaço de terra, outros do grupo/comunidade religiosa busquem comprar as áreas vizinhas e/ou próximas, buscando formar um “cinturão” ou “confederação” de propriedades próximas se articulando em algo próximo do que atualmente funciona em “associações de agricultores”, “cooperativas” ou mesmo de sindicatos rurais. Dinheiro não surge do nada, mas se for de se endividar por uma vida para comprar a casa própria que te deixará eternamente insatisfeito (por não ter espaço, jardim, etc.) então reveja os planos, comprar um lote rural e construir talvez saia mais barato e traga mais satisfação: se é para dever, que se deva ao menos satisfeito, por algo que vale a pena.

Bem, vou parar por aqui. Eis algumas ideias e por isto venho cá compartilhá-las, afinal, uma andorinha só não faz verão, como dizia o famoso estagirita. E como tenho repetido cá, acredito que é necessário mais “pró-atividade”; é contra-produtivo e simplesmente indigno posar passivamente de eterna “vítima” indefesa.

Há quem diga que a boa e velha Realidade está com os dias contados. Se assim for, sou dos que está disposto a deixar este mundo virtual de fantasias tecnológicas para os entusiastas nerds, faço questão de me deixar de fora desta “Grande Ilusão”, e retornar, de vez, para as matas e montes “retrógrados”, para o sangue e o aço, para a Realidade, a mesma de nossos deuses e de nossos ancestrais.

Sobre as eleições de 2014 no Brasil

“A prudência, ela, consiste em saber-se reconhecer a extensão dos inconvenientes e tomar por bom o que é menos ruim” (Maquiavel, O Príncipe, xxi.)

Pensar sobre as eleições vindouras é algo pragmático, que ultrapassa os devaneios e formulações teóricas que apontam os vários defeitos do “Sistema”. Pode-se recusar a ideia do “Brasil” sendo um separatista regional, pode-se recusar a Democracia, pode-se advogar Monarquia ou Autocracia/Ditadura, pode-se o que quer que seja – mas efetivamente a eleição está aí e, pelo menos por enquanto, não há sinais de que deixará de acontecer. Daí sua imediatez, sua “concretude” e externalidade (coerciva e geral, para usar termos durkheimianos) e por isto que não venho cá expor meus motivos de concordância ou não com o “sistema”, não é sobre isto que escrevo.

Basicamente, fiquei de expor cá meu parecer sobre as eleições vindouras e os candidatos, atendo-me, no máximo que conseguir, a um viés religioso. Claro, é quase impossível ser imparcial, até porque Política não é algo “racional”, mas um aglutinador de paixões, razões, Vontade e Poder – mas creio que certas posições (como a de certa incompatibilidade doutrinária entre crenças indo-europeias e idéias marxistas-materialistas, ou de crenças tradicionais e “anarquismo”, etc.) são defensáveis independente de preferências pessoais, por serem logicamente sólidas. Então, buscarei primeiro apresentar, do modo mais imparcial possível, o que considero importante (que é, basicamente, para não crer facilmente em histerias de medinho de candidaturas anti-laicistas) e só depois apresentarei minha posição, que sendo algo pessoal, não tem lá importância.

Bem, como já dito neste blog, cada vez mais desconfio que teremos de desenvolver um caminho ideológico próprio, em termos de Política. Um vanguarda intelectual terá de parir tal criação. Os caminhos aí existentes esbarram numa série de dificuldades, assim como a simples “importação” de doutrinas e ideologias políticas – historicamente – parecem não “andar” muito, além de serem como um atestador de falta de criatividade intelectual e do mero provincianismo já velho nas terras brasileiras. Talvez seja necessário algo que surja de cá – podendo até ter uma forma herdeira do Além Mar – mas algo intuído do relâmpago sobre a planície pedregosa da Caatinga, ou do barulho dos riachos da Floresta, ou do vento soprando o capim nos Pampas… Mas enquanto tal coisa não se manifesta, nossa comunidade religiosa mais ampla se agrupa em torno de certas figuras políticas que lhe parecem, no melhor dos casos, defenderem algo que abarca suas posições políticas ou ideológicas em geral. E isto ocorre meio que “cegamente” ou de forma bem rasa. Claro, há quem diga que o nosso “projeto” político deve ser, simplesmente, abandonar o país – nós, religiosos indo-europeus, teríamos pois de migrar para nossos países de origem, integrando-nos lá, e pronto, o “Brazil” que se exploda. Bem, há quem diga muita coisa.

Não é incomum ver, por exemplo, Wiccans defendendo gente como um “Jean Willys” da vida, mesmo que o sujeito estejam num partido cuja ideologia possui vínculos com regimes ditatoriais (que inclusive no caso soviético, ao menos no período estalinista, perseguiu gays e criminalizou o comportamento homossexual) e defenda um complexo teórico materialista-histórico (que não só nega, por princípio, a possibilidade real do divino, como nega a validade das experiências religiosas e místicas, como, deterministicamente, põe toda religião como forma de alienação, distração da super-estrutura para ocultar a materialista e iconoclasta “realidade” da luta de classes). Geralmente fazem isto por defesa de causa própria (sendo gays, o que é compreensível) ou, no pior dos casos, por considerarem que tais sujeitos estejam realmente comprometidos com a laicidade e não somente com o enfrentamento daquilo que consideram o Inimigo – a bancada conservadora cristã, o lobby evangélico, etc. Não por estes defenderem um estado forte, menos democracia, ou algo assim (os evangélicos majoritários na política, são democratas, centristas e liberais em economia e mesmo existe tendências à Esquerda entre eles – pintá-los como “fascistas”, ou seja, anti-democratas, belicistas e promotores de um Estado máximo anti-liberal, é simplesmente tosco), mas simplesmente por condenarem, dentro de seus pontos de vista religiosos, o comportamento homossexual (sendo por isto, coerentes com suas doutrinas – sendo fundamentalistas), ou seja, a oposição se dá muito mais num nível pessoal que num que diga respeito às grandes questões da Pátria. Ou seja, uns defendem desejosos de comprar brigas alheias ou crerem que tal força representa uma oposição “forte” contra o que consideram o Inimigo “todo-poderoso”, seja inconscientemente, seja pelo “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Há também os que namoram com idéias libertárias e anarquistas, sem perceberem os conflitos destas com suas alegadas crenças “tradicionais” ou reconstrucionistas, ou ainda os que defendem, no pior dos reacionarismos capitalistas, deslumbres neoliberais de reductio ad oeconomicum, capitalizando tudo em dinheiro, consumo, comodidade e conforto “burguês” ad infinitum, sem a menor preocupação com a tribo mais ampla ou com os pais e descendentes, ou com o bosque mais próximo (que dizem tanto “adorar”), preso no quadrado mental solipicista da auri sacra fames da utopia virtual e da democracia do espetáculo.

Digressões a parte, o que há de posicionamentos mais inteligentes à Esquerda, pelo que vi até hoje, se dão por tática e não por concordância ideológica, já os posicionamentos menos inteligentes (e que no meu ver, devem ser criticados e rechaçados, por serem daninhos à própria comunidade e ao serviço religioso em si) se dão pela pressuposição de que há confluência de posicionamentos ou simplesmente pela ignorância dos pressupostos filosóficos e teóricos das doutrinas marxistas-leninistas clássicas. Só um pagão ignorante ou ingênuo abraçaria o marxismo, para não falar dos mal-intencionados, claro. No entanto, é possível coadunar algumas visões tradicionais com certas formas de “socialismo” (não o tal do “socialismo científico” do Marx, que de científico não tem nada, apesar de advogar uma base materialista quase positivista), desde que sejam um “socialismo” que tenha lugar para a religião (seja como fundamento de ordenação social, seja como manifestação inseparável da vida social), a identidade cultural e a crítica aos aspectos nefastos do liberal-capitalismo em seus pressupostos doutrinários. Por outro lado, os que estão mais à Direita, estão mais pelo aspecto de visão de Estado (os mais liberais, por Estado Mínimo, livre concorrência e liberdade em geral; ou mais nacionalistas, por Estado Forte e pela crença que o Estado deve instigar virtudes morais desde um ponto de vista marcial/aristocrático) do que pela moralidade cristã.

