19 de Março

Saudações.

Noite do 19 de Março. Esta data é uma ilustração da sobrevivência e do caráter imorredouro do que o beatame chamará de “paganismo”. É um símbolo de Tradição que persiste, modificada no Tempo e no Espaço; uma prova do Paganismo Inconquistável (“a religião impossível de ser derrotada” segundo Guillaume Faye). Pelo Nordeste se celebra, sob o verniz católico, um dia augural para o Inverno e tudo o que este representa para o Sertanejo: fartura, colheita, trabalho na terra, etc. A associação popular com o tal São José é esporádica: nada há na mitologia bíblica neste personagem que o associe a Chuvas, Fartura e Lavouras. NADA. A associação como “padroeiro dos trabalhadores”, em sentido estrito, caberia muito mais aos trabalhadores de ofício manual especializado, artífices (carpinteiros, artesãos, etc.). Nada o liga à Chuva/Metereologia nem a fertilidade das colheitas vindouras. Então, como se explicaria tal fenômeno?

A percepção augural do tempo.

Que há certos dias que concentram em si o prenúncio de estações inteiras é uma concepção bem viva entre os povos célticos, como os registros e o folclore medieval facilmente atestam, seja nas ilhas britânicas, na Bretanha francesa ou nas zonas nortenhas de Portugal e Espanha. Claro, isto não é uma percepção unicamente dos Celtas, é algo comum entre os demais povos Indo-Europeus e mesmo entre os demais povos antigos/tribais/integrados com a Natureza. Tal percepção ainda viva no imaginário popular dos Nordestinos, herdeiros de eventuais raízes célticas via Galego-Portugalidade, percebeu no fluxo natural local tal marco. Esta associação não existiu na Europa, não veio de lá simplesmente. Somente uma percepção sedimentada e integrada na Bio-região cá, geração após geração, pôde identificar tal padrão imanente de uma indicação transcendente e pô-lo na prova do Tempo. Confirmou-se que, em boa parte das Bio-regiões nordestinas, a Véspera do Equinócio de Outono augura o Inverno. Por “coincidência”, tal Véspera caiu no dia que o calendário católico arbitrariamente destinou ao tal Santo. Uma percepção ancestral, “pagã”, manifesta em um símbolo cristão que aí estava, inócuo até então; o vitalismo pagão fez brilhar uma data cristã apagada. Algo novo surgiu, uma novidade antiga – entrelaçada ao Imanente.

As cerimônias da data.

Até o modus operandi do “agradecimento” ao Santo remonta às raízes pré-cristãs mais óbvias e indeléveis, depositadas profundamente no imaginário de nosso povo. A fogueira sacrificial, a procissão com o Ídolo e homenagem, as oferendas de adornos, flores, hinos e preces. A adivinhação do Inverno se soma ao rito de oferenda primicial, de propiciação agrária às futuras Colheitas. Inicia-se o ciclo do Milho – este nobre grão nativo, divinizado pela sabedoria indígena – inicia-se o tempo até o Solstício de Junho (até o São João, dirá o vulgo). Este é um dos casos em que o Cristianismo Popular mostra-se valioso e um veículo que, mesmo possuindo suas limitações, manifesta Luzes Perenes.

E nós, o que fazemos?

Repaganizamos, incorporamos esta manifestação autêntica em nossos calendários litúrgicos nordestinos. Não cabe aqui iniciar uma “cruzada” para esfregar na cara de católicos o paganismo manifesto da data, não se trata de buscar contraria-los em sua fé, ou de demonstrar arcaísmos e “impurezas” doutrinárias a quem tanto se diz puro e “evoluído” (é de notar que certos sujeitos, especialmente alguns neo-ateus e neo-pagãos adolescentes, se satisfazem com tais coisas, no fundo, regojizando-se inconscientemente por serem mais cristãos/”angelicais” e puritanos que os próprios cristãos!). Nada disto. Deixemo-los felizes lá, rogando ao Santo deles. Respeitemos esta manifestação, por mais que para nós ela nos pertença mais. Roguemos nós aos nossos deuses da Agricultura e/ou das Chuvas e estejamos cientes que nosso Nordeste contém tesouros, alguns escondidos, outros nem tanto.

Visões sobre o caminho do produtor

A obviedade da necessidade de produtores é tão gritante (pelo menos para quem vive e labuta para realizar projetos no mundo real) que não há muito a falar. Neste sentido, reunimos uns pensamentos curtos e simples que expressam algumas das ideias que acredito serem expostas para um número maior de pessoas e compartilhadas. São pensamentos e devem ser encarados como tal.

1. Se é vital ao paganismo contemporâneo o ressurgimento da classe guerreira, se pode falar ainda mais da classe produtiva. A base, o alicerce, a pedra grave e plana. O bloco rígido e rústico, massa volumosa e potente, construtora de impérios e exércitos, do que é grandioso e imponente, que manifesta a vontade de um povo, que constrói o destruído de novo e suporta uma ordem vigente. Precisamos de produtores: produtores de verdade.