Se por um lado, se pode apontar claramente um incongruência ou falha gritante de princípios, a priori, nos que guinam à esquerda marxista, se pode, igualmente apontar uma certa fatalidade de consequências, a posteriori, dos que terminam por apoiar à direita moralista/conservadora cristã. Como já falamos noutra ocasião, há dois anos atrás, um “pagão” ser conservador (os tradicionalistas o são) é algo facilmente justificável filosoficamente (justificar-se um liberal economicista, à esquerda social ou à direita capitalista, é muito mais difícil), mas seu conservadorismo diferirá visivelmente do de um cristão em temas como Eutanásia, Pena de Morte, Condições de Aborto, etc. Se um pagão que apóia cegamente marxistas é uma espécie de estúpido que não enxerga contradições lógicas elementares, um que apóia cegamente fundamentalistas cristãos termina por atirar no próprio pé, quando não dá, ele próprio, o seu revolver para nele atirem.

Mas nos concentremos na eleição em si.

OK, podemos questionar as urnas eletrônicas. Sim, podemos sim, estando neste país e dado o rumo das coisas, não é idiota suspeitar de fraudes nas urnas. Talvez não se disponha de evidências sistematicamente conclusivas para condenarmos as urnas por completo (em todas as ocasiões), mas dizer que não se tem motivos de duvidar delas é ou um ato de fé ingênua ou de afirmação comprometida-militante com o atual Governo. Basicamente será uma eleição que determinará se o PT permanecerá ou se haverá, após 12 anos, alternância de poder. Daí que, no final das contas, será esta a grande contenda de fundo: a saída ou não do PT do governo. Vale lembrar a citação de Maquiavel acima, no início da postagem, é por isto que, realisticamente (sem moralismos), se verá as alianças mais suspeitas e as retóricas mais inflamadas. Vejamos os candidatos:

1. PT e PMDB candidatando-se a reeleição (para totalizarem 16 anos no poder), com o apoio do PSD, PP, PR, PROS, PDT, PCdoB e PRB . Temos pois uma candidatura de centro-esquerda (que promete, se eleita, guinar mais à Esquerda), com apoio de uma parte da Esquerda progressista (que tende ao centro em seus representantes mais liberais, incluindo os trabalhistas do PDT apesar da herança brizolista), da Esquerda “ortodoxa” (PCdoB) e do “Centrão”.

2. PSDB com o apoio do PMN, SD, DEM, PEN, PTN, PTB, PTC, PTdoB . Temos aqui uma candidatura de Centro, que aglutina o apoio de gente de Esquerda (sim, ou alguém acha que o sindicalista Paulinhho da Força, líder do “Solidariedade” não é de Esquerda? E o PMN? Sem contar que, ao contrário do propagandeado, o PSDB é de Esquerda, menos que o PT, claro, mesmo tendo namorado com o Neoliberalismo permanece como uma tendência de Centro-Esquerda) e da Direita liberal (DEM), assim como de gente próxima de alguma forma de terceira posição (PEN, os trabalhistas de passado nacionalista varguista, como o PTN, PTB e PTdoB).

3. PSB com Marina Silva de vice, com o apoio do PHS, PRP, PPS, PPL, PSL. Temos neste caso uma candidatura da Esquerda Progressista, quase Centrista (PSL, PRP), Social-Liberal, aglutinadora de algum setor da Esquerda “ortodoxa” (PPL) e estranhamente de um partido centrista que possui histórico monarquista (PHS).

4. Outras candidaturas: PSC – que aglutinará um setor considerável dos Evangélicos, o PV – que cada vez mais encarna seu esquerdismo universalista hippóide, as da extrema-esquerda: PSOL, PCB, PSTU E PCO – cada um com candidatura própria e a candidatura do PSDC.

Ou seja, teremos 10 candidaturas à Presidência do Brasil. Bem, o que isto nos mostra? Primeiro, mostra que há insatisfação com o atual governo e um apelo concreto pela rotatividade de poder. Segundo, que a Esquerda, como um todo, posição hegemônica na política partidária nacional está desunida – já não se entendem entre si os setores da extrema/periféricos nem os próximos ao centro. E é fato, o Governo desagrada tanto quem está a sua Direita (de setores da Esquerda Progressista, ao Centro, à Direita e terceiro posicionistas), quanto quem está ainda mais a sua Esquerda (setores da Esquerda “ortodoxa” e a Extrema-Esquerda); tal desunião, caso houvesse um maior peso da Direita partidária (tanto a liberal/neoliberal/libertária, quanto a conservadora/monarquista) ou de opções de terceira via (Nacionalistas e mesmo se ecologistas como o PEN seguissem como estão e se tornassem mais fortes), seria decisiva e uma real oportunidade de mudança. Mas não é o caso. Terceiro que o segundo turno será onde, realmente, as cartas serão postas na mesa e as apostas serão feitas na “vera”.

De um ponto de vista mais geral.

Pensando enquanto membro de uma minoria religiosa, estritamente, temos de considerar o possível crescimento dos Evangélicos e dos seus setores mais radicais. Não agora, creio que a candidatura do PSC, por enquanto, é apenas sintomática, mas, justamente, aponta para um futuro interessante onde um poder evangélico com reais condições de ganhar apareça forte. De um ponto de vista geral, as três candidaturas majoritárias (PT, PSDB e PSB) são, teoricamente, comprometidas com a Laicidade (para quem acha que o fato de “evanjas” apoiarem a Marina ou o PSDB contra o PT, são motivos para preocupação relativa a laicidade, lembrem-se que o que tivemos de mais próximo, de verdade, de uma afronta à laicidade que foi acordo do Brasil com o Vaticano deu-se no governo do PT, além de que o PT só ganhou, como Lula admitira em entrevista no final de 2002 começo de 2003, graças ao apoio dos setores progressitas da igreja católica ao PT; se hoje “se desentendem” amanhã poderão se entender de novo – o que não falta são Freis Betos e Leonardos Boffs da vida para intermediarem a retomada de laços) e não creio que, somente visando isto, se deva preferir uma a outra. Se os sujeitos das candidaturas menores ganhassem, aí sim, talvez houvesse preocupação (seja de eventual perseguição cristã fundamentalista encoberta pelo Estado contra minorias religiosas vistas como “demoníacas” ou “idólatras” – neste caso, talvez mais o PSC, não creio que o PSDC faria isto – seja de uma proibição atéia, de gênero soviético, vinda de um PCO, PCB ou PSTU da vida).

Talvez alguns protestem dizendo que o atual Governo (PT) estabeleceu comissões inter-religiosas e de combate aos preconceitos diversos, etc. De acordo com a cartilha politicamente correta da ONU e tal, etc. Bem, no nível estadual, o PSB fez isto cá na PB também – e talvez até mais que no nível federal, salvo as justas proporções, claro. Além de que parece improvável que os elementos pensantes e diretores do PSDB (que defendem pontos liberais clássicos, entre os quais a liberdade de comportamento e escolha religiosa, como um Fernando Henrique Cardoso da vida) resolvam, de repente, guinarem ao fundamentalismo evangélico do nada. Por outro lado, destes partidos, o PT é o que mais demonstra tendências populistas, estas sim, dispostas a atropelarem estes conceitos “elitistas” de Laicidade, Livre-pensamento, etc. (bandeiras muito mais sensíveis para setores esclarecidos da sociedade, como qualquer um pode verificar). O exemplo bolivariano é interessante neste quesito – Chaves justamente zombou do ateísmo de Marx, e do sentimento anti-religioso das elites esquerdistas, da intelligentsia “esclarecida”, tentando formular uma síntese política que aproveitasse o sentimento religioso de cunho messiânico direcionando-o num sentido de libertação política do “imperialismo yankee” e da afirmação de uma identidade sul-americana (parece que algo próximo disto, pelo menos no sentido populista de aproveitar o sentimento religioso da massa, é desejado pelo nordestino Mangabeira Unger para o Brasil) chamando setores “progressistas” (ou seja, filo-marxistas, como os ligados a Teologia da Libertação) da igreja católica e das protestantes para apoiarem a “revolução” (lembrando que, eventualmente, hostilizou os setores mais tradicionais e conservadores da igreja católica). Enfim, é um assunto complicado, mas pelo que vejo, ao menos nas três candidaturas majoritárias, não há ameaça séria ao nosso exercício e vivência religiosa, não mesmo; e mais, creio que alarmismos neste quesito em respeito a qualquer uma das três candidaturas majoritárias são muito mais “medinho” de gente histérica/covarde ou um artifício para desviar a atenção de outros quesitos.

Minha posição.

Escrever minha posição talvez seja expor-se desnecessariamente ou talvez sirva para levar alguém a crer, erroneamente, que viso direcionar votos, como se eu tivesse algum poder de sugestão em tais assuntos no público leitor, que é diminuto, diga-se de passagem. Mas vou arriscar-me, pois.

Particularmente, creio que a permanência do PT no governo é nocivo ao país, apesar de reconhecer que em termos de política externa, o PT tenha se comportado com um pouco mais de culhões (na era Lula) que o velho papel de capacho em forma de “gigante bobão” de sempre. Listar todos os motivos e pormenorizá-los é algo que tornará este artigo longo e que, no final das contas, não cabe aqui, o máximo que farei é ser bem “raso”, apenas para não ficar gratuita e completamente injustificada a posição. Internamente, creio que o PT deva ser responsabilizado diretamente pelo aumento absurdo da criminalidade (votei contra o Estatuto do Desarmamento, junto com meus pais e familiares e nunca esqueci a safadeza deste governo neste quesito) e pelo alto nível de vagabundagem assegurada pelo mal planejamento reinante do auxílio estatal nas pequenas cidades como na que vivo, pela repetição cretina de práticas que condenava quando era oposição, entre tantas outras coisas que contribuem para que o país afunde ainda mais. No âmbito da educação – onde trabalho – talvez os dois governos se compensem, apesar do PT ter investido mais na infra-estrutura das universidades federais e na criação de escolas técnicas que são, efetivamente, necessárias (neste quesito o PT se destaca, apesar do nível dos sujeitos que ingressam nas universidades ter caído). Em ambos (PT e PSDB) parece ter sobrado o desejo de “aparecer” em números, fazer coisa “pra-inglês-ver” e faltado o comprometimento radical com a educação de base (e com a Educação pública de qualidade, em geral), faltou um plano de Estado, um projeto sério, para a Educação. Minhas reservas em relação ao PSDB se dão, justamente, no nível da política externa e na maior tendência deste governo em ser “vendilhão da Pátria” em suas recaídas mal resolvidas de Neoliberalismo (não o vejo como mal absoluto, não me entendam mal). Ambos (PSDB e PT) demonstraram escândalos de corrupção altamente nocivos ao projeto de um Brasil forte (“privataria tucana” em geral e safadeza da Vale da Rio doce em particular; aos “mensalões” e a jogatina de cargos em geral e a brincadeira com a Petrobrás em particular), dentro de uma perspectiva mais nacionalista em relação aos recursos estratégicos do país. Por outro lado, o PSB não representa uma alternativa decente aos meus olhos, pois me parece que lhe falta “fibra”, e se tem alguma simpatia minha, o tem pelo regionalismo da figura de Eduardo Campos a quem a figura de Marina Silva, mais tirou do que acrescentou, para mim, volto a frisar. Se a candidatura do PSB tivesse aglutinado em si o trabalhismo de origem nacionalista, assim como a proposta ecologista do PEN, talvez tivesse mais indícios para crer numa real alternativa ao binômio PT-PSDB que está aí. E o pior, não me identifico com nenhuma das candidaturas pequenas.

Daí que para mim, a escolha será complicada e do tipo de “voto de nariz tapado”, estou ainda analisando. É possível que em cima da hora, vote em Campos. Não sei, terei alguns meses para considerar esta possibilidade ainda. Mas caso o segundo turno seja PT x PSDB, aí realmente me complico.

Finalizando

Foquei, neste momento, na presidência somente – mas tão importante quanto (ou dependendo do caso, talvez até mais) é o foco nos deputados e nos partidos dos mesmos; dependendo do resultado das eleições, a composição do senado e do congresso nacional podem tornar um governo inexequível (há quem diga que, especialmente, se o PT perder…), além, claro, dos governos estaduais. Estejamos atentos e não nos deixemos enganar.

Aparecendo brevemente

Saudações.

O blog está um tanto quanto desabitado pelos autores – e nisto, peço desculpas aos eventuais leitores que temos (que a julgar pelas estatísticas, não são muitos). Bem, estamos trabalhando e tocando nossas vidas profissionais, religiosas, familiares, etc. E nem sempre o tempo ou as circunstâncias adequadas à escrita cá surgem. Inclusive, por vezes, falando por mim, esboço algo e não posto, só depois (que pode ser semanas) leio, edito, apago ou finalmente posto. Venho cá, rapidinho, compartilhar uns pensamentos sobre alguns pontos.

Filosofia

Os grandes projetos estão ainda sendo gestados, particularmente, me refiro a três em especial – a um trabalho apologético do politeísmo, ao trabalho de exploração metafísica das raízes culturais do Nordeste e de uma interpretação Indo-Européia para a mesma (as bases do “Paganismo Armorial”, peça-chave para o quebra-cabeça da integralidade cultural dos politeístas indo-europeus do Nordeste) e ao trabalho de fundamentação filosófica (e reconstrução mítico-litúrgica) do Iberoceltismo em especial.

Este último, talvez, seja o trabalho mais difícil que enfrentei na vida, e mesmo sabendo que não estou só nele, é algo distinto, absolutamente, um autêntico (no meu ver) serviço religioso, serviço às divindades, que requer abnegação e disciplina, que requer aquela certa forma de vida contemplativa, que permita uma “iluminação”, que um saber que toque nos pilares perenes se manifeste. Não é coisa fácil, uma vez que construção discursiva científica-positivista (base das engrenagens metodológicas reconstrucionistas, ás vezes, invisíveis mesmo aos reconstrucionistas mais criteriosos) alguma permite alcançar tal âmago, uma vez que se trata não de elaborar um mero sistema filosófico-teológico “humano, demasiado humano”, mas de fazer-se manifestar uma luz sobre-humana, como o raio fulgurante por sobre a colina.

Política

Ano de eleições presidenciais no Brasil, o que traz à baila, uma politização de certos assuntos e mesmo de nossa pequena comunidade. De um ponto de vista mais filosófico, nos EUA há uma politização a la gouche dos setores mais “libertários” do Neopaganismo, defendendo uma hibridização de causas minoritárias arreligiosas com teologias neopagãs. E não será novidade ver muito em breve isto ser reproduzido acriticamente cá na “colônia”. Os sujeitos vociferam espumantes contra os radicais malucos que misturam Odinismo com Racialismo, por exemplo, mas, sem percepção alguma de anormalidade, buscam traçar implicações metafísicas entre suas concepções religiosas e ultra-modernismos como Feminismo radical, Teoria Queer, Anarquismo sindicalista, etc. Criticando a mistura de coisas nos outros, e ignorando (por má-fé ou real ignorância) a mistura que também fazem. Tal procedimento é paradigmático por explicitar o partidarismo ideológico (e talvez, a carência da percepção das divergências da Modernidade com o Mundo Antigo entre uma parcela considerável dos Neopagãos dos EUA), de que misturar a ideologia x (politicamente incorreta, “diabólica”/maléfica, fascista) não pode, mas as y, w e z pode (que são “do bem” na visão pseudo-angelical de mundo ultra-moderna do Humanismo laicista, do marxismo progressista, etc.), quando em ambos os casos tratam-se de misturas anacrônicas e/ou, em alguns casos, inconsistentes que deveriam ser igualmente problematizadas. Em todo caso, talvez por não tratar-se de racionalidade apenas, são assuntos espinhosos que causam certos incômodos, mesmo entre pessoas que se respeitam e se admiram.

No meu ver, isto tudo aponta, como que num augúrio, para a necessidade vindoura da construção de teorias políticas “pagãs” atuais, próprias, assentadas ou que dialoguem com a tradição política e religiosa dos povos indo-europeus do mundo antigo e, ao mesmo tempo, que nos mostre cenários futuros adequados; se tratariam, pois, de teorias realmente pós-modernas (e não meramente ultra-modernas, como tanto se vê), que realmente tivessem superado a modernidade, seja pela retenção sintética do pré-moderno, seja pelo futurismo assentado nos pilares atemporais das tradições religiosas indo-européias.