2. Não tenhais por produtores de verdade meia-dúzia de “hippies”, que erradamente alguém relacionará como expoentes da nossa classe produtiva. Não. No passado como hoje, o produtor é o camponês, o trabalhador manual pesado (no nível mais baixo), o pequeno comerciante (no nível médio), artesãos, mestres de ofício, técnicos e talvez mesmo, músicos, artistas e poetas de baixo nível (no nível mais alto). São produtores, a classe prestadora de serviços, a classe industrial e a exploração dos recursos primários. Talvez mesmo, seja produtora a “elite” de engenheiros e “homens de negócios”, que nossa sociedade vê como equivalentes a sacerdotes e a intelectuais, os superando, muitas vezes, em prestígio. É necessário compreender que o grande empresário, suposto membro da elite, não é de “elite”, no sentido tradicional, mas o é somente no sentido “burguês”, ou seja da “elite econômica”. Ele é parte da classe produtiva, uma parte alienada pelo sonho e pela fantasia da “burguesia” e que se pensa diferente, ontologicamente, dos seus empregados.

3. É necessário iniciar a desocupação do mundo do trabalho, colonizado pelo Comunismo. É necessário ver, de modo sincero, sem preconceitos, as alternativas (Der Arbeiter de Ernst Jünger), é necessário também considerar e ver os substratos que o Marxismo trouxe consigo e que são valiosos. O paganismo necessita de uma teoria própria do trabalho, para agora, uma que parta da visão tradicional do trabalho e da reflexão filosófica desta (Política de Aristóteles, Íon de Platão, etc.) e transpasse o materialismo modernista (liberal e comunista) dos sindicatos e do mundo consumista. É necessário compreender novamente a lição ancestral de que o fim do Toque de Midas (o Capital Apátrida que tudo em que toca transforma em ouro, em mercadoria, desprovendo de espiritualidade, vida e valor transcendente) só se dará pelo retorno ao Sagrado, e não pela sua extirpação completa (como querem os Comunistas e como alguns Anarquistas, mesmo que não saibam, terminam trabalhando para).

4. Voltemos e olhemos para o nosso “passado”: as corporações de ofícios, as guildas, os arranjos e soluções do campo e da cidade. Lembremos, uma vez mais, que a grande virtude do Produtor é a temperança. O que o guerreiro tem na guerra o produtor tem no trabalho; esta é a sua guerra, este é o campo para que suas virtudes floresçam, sua via de ascese, para que se ilumine.

5. Nisto, na denúncia da eventual perversidade e alheiamento do mundo produtivo moderno e de como este é controlado por uma elite financeira que subjuga o mundo, há algo de valor nos socialistas que deve ser compreendido. Efetivamente, são os sujeitos que mais trabalharam para compreender os efeitos nocivos da economia moderna – o seus diagnósticos são valiosos, mas a receita dos remédios comunistas se mostraram aplicações de um veneno mortal. Talvez por erros de compreensão de como o capitalismo funciona, segundo advogam alguns (Ludwig von Mises e a Escola Austríaca), talvez pela sedução do messianismo utópico do “Reino dos Céus na Terra”, ou seja, por um erro de finalidade (que por sua vez, determina os meios, ao menos entre a Esquerda, vd. Moral e Revolução de Trotsky).

6. É necessário também, não cair na trama fácil do bode expiatório – antes os judeus, hoje os grandes magnatas como George Soros – pois, por mais que caibam em certas posições (e de fato, sejam responsáveis em alguns casos), não se pode subestimar a auri sacra fames, veneno que pode, a princípio, em menor ou maior grau, infectar qualquer sujeito em qualquer classe e de qualquer origem.

7. Precisamos, antes, de construtores, pedreiros, engenheiros. Precisamos retornar à construção de templos, altares, à transformação da ideia em matéria, matéria que condensa a força vital. Já há gente de bijouterias e hippies de artesanato medíocre, não é lá disso que precisamos. Precisamos de mestres, artesãos que produzam obras para a eternidade, imortalizem-se e elevem-se ao divino pela suas obras.

8. A ideia de uma comunidade religiosa autônoma necessita de produtores, fundamentalmente. Precisamos de uma comida plantada e colhida sob a égide de nossos deuses, de carne consagrada a eles, de casas e espaços construídos que reflitam nossas visões e compreensões, vestes, bebidas, instrumentos, utensílios, cultura material. Eis uma necessidade que torna um pedreiro pagão, hoje, mesmo que medíocre, mais útil que 10 blogueiros medíocres que repetem a ladainha do mais do mesmo.

9. Há muitas saídas interessantes hoje que, de certa forma, realizam os apontamentos, digamos, arqueofuturistas. Há muita coisa boa e aproveitável, seja entre as diversas profissões técnicas, seja na tecnologia que dispomos, seja nas técnicas e conhecimentos de permacultores, etc. Informação, há. Não é o que falta.