Fora tudo isso, há a sombra das eleições presidenciais se aproximando e com ela a necessidade de refletir e analisar, sob nosso ponto de vista, claro, as candidaturas e os projetos (quando os houverem, óbvio) dos candidatos. Eu pretendo aproveitar este blog para expor algo do que percebo sobre as candidaturas e as opções, mas vou esperar que as coisas se tornem mais claras nas semanas vindouras.

Parahyba

Finalmente o Inverno chega. Sim, nosso “inverno”. Aqui pelo brumal do Brejo parahybano o clima começa a ficar agradável e a vontade de estar ao ar livre aumenta (caso não haja as maravilhosas semanas de chuva sem interrupção – saudade destes tempos, faz anos que isto não ocorre) ainda mais. Devaneios climatológicos a parte, estamos precisando revitalizar a experiência dos comentários de notícias e, particularmente, estou desejoso de engajar-me numa produção cultural em breve; mas as coisas dependem de outros fatores, além de que os retornos dos programas de áudio foram poucos e o público deste blog só diminuiu – isto tem me feito pensar sobre o futuro deste blog também, confesso. A impressão de que se está falando/escrevendo para “paredes” não é das melhores, pelo menos não para mim.

Espero que com o Solstício de Inverno, tal impressão mude.

19 de Março

Saudações.

Noite do 19 de Março. Esta data é uma ilustração da sobrevivência e do caráter imorredouro do que o beatame chamará de “paganismo”. É um símbolo de Tradição que persiste, modificada no Tempo e no Espaço; uma prova do Paganismo Inconquistável (“a religião impossível de ser derrotada” segundo Guillaume Faye). Pelo Nordeste se celebra, sob o verniz católico, um dia augural para o Inverno e tudo o que este representa para o Sertanejo: fartura, colheita, trabalho na terra, etc. A associação popular com o tal São José é esporádica: nada há na mitologia bíblica neste personagem que o associe a Chuvas, Fartura e Lavouras. NADA. A associação como “padroeiro dos trabalhadores”, em sentido estrito, caberia muito mais aos trabalhadores de ofício manual especializado, artífices (carpinteiros, artesãos, etc.). Nada o liga à Chuva/Metereologia nem a fertilidade das colheitas vindouras. Então, como se explicaria tal fenômeno?

A percepção augural do tempo.

Que há certos dias que concentram em si o prenúncio de estações inteiras é uma concepção bem viva entre os povos célticos, como os registros e o folclore medieval facilmente atestam, seja nas ilhas britânicas, na Bretanha francesa ou nas zonas nortenhas de Portugal e Espanha. Claro, isto não é uma percepção unicamente dos Celtas, é algo comum entre os demais povos Indo-Europeus e mesmo entre os demais povos antigos/tribais/integrados com a Natureza. Tal percepção ainda viva no imaginário popular dos Nordestinos, herdeiros de eventuais raízes célticas via Galego-Portugalidade, percebeu no fluxo natural local tal marco. Esta associação não existiu na Europa, não veio de lá simplesmente. Somente uma percepção sedimentada e integrada na Bio-região cá, geração após geração, pôde identificar tal padrão imanente de uma indicação transcendente e pô-lo na prova do Tempo. Confirmou-se que, em boa parte das Bio-regiões nordestinas, a Véspera do Equinócio de Outono augura o Inverno. Por “coincidência”, tal Véspera caiu no dia que o calendário católico arbitrariamente destinou ao tal Santo. Uma percepção ancestral, “pagã”, manifesta em um símbolo cristão que aí estava, inócuo até então; o vitalismo pagão fez brilhar uma data cristã apagada. Algo novo surgiu, uma novidade antiga – entrelaçada ao Imanente.

As cerimônias da data.

Até o modus operandi do “agradecimento” ao Santo remonta às raízes pré-cristãs mais óbvias e indeléveis, depositadas profundamente no imaginário de nosso povo. A fogueira sacrificial, a procissão com o Ídolo e homenagem, as oferendas de adornos, flores, hinos e preces. A adivinhação do Inverno se soma ao rito de oferenda primicial, de propiciação agrária às futuras Colheitas. Inicia-se o ciclo do Milho – este nobre grão nativo, divinizado pela sabedoria indígena – inicia-se o tempo até o Solstício de Junho (até o São João, dirá o vulgo). Este é um dos casos em que o Cristianismo Popular mostra-se valioso e um veículo que, mesmo possuindo suas limitações, manifesta Luzes Perenes.

E nós, o que fazemos?

Repaganizamos, incorporamos esta manifestação autêntica em nossos calendários litúrgicos nordestinos. Não cabe aqui iniciar uma “cruzada” para esfregar na cara de católicos o paganismo manifesto da data, não se trata de buscar contraria-los em sua fé, ou de demonstrar arcaísmos e “impurezas” doutrinárias a quem tanto se diz puro e “evoluído” (é de notar que certos sujeitos, especialmente alguns neo-ateus e neo-pagãos adolescentes, se satisfazem com tais coisas, no fundo, regojizando-se inconscientemente por serem mais cristãos/”angelicais” e puritanos que os próprios cristãos!). Nada disto. Deixemo-los felizes lá, rogando ao Santo deles. Respeitemos esta manifestação, por mais que para nós ela nos pertença mais. Roguemos nós aos nossos deuses da Agricultura e/ou das Chuvas e estejamos cientes que nosso Nordeste contém tesouros, alguns escondidos, outros nem tanto.

Visões sobre o caminho do produtor

A obviedade da necessidade de produtores é tão gritante (pelo menos para quem vive e labuta para realizar projetos no mundo real) que não há muito a falar. Neste sentido, reunimos uns pensamentos curtos e simples que expressam algumas das ideias que acredito serem expostas para um número maior de pessoas e compartilhadas. São pensamentos e devem ser encarados como tal.

1. Se é vital ao paganismo contemporâneo o ressurgimento da classe guerreira, se pode falar ainda mais da classe produtiva. A base, o alicerce, a pedra grave e plana. O bloco rígido e rústico, massa volumosa e potente, construtora de impérios e exércitos, do que é grandioso e imponente, que manifesta a vontade de um povo, que constrói o destruído de novo e suporta uma ordem vigente. Precisamos de produtores: produtores de verdade.

2. Não tenhais por produtores de verdade meia-dúzia de “hippies”, que erradamente alguém relacionará como expoentes da nossa classe produtiva. Não. No passado como hoje, o produtor é o camponês, o trabalhador manual pesado (no nível mais baixo), o pequeno comerciante (no nível médio), artesãos, mestres de ofício, técnicos e talvez mesmo, músicos, artistas e poetas de baixo nível (no nível mais alto). São produtores, a classe prestadora de serviços, a classe industrial e a exploração dos recursos primários. Talvez mesmo, seja produtora a “elite” de engenheiros e “homens de negócios”, que nossa sociedade vê como equivalentes a sacerdotes e a intelectuais, os superando, muitas vezes, em prestígio. É necessário compreender que o grande empresário, suposto membro da elite, não é de “elite”, no sentido tradicional, mas o é somente no sentido “burguês”, ou seja da “elite econômica”. Ele é parte da classe produtiva, uma parte alienada pelo sonho e pela fantasia da “burguesia” e que se pensa diferente, ontologicamente, dos seus empregados.

3. É necessário iniciar a desocupação do mundo do trabalho, colonizado pelo Comunismo. É necessário ver, de modo sincero, sem preconceitos, as alternativas (Der Arbeiter de Ernst Jünger), é necessário também considerar e ver os substratos que o Marxismo trouxe consigo e que são valiosos. O paganismo necessita de uma teoria própria do trabalho, para agora, uma que parta da visão tradicional do trabalho e da reflexão filosófica desta (Política de Aristóteles, Íon de Platão, etc.) e transpasse o materialismo modernista (liberal e comunista) dos sindicatos e do mundo consumista. É necessário compreender novamente a lição ancestral de que o fim do Toque de Midas (o Capital Apátrida que tudo em que toca transforma em ouro, em mercadoria, desprovendo de espiritualidade, vida e valor transcendente) só se dará pelo retorno ao Sagrado, e não pela sua extirpação completa (como querem os Comunistas e como alguns Anarquistas, mesmo que não saibam, terminam trabalhando para).