10. Muitos dos que se aproximam das nossas religiões talvez não disponham de uma natureza majoritariamente produtiva. Talvez, nestes anos, atraiamos mais sacerdotes/intelectuais, poucos guerreiros e poucos produtores – afinal, restaurações, tradicionalmente, começam de cima, formando uma “vanguarda”. Mas talvez não seja só isto – talvez haja muita gente confusa sobre sua real natureza, alienada de si mesmo, pela distância de uma vida saudável junto à Natureza, pela intoxicação ultramoderna das grandes cidades, pela fantasia da vida médio-burguesa e do comodismo santificado, o comodismo do consumo e da satisfação instantânea dos apetites. Talvez. Só quando se sai da caricatura, do faz de conta onde tudo se compra e rápido se faz, e se mergulha no real, onde nem tudo tem preço e onde o tempo requer disciplina inquebrantável, é que possamos saber bem as reais causas. Precisamos que se forme o contexto que liberte os sacerdotes – desobrigue-os de terem de exercer as artes produtivas e combativas, por carecerem os produtores e os combatentes. Precisamos que os produtores assumam sua produtividade, reconheçam que não são nem guerreiros, nem sacerdotes, ou melhor; reconheçam (pois se trata da natureza predominante) que são melhor produtores, que guerreiros ou sacerdotes.

11. Muitos povos conceberam que certos deuses presidem as atividades produtivas ou partes delas. É mister e essencial religá-los à concepção do trabalho em sua plenitude. Sem isto, repetir-se-á a ladainha profana da substituição dos poderes transcendentes pela “deificação” materialista do Consumo, do Mercado, Salário, da Marca. Não. Adoremos uma vez mais os deuses ligados à produção e ao comércio justo, direcionemos nossas mentes uma vez mais para o luminoso, retomemos a mística divina da transformação da matéria bruta em um arte, da verdadeira magia, da dimensão sagrada da produção, do “Segredo do Aço”. Não caiamos na ilusão do simulacro vazio, do ídolo oco, produto da mente semita. Não, reconsagremos a foice, o martelo, como a espada e o pergaminho! Uma vez mais, tenhamos as imagens de nossos deuses cunhadas em nossas moedas.

12. E nesta tarefa compreendei que o comunista (e suas variantes, incluindo os trotskistas e outras matizes de anarquistas) não estará conosco. O capitalista radical também não. Se vivemos, de fato, numa era onde o Trabalhador governa, é crucial estarmos cientes que tais saídas (que não são meramente políticas, mas constituem visões de mundo em si) não são decorrências naturais das visões dos nossos antepassados, mas algo diverso, derivado pela introdução de algo alógena. É dever do intelectual pagão esclarecer em que consiste o Trabalho no mundo pagão, o que consistiu no mundo católico (que teve lá suas simbioses com o pagão) e o que consistiu a partir da Reforma Protestante (Max Weber). Sem isto, o produtor corre o risco de ser esvaziado por dentro, corroído pelo materialismo radical (que se disfarça com desculpas a cada instante), do “tudo é dinheiro”, no final, “dinheiro é o que importa”, “ser um vencedor” nos moldes hollywoodianos do homem de negócios bem sucedido que despreza arrogantemente, e triunfantemente (num orgulho iconoclasta e profunda hybris), tudo o que não lhe rende dinheiro. Estes, enganam melhor por, supostamente, ainda preservarem um ethos de competição e suposto mérito, de concorrência e “guerra”, mas não. Não. Esta não é a deificação do produtor, sua exaltação não consiste nisto e não há moralismo escondido nesta atestação. Não nos iludamos pela propaganda dos idiotas úteis, seja do Grande Capital, seja do grande Embuste Comunista.

13. A exaltação do produtor se dá pelo exercício de sua virtude e pela perícia/excelência em seu ofício. Sem moralismos. Eis o que imortalizou Fídias, eis o que imortalizou Kalashnikov. Eis o que deve-se mirar: a obra, a posteridade – faz para o futuro, no presente. Eis a chave do aforismo de Horácio (seguindo Hipócrates) ars longa, uita breuis, ars como τεχνή, fundamentalmente. E isto só se dá melhor quando a produção não visa a obsolescência programada, isto só se dá, quando se produz de um modo não-capitalista (mesmo que dentro de um sistema formalmente capitalista). Quando se segue na via da excelência, o produtor alcança o status de Mestre de Ofício, equiparando-se em prestígios, nos tempos de nossos ancestrais, aos mais altos dos sacerdotes/intelectuais e dos guerreiros. Tanto que em algumas sociedades, uma nova “classe” se formava, da emancipação dos trabalhadores especializados, de sua diferenciação dos trabalhadores comuns e campesinos, de sua individuação da massa uniforme e anônima. Eis os Áes Dana, eis a origem dos Vaishyas. Eis a verdadeira emancipação pelo trabalho, para o horror da retórica marxista.

14. É importante sabermos sobre o mito e a áurea de santidade criada em torno do produtor e do povão em geral. O produtor é quem compõe a plebe, a massa, o povão. Como já apontamos noutros textos, inicialmente, era compreensível a visão do “bon sauvage” do Rousseau no camponês rústico e analfabeto como um contrapeso a afeminização da nobreza francesa. Mas a coisa perdeu o sentido e o Produtor foi transformado pelo idealismo socialista num ser perfeito, numa classe santa e sempre certa, incólume e sempre injustiçada, explorada e maltratada. De repente, o Produtor tornou-se a medida do que existe: sua necessidade é a necessidade, sua visão, a visão, sua queixa, a queixa. Como o Reino dos Céus é prometido ao “pobre” no Cristianismo, de repente, o Mundo é prometido ao “produtor”, com a diferença de que no Cristianismo, ao menos, o pobre é pecador por natureza, enquanto que o “produtor” não parece padecer de nenhum vício – se por acaso se contesta um, tem sempre origem noutra coisa que não nele (na burguesia, na alienação da superestrutura, na falta de oportunidades, etc.). Não, o Produtor possui também suas características nefastas (como o Sacerdote e o Guerreiro), não é um “santo” completamente isento de defeitos e responsabilidades, nem um condenado que precisa se redimir no Além. Não tomemos a visão religiosa alheia como nossa (mesmo quando ela se passa por pseudo-científica e ateísta), resgatemos a nossa própria.

15. É de espantar que nossas religiões tenham o público que atualmente possuem. É de espantar. Talvez de causar preocupação, mas também, talvez, de esperança. Devíamos estar ocupando os campos, mas não abandonando a polis por completo – criando fortalezas nestas, mas, mais ainda, criando raízes, respirando bem, repaganizando o pagus. É necessário ter ciência do movimento tático. Que estendamos os galhos por sobre o asfalto, mas que nutramo-nos na terra fértil e nas águas límpidas. As árvores que crescem sob a poluição e a fumaça tóxica, cada vez mais demonstram um deformação congênita (umas horas no Facebook o demonstram para qualquer um), uma espécie de atrofiamento, cada vez mais aspiram ser plástico, mero plástico ornamental. Por isto é que é importante certa seletividade, precisamos dos melhores, mais que nunca, para nos organizarmos conforme a natureza e para evitarmos a “plastificação”. Para que não nos seja retirado toda capacidade de reação, de mobilização, para que não nos tornemos um enfeite exótico e manso, inofensivo e morto, um animal empalhado.

16. Roguemos aos Poderosos, sacrifiquemos e libemos. Trabalhemos para (re-)erguer templos mais do que blogs, multipliquemos estátuas, mais que “curtidas”, cultivemos mais jardins e campos que memes engraçadinhos, voltemos também ao mundo concreto do Produtor.

O segundo maior erro da Nouvelle Droite – Guillaume Faye

Abaixo segue um pequeno trecho onde o filósofo e polemista (pagão, atualmente ligado ao movimento Terre et Peuple) francês Guillaume Faye fala sobre os erros do movimento político e cultural Nouvelle Droite do qual o próprio fez (e de certa forma, ainda faz) parte, no seu livro L’Archéofuturisme. Estou relendo este livro (pois é, estou dando-me o luxo de reler umas coisas) e achei por bem postar cá esta passagem. Farei uns pequenos comentários, que em nenhum momento visam esgotá-lo, pois, após o texto que serão marcados por números.

[N.T. o autor inicia a apresentação do que considera serem os maiores erros da Nouvelle Droite ao longo dos anos] (…) Segunda erro maior: a instrumentalização e a politização do paganismo. A partir de uma contestação justa, do tipo nietzscheana – a nocividade igualitária, homogenizante e etnomasoquísta do evangelismo cristão – a ND [N.T.: para “Nouvelle Droite”, doravante] construiu um corpus neopagão portador de muitos handicaps. Paradoxalmente, este neopaganismo partia de um ponto de vista cristão inconsciente: opor a um dogma uma contra-doutrina. “O” paganismo não existe; há “uns” paganismos potencialmente inumeráveis[1]. A Nouvelle Droite se apresentou implicitamente como uma “Igreja Pagã”, mas sem divindade. A natureza mesma do conceito pagão proíbe tomá-lo como bandeira metapolítica, como é possível de se fazer nas religiões judia, cristã e muçulmana.[2]

Segundo handicap: um anticatolicismo virulento (a indiferença haveria funcionado melhor), flertando umas vezes com o anticlericalismo, com uma simpatia aberta pelo Islã, atitude perigosa nestes tempos de ameaça islâmica objetiva contra a Europa e posição ideologicamente absurda, porque o Islã é um monoteísmo teocrático, rígido, uma pura “religião do deserto”, maior que o henoteísmo católico clássico, fortemente imerso no politeísmo pagão[3]. Além de que, a essência da visão pagã não é definir-se “contra”, mas “após” ou “junto a”, o que parece muito mais criador e inovador. Eu também pratiquei esta atitute errônea que, desgraçadamente, a ND nunca se corrigiu.