4. Voltemos e olhemos para o nosso “passado”: as corporações de ofícios, as guildas, os arranjos e soluções do campo e da cidade. Lembremos, uma vez mais, que a grande virtude do Produtor é a temperança. O que o guerreiro tem na guerra o produtor tem no trabalho; esta é a sua guerra, este é o campo para que suas virtudes floresçam, sua via de ascese, para que se ilumine.

5. Nisto, na denúncia da eventual perversidade e alheiamento do mundo produtivo moderno e de como este é controlado por uma elite financeira que subjuga o mundo, há algo de valor nos socialistas que deve ser compreendido. Efetivamente, são os sujeitos que mais trabalharam para compreender os efeitos nocivos da economia moderna – o seus diagnósticos são valiosos, mas a receita dos remédios comunistas se mostraram aplicações de um veneno mortal. Talvez por erros de compreensão de como o capitalismo funciona, segundo advogam alguns (Ludwig von Mises e a Escola Austríaca), talvez pela sedução do messianismo utópico do “Reino dos Céus na Terra”, ou seja, por um erro de finalidade (que por sua vez, determina os meios, ao menos entre a Esquerda, vd. Moral e Revolução de Trotsky).

6. É necessário também, não cair na trama fácil do bode expiatório – antes os judeus, hoje os grandes magnatas como George Soros – pois, por mais que caibam em certas posições (e de fato, sejam responsáveis em alguns casos), não se pode subestimar a auri sacra fames, veneno que pode, a princípio, em menor ou maior grau, infectar qualquer sujeito em qualquer classe e de qualquer origem.

7. Precisamos, antes, de construtores, pedreiros, engenheiros. Precisamos retornar à construção de templos, altares, à transformação da ideia em matéria, matéria que condensa a força vital. Já há gente de bijouterias e hippies de artesanato medíocre, não é lá disso que precisamos. Precisamos de mestres, artesãos que produzam obras para a eternidade, imortalizem-se e elevem-se ao divino pela suas obras.

8. A ideia de uma comunidade religiosa autônoma necessita de produtores, fundamentalmente. Precisamos de uma comida plantada e colhida sob a égide de nossos deuses, de carne consagrada a eles, de casas e espaços construídos que reflitam nossas visões e compreensões, vestes, bebidas, instrumentos, utensílios, cultura material. Eis uma necessidade que torna um pedreiro pagão, hoje, mesmo que medíocre, mais útil que 10 blogueiros medíocres que repetem a ladainha do mais do mesmo.

9. Há muitas saídas interessantes hoje que, de certa forma, realizam os apontamentos, digamos, arqueofuturistas. Há muita coisa boa e aproveitável, seja entre as diversas profissões técnicas, seja na tecnologia que dispomos, seja nas técnicas e conhecimentos de permacultores, etc. Informação, há. Não é o que falta.

10. Muitos dos que se aproximam das nossas religiões talvez não disponham de uma natureza majoritariamente produtiva. Talvez, nestes anos, atraiamos mais sacerdotes/intelectuais, poucos guerreiros e poucos produtores – afinal, restaurações, tradicionalmente, começam de cima, formando uma “vanguarda”. Mas talvez não seja só isto – talvez haja muita gente confusa sobre sua real natureza, alienada de si mesmo, pela distância de uma vida saudável junto à Natureza, pela intoxicação ultramoderna das grandes cidades, pela fantasia da vida médio-burguesa e do comodismo santificado, o comodismo do consumo e da satisfação instantânea dos apetites. Talvez. Só quando se sai da caricatura, do faz de conta onde tudo se compra e rápido se faz, e se mergulha no real, onde nem tudo tem preço e onde o tempo requer disciplina inquebrantável, é que possamos saber bem as reais causas. Precisamos que se forme o contexto que liberte os sacerdotes – desobrigue-os de terem de exercer as artes produtivas e combativas, por carecerem os produtores e os combatentes. Precisamos que os produtores assumam sua produtividade, reconheçam que não são nem guerreiros, nem sacerdotes, ou melhor; reconheçam (pois se trata da natureza predominante) que são melhor produtores, que guerreiros ou sacerdotes.

11. Muitos povos conceberam que certos deuses presidem as atividades produtivas ou partes delas. É mister e essencial religá-los à concepção do trabalho em sua plenitude. Sem isto, repetir-se-á a ladainha profana da substituição dos poderes transcendentes pela “deificação” materialista do Consumo, do Mercado, Salário, da Marca. Não. Adoremos uma vez mais os deuses ligados à produção e ao comércio justo, direcionemos nossas mentes uma vez mais para o luminoso, retomemos a mística divina da transformação da matéria bruta em um arte, da verdadeira magia, da dimensão sagrada da produção, do “Segredo do Aço”. Não caiamos na ilusão do simulacro vazio, do ídolo oco, produto da mente semita. Não, reconsagremos a foice, o martelo, como a espada e o pergaminho! Uma vez mais, tenhamos as imagens de nossos deuses cunhadas em nossas moedas.

12. E nesta tarefa compreendei que o comunista (e suas variantes, incluindo os trotskistas e outras matizes de anarquistas) não estará conosco. O capitalista radical também não. Se vivemos, de fato, numa era onde o Trabalhador governa, é crucial estarmos cientes que tais saídas (que não são meramente políticas, mas constituem visões de mundo em si) não são decorrências naturais das visões dos nossos antepassados, mas algo diverso, derivado pela introdução de algo alógena. É dever do intelectual pagão esclarecer em que consiste o Trabalho no mundo pagão, o que consistiu no mundo católico (que teve lá suas simbioses com o pagão) e o que consistiu a partir da Reforma Protestante (Max Weber). Sem isto, o produtor corre o risco de ser esvaziado por dentro, corroído pelo materialismo radical (que se disfarça com desculpas a cada instante), do “tudo é dinheiro”, no final, “dinheiro é o que importa”, “ser um vencedor” nos moldes hollywoodianos do homem de negócios bem sucedido que despreza arrogantemente, e triunfantemente (num orgulho iconoclasta e profunda hybris), tudo o que não lhe rende dinheiro. Estes, enganam melhor por, supostamente, ainda preservarem um ethos de competição e suposto mérito, de concorrência e “guerra”, mas não. Não. Esta não é a deificação do produtor, sua exaltação não consiste nisto e não há moralismo escondido nesta atestação. Não nos iludamos pela propaganda dos idiotas úteis, seja do Grande Capital, seja do grande Embuste Comunista.

13. A exaltação do produtor se dá pelo exercício de sua virtude e pela perícia/excelência em seu ofício. Sem moralismos. Eis o que imortalizou Fídias, eis o que imortalizou Kalashnikov. Eis o que deve-se mirar: a obra, a posteridade – faz para o futuro, no presente. Eis a chave do aforismo de Horácio (seguindo Hipócrates) ars longa, uita breuis, ars como τεχνή, fundamentalmente. E isto só se dá melhor quando a produção não visa a obsolescência programada, isto só se dá, quando se produz de um modo não-capitalista (mesmo que dentro de um sistema formalmente capitalista). Quando se segue na via da excelência, o produtor alcança o status de Mestre de Ofício, equiparando-se em prestígios, nos tempos de nossos ancestrais, aos mais altos dos sacerdotes/intelectuais e dos guerreiros. Tanto que em algumas sociedades, uma nova “classe” se formava, da emancipação dos trabalhadores especializados, de sua diferenciação dos trabalhadores comuns e campesinos, de sua individuação da massa uniforme e anônima. Eis os Áes Dana, eis a origem dos Vaishyas. Eis a verdadeira emancipação pelo trabalho, para o horror da retórica marxista.

14. É importante sabermos sobre o mito e a áurea de santidade criada em torno do produtor e do povão em geral. O produtor é quem compõe a plebe, a massa, o povão. Como já apontamos noutros textos, inicialmente, era compreensível a visão do “bon sauvage” do Rousseau no camponês rústico e analfabeto como um contrapeso a afeminização da nobreza francesa. Mas a coisa perdeu o sentido e o Produtor foi transformado pelo idealismo socialista num ser perfeito, numa classe santa e sempre certa, incólume e sempre injustiçada, explorada e maltratada. De repente, o Produtor tornou-se a medida do que existe: sua necessidade é a necessidade, sua visão, a visão, sua queixa, a queixa. Como o Reino dos Céus é prometido ao “pobre” no Cristianismo, de repente, o Mundo é prometido ao “produtor”, com a diferença de que no Cristianismo, ao menos, o pobre é pecador por natureza, enquanto que o “produtor” não parece padecer de nenhum vício – se por acaso se contesta um, tem sempre origem noutra coisa que não nele (na burguesia, na alienação da superestrutura, na falta de oportunidades, etc.). Não, o Produtor possui também suas características nefastas (como o Sacerdote e o Guerreiro), não é um “santo” completamente isento de defeitos e responsabilidades, nem um condenado que precisa se redimir no Além. Não tomemos a visão religiosa alheia como nossa (mesmo quando ela se passa por pseudo-científica e ateísta), resgatemos a nossa própria.

15. É de espantar que nossas religiões tenham o público que atualmente possuem. É de espantar. Talvez de causar preocupação, mas também, talvez, de esperança. Devíamos estar ocupando os campos, mas não abandonando a polis por completo – criando fortalezas nestas, mas, mais ainda, criando raízes, respirando bem, repaganizando o pagus. É necessário ter ciência do movimento tático. Que estendamos os galhos por sobre o asfalto, mas que nutramo-nos na terra fértil e nas águas límpidas. As árvores que crescem sob a poluição e a fumaça tóxica, cada vez mais demonstram um deformação congênita (umas horas no Facebook o demonstram para qualquer um), uma espécie de atrofiamento, cada vez mais aspiram ser plástico, mero plástico ornamental. Por isto é que é importante certa seletividade, precisamos dos melhores, mais que nunca, para nos organizarmos conforme a natureza e para evitarmos a “plastificação”. Para que não nos seja retirado toda capacidade de reação, de mobilização, para que não nos tornemos um enfeite exótico e manso, inofensivo e morto, um animal empalhado.

16. Roguemos aos Poderosos, sacrifiquemos e libemos. Trabalhemos para (re-)erguer templos mais do que blogs, multipliquemos estátuas, mais que “curtidas”, cultivemos mais jardins e campos que memes engraçadinhos, voltemos também ao mundo concreto do Produtor.

O segundo maior erro da Nouvelle Droite – Guillaume Faye

Abaixo segue um pequeno trecho onde o filósofo e polemista (pagão, atualmente ligado ao movimento Terre et Peuple) francês Guillaume Faye fala sobre os erros do movimento político e cultural Nouvelle Droite do qual o próprio fez (e de certa forma, ainda faz) parte, no seu livro L’Archéofuturisme. Estou relendo este livro (pois é, estou dando-me o luxo de reler umas coisas) e achei por bem postar cá esta passagem. Farei uns pequenos comentários, que em nenhum momento visam esgotá-lo, pois, após o texto que serão marcados por números.

[N.T. o autor inicia a apresentação do que considera serem os maiores erros da Nouvelle Droite ao longo dos anos] (…) Segunda erro maior: a instrumentalização e a politização do paganismo. A partir de uma contestação justa, do tipo nietzscheana – a nocividade igualitária, homogenizante e etnomasoquísta do evangelismo cristão – a ND [N.T.: para “Nouvelle Droite”, doravante] construiu um corpus neopagão portador de muitos handicaps. Paradoxalmente, este neopaganismo partia de um ponto de vista cristão inconsciente: opor a um dogma uma contra-doutrina. “O” paganismo não existe; há “uns” paganismos potencialmente inumeráveis[1]. A Nouvelle Droite se apresentou implicitamente como uma “Igreja Pagã”, mas sem divindade. A natureza mesma do conceito pagão proíbe tomá-lo como bandeira metapolítica, como é possível de se fazer nas religiões judia, cristã e muçulmana.[2]

Segundo handicap: um anticatolicismo virulento (a indiferença haveria funcionado melhor), flertando umas vezes com o anticlericalismo, com uma simpatia aberta pelo Islã, atitude perigosa nestes tempos de ameaça islâmica objetiva contra a Europa e posição ideologicamente absurda, porque o Islã é um monoteísmo teocrático, rígido, uma pura “religião do deserto”, maior que o henoteísmo católico clássico, fortemente imerso no politeísmo pagão[3]. Além de que, a essência da visão pagã não é definir-se “contra”, mas “após” ou “junto a”, o que parece muito mais criador e inovador. Eu também pratiquei esta atitute errônea que, desgraçadamente, a ND nunca se corrigiu.

Terceiro handicap (que desenvolveremos um pouco mais para frente): este paganismo estava e parece sempre flanqueado por um folklorismo sem bases reais na cultura concreta dos Europeus (ao inverso dos Estados Unidos!), frente ao qual sempre enfrentei.[4]

Resultado: um público potencial que nunca se cercou da ND, outro que sumiu.[5] Por quê? Porque muita gente não entendeu o porquê desta sobrevalorização pública do paganismo, este privilégio ideológico que lhe estava concedido, que primava sobre outras questões muito mais importantes, de ordem concreta e política, como o é, por exemplo, a destruição da etno-esfera européia ou o masoquismo antinatalista dos governos. Outra consequência: a valorização do paganismo como imagem de marca pública tinha, sobretudo na França, um efeito midiático repulsivo. Dizer-se pagão publicamente é assimilável a “militar numa seita”, tal como me disse um dia um grande atriz francesa, próxima das ideias da ND, mas reticente, como muitos, a mistura de ideologia política com a temática para-religiosa. Podemos deplorá-lo, mas é assim: há regras de propaganda ineludíveis.[6]

E quanto aos ataques contra a Igreja católica, seria melhor dirigi-las ao quasitrotskismo, o imigracionismo e a auto-etnofobia do alto clero, adepto do retorno às fontes monoteístas evangélicas puras e duras, as do “bolchevismo da Antiguidade” [N.T.: expressão utilizada por Alain de Benoist para descrever o Cristianismo, sobretudo o dos primeiros séculos]. Alto, clero masoquista e imbecil, que alimenta oficialmente a criação de mesquitas em solo europeu![7]

Há dois livros que me marcaram para sempre: o Anticristo de Nietzsche e Os deuses da Grécia de Walter Otto. Assim como o “juramento de Delfos” iniciado por Pierre Vial no início dos anos oitenta. Ali, no santuário de Apolo, quando o Sol desponta, os herdeiros da Grécia e da Borgonha, da Toscana e da Baviera, da Bretanha e de Valônia, de Flandres e da Catalunha juraram preservar a alma pagã. Muito bem. Mas todos estes atos pagãos devem realizar-se na parte interna da ação.

A alma pagã é uma força interior que se expressa com toda uma expressão ideológica e cultural. É semelhante ao coração de uma central nuclear. Não tem que aparecer explicitamente sob a forma de bordões instrumentalizados. Não se deve dizer “sou pagão”. Se deve sê-lo.

Mais prosaicamente, creio que a insistência sobre o tema do paganismo como bandeira para-política criou uma confusão mental entre o público natural da Nouvelle Droite: como se desviasse a atenção sobre outras questões secundárias. E mais, esta insistência criou um conflito com os “católicos tradicionalistas”, realmente menos cristãos que os curas esquerdistas…[8]

A instrumentalização do paganismo foi um tremendo erro de comunicação e de propaganada. A ND privou-se de uns meios católicos favoráveis a suas ideias, mas efetivamente ligados a suas tradições de campanário. Grande torpeza cometida desde os seus inícios. Outra das coisas que devem ser corrigidas.[9]

[1] OK, mas isto não impede que se refira a delimitação religiosa-cultural específica, como a dos Indo-Europeus, que, apesar das diferenças, trazem em si um conjunto de práticas de origem comum, sendo todas “religiões irmãs”, muito mais inteligíveis entre si do que entre qualquer outras extra-indoeuropéias. No entanto, o ponto que o Faye aponta, ao que parece, é a falta de “precisão” – que paganismo? A religio romana, o hellenismos, ásatrú? Faltou “concretude”, ao que parece.