Terceiro handicap (que desenvolveremos um pouco mais para frente): este paganismo estava e parece sempre flanqueado por um folklorismo sem bases reais na cultura concreta dos Europeus (ao inverso dos Estados Unidos!), frente ao qual sempre enfrentei.[4]

Resultado: um público potencial que nunca se cercou da ND, outro que sumiu.[5] Por quê? Porque muita gente não entendeu o porquê desta sobrevalorização pública do paganismo, este privilégio ideológico que lhe estava concedido, que primava sobre outras questões muito mais importantes, de ordem concreta e política, como o é, por exemplo, a destruição da etno-esfera européia ou o masoquismo antinatalista dos governos. Outra consequência: a valorização do paganismo como imagem de marca pública tinha, sobretudo na França, um efeito midiático repulsivo. Dizer-se pagão publicamente é assimilável a “militar numa seita”, tal como me disse um dia um grande atriz francesa, próxima das ideias da ND, mas reticente, como muitos, a mistura de ideologia política com a temática para-religiosa. Podemos deplorá-lo, mas é assim: há regras de propaganda ineludíveis.[6]

E quanto aos ataques contra a Igreja católica, seria melhor dirigi-las ao quasitrotskismo, o imigracionismo e a auto-etnofobia do alto clero, adepto do retorno às fontes monoteístas evangélicas puras e duras, as do “bolchevismo da Antiguidade” [N.T.: expressão utilizada por Alain de Benoist para descrever o Cristianismo, sobretudo o dos primeiros séculos]. Alto, clero masoquista e imbecil, que alimenta oficialmente a criação de mesquitas em solo europeu![7]

Há dois livros que me marcaram para sempre: o Anticristo de Nietzsche e Os deuses da Grécia de Walter Otto. Assim como o “juramento de Delfos” iniciado por Pierre Vial no início dos anos oitenta. Ali, no santuário de Apolo, quando o Sol desponta, os herdeiros da Grécia e da Borgonha, da Toscana e da Baviera, da Bretanha e de Valônia, de Flandres e da Catalunha juraram preservar a alma pagã. Muito bem. Mas todos estes atos pagãos devem realizar-se na parte interna da ação.

A alma pagã é uma força interior que se expressa com toda uma expressão ideológica e cultural. É semelhante ao coração de uma central nuclear. Não tem que aparecer explicitamente sob a forma de bordões instrumentalizados. Não se deve dizer “sou pagão”. Se deve sê-lo.

Mais prosaicamente, creio que a insistência sobre o tema do paganismo como bandeira para-política criou uma confusão mental entre o público natural da Nouvelle Droite: como se desviasse a atenção sobre outras questões secundárias. E mais, esta insistência criou um conflito com os “católicos tradicionalistas”, realmente menos cristãos que os curas esquerdistas…[8]

A instrumentalização do paganismo foi um tremendo erro de comunicação e de propaganada. A ND privou-se de uns meios católicos favoráveis a suas ideias, mas efetivamente ligados a suas tradições de campanário. Grande torpeza cometida desde os seus inícios. Outra das coisas que devem ser corrigidas.[9]

[1] OK, mas isto não impede que se refira a delimitação religiosa-cultural específica, como a dos Indo-Europeus, que, apesar das diferenças, trazem em si um conjunto de práticas de origem comum, sendo todas “religiões irmãs”, muito mais inteligíveis entre si do que entre qualquer outras extra-indoeuropéias. No entanto, o ponto que o Faye aponta, ao que parece, é a falta de “precisão” – que paganismo? A religio romana, o hellenismos, ásatrú? Faltou “concretude”, ao que parece.

[2] Em se tratando das grandes religiões tradicionais indo-européias, faz sentido. Mas certos cultos específicos, pagãos, alcançaram patamares aparentados à via metapolítica, como o Pitagorismo, o Mitraísmo e mesmo o culto Odinista, em alguns casos “fechado” entre a elite guerreira, da Era Viking.

[3] Por mais que concorde com o essencial – de que o negativismo do “anti-” (-cristianismo, -catolicismo, -protestantismo, -islamismo, etc.) não é essencial, nem característico ao paganismo e que é um erro de juventude comum – creio que é um erro compreensível, e talvez, em alguns poucos casos, até necessário, dado o peso ainda hegemônico do Cristianismo e a necessidade de descristianizar-se radicalmente (no sentido de “até a raiz”).