[2] Em se tratando das grandes religiões tradicionais indo-européias, faz sentido. Mas certos cultos específicos, pagãos, alcançaram patamares aparentados à via metapolítica, como o Pitagorismo, o Mitraísmo e mesmo o culto Odinista, em alguns casos “fechado” entre a elite guerreira, da Era Viking.

[3] Por mais que concorde com o essencial – de que o negativismo do “anti-” (-cristianismo, -catolicismo, -protestantismo, -islamismo, etc.) não é essencial, nem característico ao paganismo e que é um erro de juventude comum – creio que é um erro compreensível, e talvez, em alguns poucos casos, até necessário, dado o peso ainda hegemônico do Cristianismo e a necessidade de descristianizar-se radicalmente (no sentido de “até a raiz”).

[4] Isto não está bem claro, mas talvez seja traduzido por “academicismo” e demasiado “elitismo” (no sentido de estar circunscrito a um grupo fechado e pequeníssimo de pessoas), impossibilitando o crescimento orgânico e o enraizamento real na produção cultural (seja nas subculturas juvenis, arte pop, etc.) e/ou a repaganização do folclorismo ainda vivo. Eis a importância de um paganismo que possibilite fundir-se com o regionalismo identitário e cultural, restaurando a integralidade de mundivisão desde cima.

[5] A preocupação com a eficácia da “propaganda” da ND, em vistas de suas aspirações políticas e culturais, sobretudo as políticas – um dos grandes motivos para os apontamentos do sr. Faye, como fica claro no texto – é quase inexistente dentro de uma ótica não-proselitista (como é a pagã). Se o grande erro da ND foi de marketing, então isto não foi lá um grande erro, pelo menos não sob a perspectiva estritamente religiosa. No entanto, há algo de mais profundo nesta questão – e que já tocamos cá – trata-se da expansão, do crescimento (não só qualitativo, mas também quantitativo) do paganismo, de sua expansão religiosa. Como se dará? Como resolver e elaborar atratividades não posélitas? Como não fazer proselitismo? É uma questão aberta e que vez ou outra aparece, por exemplo, na blogosfera pagã anglófona (majoritariamente comprometida com o politicamente correto e com os valores liberais norte-americanos). Podemos cuidar apenas da qualidade e esperar que esta, por si só e com o passar dos anos, reluza e frutifique, traduzindo os frutos e a luz, digamos, em uma expansão numérica, tímida e constante. O grande risco é termos tal cuidado interrompido violentamente por algum interesse religioso totalitário, risco real cá (sim, me refiro a “evanjas”) e na Europa (onde a expansão islâmica já dá sinais bem claros); uma maneira de evitar tal risco é, justamente, tendo um número mais significativo (o que por sua vez, supõe-se, permitirá mais disposição para o combate), e aqui novamente se cai na questão da expansão qualitativa aliada/conjunta a uma forma de expansão quantitativa.

[6] Isto não me parece um empecilho de todo, essencial e perene, antes, um empecilho contingente, fruto, justamente, da hegemonia cristã-esquerdizante (de uma elite majoritária ateizante de um lado, que se ri do paganismo como uma espécie de “ridícula extravagância plebéia de fantasias New Age”, e de uma pequeno resquício de elite beata, que por definição, está interessada em combater tal “perigo” assegurando sua “posição” e suposta legitimidade). Reconhecer que ela existe é uma coisa, não combatê-la é outra. OK, sob a perspectiva do combate (a “propaganda” serve a este propósito, pois), nem toda estratégia é boa, além de que há táticas que podem gerar recuos, ao invés de avanços. Se for neste sentido que o sr. Faye fala, então o fala razoavelmente. Se for por “derrotismo” ou crença na imutabilidade da opinião médio-burguesa ou das elites que “fabricam” a opinião pública, então não me parece falar razoavelmente.

[7] No nosso contexto, o apontamento é útil para levar a percepção de que uma coisa é Catolicismo Popular, repositório repleto de substratos pagãos e braço próximo e “familiar” para nós, outra coisa é o Catolicismo do Alto Clero. Interessante é notar que o Catolicismo do Alto Clero, justamente, flerta com as demandas da Teologia da Libertação e fez o Concílio do Vaticano II, é o clero “progressista”, mais aceito e elogiado pela intelligentsia de esquerda/humanista (talvez, por estes descenderem daqueles). Por outro lado, esperar dos Católicos Tradicionalistas, que tendem a valorizar um pouco mais as tradições populares (ou seja, as heranças pagãs), que demonstrem filopaganismo é demais. Por mais que muitos deles saibam que são devedores de pagãos como Platão e Aristóteles, acreditam no próprio discurso de que sua teologia é uma superação (para nós não é) e que o paganismo deve ser combatido, no final das contas, por mais que se tenha de tolerar os “desvios” das pessoas comuns. Só um católico tradicionalista e perenialista (no sentido schuoniano, não no sentido tomista) pode tolerar pagãos de modo mais tranquilo. E caso os católicos perenialistas ficassem mais comuns, os tradicionalistas seriam os primeiros (bem antes dos progressistas) a denunciá-los como heréticos… Logo, focar as críticas no Alto Clero, por mais que “agrade”, eventualmente, setores mais tradicionalistas do Catolicismo, não tornará o paganismo mais aceito por estes; pode, talvez, fazer com que um ou outro sujeito se torne herético ou se converta a alguma fé pagã, mas creio que é algo muito difícil.

[8] O que falei no ponto [7] basicamente cabe aqui. Fazer as coisas buscando “agradar” o beatame, passar-se por “bom moço” e “cordeirinho manso”, é esperar demais. Não precisamos, absolutamente, da aprovação dos cultores do judeu morto. Se se trata de utilizar táticas que preservem de modo mais confortável alianças temporárias, vá lá. Se se trata apenas do medinho de desagradar, paciência…

[9] A instrumentalização do paganismo (se de fato foi isso, e não a tentativa de produção de linhas políticas e culturais pagãs, como as outras religiões fazem, produzem linhas políticas e culturais religiosas) é um erro em si, não um erro apenas por que diminuiu o potencial de marketing ante as audiências cristãs. Mesmo que tal instrumentalização houvesse surtido efeitos positivos, ainda sim, seria um erro. O Guerreiro pode até elevar-se ao Sacerdote. Mas sua usurpação definitiva é um sacrilégio em sentido estrito, o qual a História testemunha só resultados nefastos.

Arquia, anarquia e pensamentos

Saudações.

Vai e volta, encontro-me com o termo “anarquismo”, utilizado por gente de extrema (esquerda ou direita), capitalistas burguesinhos, gente de classe média “nerd” ou gente de classe média típico bicho-grilho-hippóide-de-Humanas, nacionalistas (sim, há o nacional-anarquismo) etc. É um termo bem presente. Mas, ao meu entender, em certos usos, é um termo falho. Escrevo esta postagem visando demonstrar o motivo.

Basicamente, minha implicação é de ordem etimológica.

Etimologicamente, anarquia é um termo que aponta para “desordem”, é “falta de princípio diretor, governo, comando”. Este “-arquia” é a mesma “arkhē” dos filósofos Pré-Socráticos. E isto deveria ser o suficiente para invocar o peso (ontológico) da noção “-arquia”. Eles, como todos os povos tradicionais de que se tem notícia, acreditavam na existência de um princípio ordenador do que existe. No pensamento religioso, tal princípio é sagrado (em grego “hieros”), sendo ele próprio, a ordem natural das coisas, a ‘hierarquia’ (“hieros”+“arkhē”). Este princípio, tanto para os Pré-Socráticos (cuja inovação fora iniciar a investigação racional e dessacralizada deste princípio ou conjunto de princípios) como para os religiosos, é pré-existente (ante rem), ou no mínimo, ontologicamente congênere com as coisas (in re). Há uma hierarquia no mundo, na natureza das coisas, seja ela característica inseparável do que é (in re) ou de origem divina e premeditada (ante rem), simples assim. Estamos nos referindo a uma crença profunda, e até onde sei, presente em todos os povos, ao menos no mundo antigo. Dependendo dos povos e culturas, tal percepção da hierarquia natural é estendida, com maior ou menor grau, a organização política e sócio-econômica da sociedade.

Podemos postular, sem agravo, que o pensamento tradicional é caracteristicamente ligado a tal percepção de uma ordem configuradora do ser. Podemos também estender filosoficamente tal noção aproveitando os conceitos desenvolvidos para a questão dos universais e aplicando-os cá. Neste caso, teremos os crentes na existência de uma hierarquia prévia (ante rem) ao que é, estabelecida teogônicamente, no que é (in re – idéia próxima da Pitagórica de que há uma ordem diretora matematizável na estrutura do próprio universo; pressuposto parecido foi assumido pela Ciência Moderna desde de Galileo e ainda rende frutos na matematização da Física e nas tentativas de síntese do tipo Teoria Geral) e os crentes numa hierarquia posterior as coisas (post rem), seja pela argumentação de que nosso aparelho gnosio-sensorial organiza/hierarquiza as nossas percepções e representações em nossa mente por sua própria natureza (similarmente as categorias a priori de Kant e o modelo epistemológico deste) ou pela própria linguagem que utilizamos para pensar e descrever o que existe postular uma hierarquia, uma organização diretora (ou seja, por existir na linguagem – seria a postura mais próxima do Nominalismo, digamos).

Claro que ao longo da história, a percepção da hierarquia, sagrada, efetivou-se também como uma “disarquia”, perdendo o caráter sacro, instrumentalizando-se como injustiça e desregramento no mando político de sociedades. Quando o princípio diretor e governante perde sua orientação transcendente, a coisa desanda, deixamos de ter uma hierarquia, em seu sentido próprio, e passamos a ter uma caricatura, muitas vezes prejudicial, uma ‘disarquia‘. Ou seja, o problema não é ter os melhores no topo, o problema é quando “os melhores” não são Os Melhores. Esta é a real injustiça social (qualquer um que leu a República de Platão bem lida, deve ter compreendido esta lição tradicional). Isto é o que havia de real quando um Rousseau da vida, zombou de um gordo e afeminado Luís XIV, em contraposição ao camponês rude e viril; mas com o Roussseau, a coisa não parou por aí, ele acreditava que o problema era a própria noção da desigualdade natural, e da “hierarquia”, não se tratava de não ter Os Melhores no topo, mas sim de não haver ‘melhores’! Ou seja, jogou-se o bebê junto com a água, e de lá pra cá, muito anarquista (o francês Proudhon que o fale, lembrando que este terminou por influenciar o russo Bakunin) segue esta rota irrefletidamente.

Há quem ache que tal ideia “encantadora” – de “não haver melhores”, serem todos iguais, o Igualitarismo aí pressuposto – ganhou corpo e se disseminou com o Cristianismo (Nietzsche, Evola, Alain de Benoist, Faye, etc.), como é bem sabido.

Uma vez que não há melhores, nem superiores, o Sujeito moderno, Liberal, torna-se autônomo no sentido etimológico do termo (“aquele que rege a/legisla para si próprio”), daí, passar a ver todo poder externo a si (o Estado, especialmente após o trauma “absolutista-hobbesiano”) como opressor é um pulo. Ou seja, partindo do Igualitarismo e do Modernismo (do Sujeito Moderno) é fácil chegar (se é que não é uma consequência lógica!) ao anti-Estatismo, o tal Anarquismo – seja pela Esquerda (classicamente, pela via sindical-socialista até o trotskismo), seja pela Direita (pela intensificação e máxima potencialização do liberalismo, no Libertarianismo/Anarco-capitalismo). Ambas as visões não enxergam um princípio ordenador prévio (ou congênere) para a existência, não conhecem a ideia hierárquica em seu sentido originário, ao contrário, denunciam tal discurso como religioso, reacionário, alienante e opressor e assimilam, instantaneamente, o termo “hierarquia” à injustiça e usurpação. Ambas visam a horizontalização igualitário-materialista, o Paraíso messiânico terreno, seja pela redistribuição direta de riqueza (Esquerda), seja criação de mecanismos que permitam o igual acesso ao consumo (Direita). Por mais que as ideologias elaborem conceitos-chave que não possuem qualquer validade científica e sirvam como depositários da fé de seus crentes (sendo análogos aos mitos e aos conceitos religiosos), como a “Mão Invisível da Economia” ou a “Luta de Classes”, suas pretensões de superioridade à religião e pseudo-cientificismo (pelo menos no caso do Marxismo), terminam por encantar a intelligentsia ávida do status da superioridade intelectual.

Antes que algum gaiato venha cá dizer (por proselitismo ou por real “comoção” e desejo por “iluminar esta mente escura”) que entendi tudo errado, informo que estou bem ciente dos usos do termo no final do século XIX e começo do XX. Conheço algo do Proudhon, algo do Bakunin, algo do Trotsky, do Marx (o fim messiânico de sua promessa teórica, o tal do comunismo real, o “anarquismo feliz”) e mesmo de gente que é utilizada, especialmente pela anglofonia, como “ancestral” do Libertarianismo e do Anarco-capitalismo, como Thoreau. Compreendo quando se fala de “gestão orgânica”, “governo espontâneo”, “livre associação comunitária”, “voluntarismo” e tantos outros conceitos para expressarem a alternativa a um Estado (termo latino, usado já na época de Cícero), o Estado Moderno, Hobbesiano, Westfaliano; e mesmo concordo que a ideia de “livre aceitação” de uma forma de governo ou manifestação hierárquica é, fundamentalmente, uma boa idéia. Compreendo até a mitologia dicotômica do Estado=Mal x Não-Estado/Anarquia=Bem, etc. E o pior, até venho lendo com certa constância algo do anarco-primitivismo, anarco-nacionalismo e outras variantes. O que estou dizendo é que não concordo com o uso do termo “anarquia”, principalmente quando ele denota a existência ainda de alguma “arquia”, mesmo que não seja a do Estado Moderno Hobbesiano. O que estou dizendo é que não vejo nenhuma razão para resumir biunivocamente “arquia” a Estado Moderno Hobbesiano/Westfaliano/Burguês. Ou seja, o fato de não haver o Estado Moderno não quer dizer que haja “anarquia”. Simples assim.

E por isto fala besteira ou simplesmente atesta sua idiotice (ou má-fé, do mesmo modo que os marxistas que falam na baboseira mentirosa de “comunismo primitivo” ou os seus ancestrais ideológicos que falavam em “cristianismo antes de Cristo” – ou toda e qualquer prática fraudulenta de alteração e revisão do passado sob orientação ideológica do presente, por mais que não seja por “má fé”, que se admita ao menos que é por motivos estratégicos e de “propaganda”) quem fala em reinos medievais “anárquicos” ou tribos celtas e germânicas “anárquicas”, etc. Não importa quão disseminado esteja, nem quantos seguidores tenha ou quantas entradas na Wikipédia disponha.

E mais, creio que para um religioso que adere a uma religião antiga ou de inspiração/restauração destas (como é o caso dos Neopagãos), digo que ele adere também a uma visão que estipula, tradicional e necessariamente, “hierarquia” (em seu sentido etimológico e ontológico) e que por isso mesmo não pode simplesmente abrir a boca em favor de “anarquismo” (no sentido etimológico que abordei acima) sem que se contrarie. As crenças na existência de alguma forma de “arquia” (ante rem, in re, post rem, nominalisticamente, etc.) e na sua ausência (“anarquia”) são mutuamente excludentes. Como disse, me refiro a alguns usos específicos (especialmente aos usos de origem religiosa não-cristã, pois dentro do cristianismo primitivo parece ter havido uma brecha que os anabatistas revisitaram) e exponho cá os motivos. Tal exposição não visa ser o início de uma cruzada contra o termo, mas antes chamar atenção para sua dimensão etimológica e as possibilidades de nos reapropriamos dela de um modo que me parece menos problemático. Aos camaradas pagãos e correligionários, recomendo que utilizem simplesmente “tribalismo” ou “primitivismo” ou algo do tipo.