[4] Isto não está bem claro, mas talvez seja traduzido por “academicismo” e demasiado “elitismo” (no sentido de estar circunscrito a um grupo fechado e pequeníssimo de pessoas), impossibilitando o crescimento orgânico e o enraizamento real na produção cultural (seja nas subculturas juvenis, arte pop, etc.) e/ou a repaganização do folclorismo ainda vivo. Eis a importância de um paganismo que possibilite fundir-se com o regionalismo identitário e cultural, restaurando a integralidade de mundivisão desde cima.

[5] A preocupação com a eficácia da “propaganda” da ND, em vistas de suas aspirações políticas e culturais, sobretudo as políticas – um dos grandes motivos para os apontamentos do sr. Faye, como fica claro no texto – é quase inexistente dentro de uma ótica não-proselitista (como é a pagã). Se o grande erro da ND foi de marketing, então isto não foi lá um grande erro, pelo menos não sob a perspectiva estritamente religiosa. No entanto, há algo de mais profundo nesta questão – e que já tocamos cá – trata-se da expansão, do crescimento (não só qualitativo, mas também quantitativo) do paganismo, de sua expansão religiosa. Como se dará? Como resolver e elaborar atratividades não posélitas? Como não fazer proselitismo? É uma questão aberta e que vez ou outra aparece, por exemplo, na blogosfera pagã anglófona (majoritariamente comprometida com o politicamente correto e com os valores liberais norte-americanos). Podemos cuidar apenas da qualidade e esperar que esta, por si só e com o passar dos anos, reluza e frutifique, traduzindo os frutos e a luz, digamos, em uma expansão numérica, tímida e constante. O grande risco é termos tal cuidado interrompido violentamente por algum interesse religioso totalitário, risco real cá (sim, me refiro a “evanjas”) e na Europa (onde a expansão islâmica já dá sinais bem claros); uma maneira de evitar tal risco é, justamente, tendo um número mais significativo (o que por sua vez, supõe-se, permitirá mais disposição para o combate), e aqui novamente se cai na questão da expansão qualitativa aliada/conjunta a uma forma de expansão quantitativa.

[6] Isto não me parece um empecilho de todo, essencial e perene, antes, um empecilho contingente, fruto, justamente, da hegemonia cristã-esquerdizante (de uma elite majoritária ateizante de um lado, que se ri do paganismo como uma espécie de “ridícula extravagância plebéia de fantasias New Age”, e de uma pequeno resquício de elite beata, que por definição, está interessada em combater tal “perigo” assegurando sua “posição” e suposta legitimidade). Reconhecer que ela existe é uma coisa, não combatê-la é outra. OK, sob a perspectiva do combate (a “propaganda” serve a este propósito, pois), nem toda estratégia é boa, além de que há táticas que podem gerar recuos, ao invés de avanços. Se for neste sentido que o sr. Faye fala, então o fala razoavelmente. Se for por “derrotismo” ou crença na imutabilidade da opinião médio-burguesa ou das elites que “fabricam” a opinião pública, então não me parece falar razoavelmente.

[7] No nosso contexto, o apontamento é útil para levar a percepção de que uma coisa é Catolicismo Popular, repositório repleto de substratos pagãos e braço próximo e “familiar” para nós, outra coisa é o Catolicismo do Alto Clero. Interessante é notar que o Catolicismo do Alto Clero, justamente, flerta com as demandas da Teologia da Libertação e fez o Concílio do Vaticano II, é o clero “progressista”, mais aceito e elogiado pela intelligentsia de esquerda/humanista (talvez, por estes descenderem daqueles). Por outro lado, esperar dos Católicos Tradicionalistas, que tendem a valorizar um pouco mais as tradições populares (ou seja, as heranças pagãs), que demonstrem filopaganismo é demais. Por mais que muitos deles saibam que são devedores de pagãos como Platão e Aristóteles, acreditam no próprio discurso de que sua teologia é uma superação (para nós não é) e que o paganismo deve ser combatido, no final das contas, por mais que se tenha de tolerar os “desvios” das pessoas comuns. Só um católico tradicionalista e perenialista (no sentido schuoniano, não no sentido tomista) pode tolerar pagãos de modo mais tranquilo. E caso os católicos perenialistas ficassem mais comuns, os tradicionalistas seriam os primeiros (bem antes dos progressistas) a denunciá-los como heréticos… Logo, focar as críticas no Alto Clero, por mais que “agrade”, eventualmente, setores mais tradicionalistas do Catolicismo, não tornará o paganismo mais aceito por estes; pode, talvez, fazer com que um ou outro sujeito se torne herético ou se converta a alguma fé pagã, mas creio que é algo muito difícil.

[8] O que falei no ponto [7] basicamente cabe aqui. Fazer as coisas buscando “agradar” o beatame, passar-se por “bom moço” e “cordeirinho manso”, é esperar demais. Não precisamos, absolutamente, da aprovação dos cultores do judeu morto. Se se trata de utilizar táticas que preservem de modo mais confortável alianças temporárias, vá lá. Se se trata apenas do medinho de desagradar, paciência…

[9] A instrumentalização do paganismo (se de fato foi isso, e não a tentativa de produção de linhas políticas e culturais pagãs, como as outras religiões fazem, produzem linhas políticas e culturais religiosas) é um erro em si, não um erro apenas por que diminuiu o potencial de marketing ante as audiências cristãs. Mesmo que tal instrumentalização houvesse surtido efeitos positivos, ainda sim, seria um erro. O Guerreiro pode até elevar-se ao Sacerdote. Mas sua usurpação definitiva é um sacrilégio em sentido estrito, o qual a História testemunha só resultados nefastos.

Arquia, anarquia e pensamentos

Saudações.

Vai e volta, encontro-me com o termo “anarquismo”, utilizado por gente de extrema (esquerda ou direita), capitalistas burguesinhos, gente de classe média “nerd” ou gente de classe média típico bicho-grilho-hippóide-de-Humanas, nacionalistas (sim, há o nacional-anarquismo) etc. É um termo bem presente. Mas, ao meu entender, em certos usos, é um termo falho. Escrevo esta postagem visando demonstrar o motivo.

Basicamente, minha implicação é de ordem etimológica.

Etimologicamente, anarquia é um termo que aponta para “desordem”, é “falta de princípio diretor, governo, comando”. Este “-arquia” é a mesma “arkhē” dos filósofos Pré-Socráticos. E isto deveria ser o suficiente para invocar o peso (ontológico) da noção “-arquia”. Eles, como todos os povos tradicionais de que se tem notícia, acreditavam na existência de um princípio ordenador do que existe. No pensamento religioso, tal princípio é sagrado (em grego “hieros”), sendo ele próprio, a ordem natural das coisas, a ‘hierarquia’ (“hieros”+“arkhē”). Este princípio, tanto para os Pré-Socráticos (cuja inovação fora iniciar a investigação racional e dessacralizada deste princípio ou conjunto de princípios) como para os religiosos, é pré-existente (ante rem), ou no mínimo, ontologicamente congênere com as coisas (in re). Há uma hierarquia no mundo, na natureza das coisas, seja ela característica inseparável do que é (in re) ou de origem divina e premeditada (ante rem), simples assim. Estamos nos referindo a uma crença profunda, e até onde sei, presente em todos os povos, ao menos no mundo antigo. Dependendo dos povos e culturas, tal percepção da hierarquia natural é estendida, com maior ou menor grau, a organização política e sócio-econômica da sociedade.

Podemos postular, sem agravo, que o pensamento tradicional é caracteristicamente ligado a tal percepção de uma ordem configuradora do ser. Podemos também estender filosoficamente tal noção aproveitando os conceitos desenvolvidos para a questão dos universais e aplicando-os cá. Neste caso, teremos os crentes na existência de uma hierarquia prévia (ante rem) ao que é, estabelecida teogônicamente, no que é (in re – idéia próxima da Pitagórica de que há uma ordem diretora matematizável na estrutura do próprio universo; pressuposto parecido foi assumido pela Ciência Moderna desde de Galileo e ainda rende frutos na matematização da Física e nas tentativas de síntese do tipo Teoria Geral) e os crentes numa hierarquia posterior as coisas (post rem), seja pela argumentação de que nosso aparelho gnosio-sensorial organiza/hierarquiza as nossas percepções e representações em nossa mente por sua própria natureza (similarmente as categorias a priori de Kant e o modelo epistemológico deste) ou pela própria linguagem que utilizamos para pensar e descrever o que existe postular uma hierarquia, uma organização diretora (ou seja, por existir na linguagem – seria a postura mais próxima do Nominalismo, digamos).

Claro que ao longo da história, a percepção da hierarquia, sagrada, efetivou-se também como uma “disarquia”, perdendo o caráter sacro, instrumentalizando-se como injustiça e desregramento no mando político de sociedades. Quando o princípio diretor e governante perde sua orientação transcendente, a coisa desanda, deixamos de ter uma hierarquia, em seu sentido próprio, e passamos a ter uma caricatura, muitas vezes prejudicial, uma ‘disarquia‘. Ou seja, o problema não é ter os melhores no topo, o problema é quando “os melhores” não são Os Melhores. Esta é a real injustiça social (qualquer um que leu a República de Platão bem lida, deve ter compreendido esta lição tradicional). Isto é o que havia de real quando um Rousseau da vida, zombou de um gordo e afeminado Luís XIV, em contraposição ao camponês rude e viril; mas com o Roussseau, a coisa não parou por aí, ele acreditava que o problema era a própria noção da desigualdade natural, e da “hierarquia”, não se tratava de não ter Os Melhores no topo, mas sim de não haver ‘melhores’! Ou seja, jogou-se o bebê junto com a água, e de lá pra cá, muito anarquista (o francês Proudhon que o fale, lembrando que este terminou por influenciar o russo Bakunin) segue esta rota irrefletidamente.

Há quem ache que tal ideia “encantadora” – de “não haver melhores”, serem todos iguais, o Igualitarismo aí pressuposto – ganhou corpo e se disseminou com o Cristianismo (Nietzsche, Evola, Alain de Benoist, Faye, etc.), como é bem sabido.

Uma vez que não há melhores, nem superiores, o Sujeito moderno, Liberal, torna-se autônomo no sentido etimológico do termo (“aquele que rege a/legisla para si próprio”), daí, passar a ver todo poder externo a si (o Estado, especialmente após o trauma “absolutista-hobbesiano”) como opressor é um pulo. Ou seja, partindo do Igualitarismo e do Modernismo (do Sujeito Moderno) é fácil chegar (se é que não é uma consequência lógica!) ao anti-Estatismo, o tal Anarquismo – seja pela Esquerda (classicamente, pela via sindical-socialista até o trotskismo), seja pela Direita (pela intensificação e máxima potencialização do liberalismo, no Libertarianismo/Anarco-capitalismo). Ambas as visões não enxergam um princípio ordenador prévio (ou congênere) para a existência, não conhecem a ideia hierárquica em seu sentido originário, ao contrário, denunciam tal discurso como religioso, reacionário, alienante e opressor e assimilam, instantaneamente, o termo “hierarquia” à injustiça e usurpação. Ambas visam a horizontalização igualitário-materialista, o Paraíso messiânico terreno, seja pela redistribuição direta de riqueza (Esquerda), seja criação de mecanismos que permitam o igual acesso ao consumo (Direita). Por mais que as ideologias elaborem conceitos-chave que não possuem qualquer validade científica e sirvam como depositários da fé de seus crentes (sendo análogos aos mitos e aos conceitos religiosos), como a “Mão Invisível da Economia” ou a “Luta de Classes”, suas pretensões de superioridade à religião e pseudo-cientificismo (pelo menos no caso do Marxismo), terminam por encantar a intelligentsia ávida do status da superioridade intelectual.

Antes que algum gaiato venha cá dizer (por proselitismo ou por real “comoção” e desejo por “iluminar esta mente escura”) que entendi tudo errado, informo que estou bem ciente dos usos do termo no final do século XIX e começo do XX. Conheço algo do Proudhon, algo do Bakunin, algo do Trotsky, do Marx (o fim messiânico de sua promessa teórica, o tal do comunismo real, o “anarquismo feliz”) e mesmo de gente que é utilizada, especialmente pela anglofonia, como “ancestral” do Libertarianismo e do Anarco-capitalismo, como Thoreau. Compreendo quando se fala de “gestão orgânica”, “governo espontâneo”, “livre associação comunitária”, “voluntarismo” e tantos outros conceitos para expressarem a alternativa a um Estado (termo latino, usado já na época de Cícero), o Estado Moderno, Hobbesiano, Westfaliano; e mesmo concordo que a ideia de “livre aceitação” de uma forma de governo ou manifestação hierárquica é, fundamentalmente, uma boa idéia. Compreendo até a mitologia dicotômica do Estado=Mal x Não-Estado/Anarquia=Bem, etc. E o pior, até venho lendo com certa constância algo do anarco-primitivismo, anarco-nacionalismo e outras variantes. O que estou dizendo é que não concordo com o uso do termo “anarquia”, principalmente quando ele denota a existência ainda de alguma “arquia”, mesmo que não seja a do Estado Moderno Hobbesiano. O que estou dizendo é que não vejo nenhuma razão para resumir biunivocamente “arquia” a Estado Moderno Hobbesiano/Westfaliano/Burguês. Ou seja, o fato de não haver o Estado Moderno não quer dizer que haja “anarquia”. Simples assim.

E por isto fala besteira ou simplesmente atesta sua idiotice (ou má-fé, do mesmo modo que os marxistas que falam na baboseira mentirosa de “comunismo primitivo” ou os seus ancestrais ideológicos que falavam em “cristianismo antes de Cristo” – ou toda e qualquer prática fraudulenta de alteração e revisão do passado sob orientação ideológica do presente, por mais que não seja por “má fé”, que se admita ao menos que é por motivos estratégicos e de “propaganda”) quem fala em reinos medievais “anárquicos” ou tribos celtas e germânicas “anárquicas”, etc. Não importa quão disseminado esteja, nem quantos seguidores tenha ou quantas entradas na Wikipédia disponha.

E mais, creio que para um religioso que adere a uma religião antiga ou de inspiração/restauração destas (como é o caso dos Neopagãos), digo que ele adere também a uma visão que estipula, tradicional e necessariamente, “hierarquia” (em seu sentido etimológico e ontológico) e que por isso mesmo não pode simplesmente abrir a boca em favor de “anarquismo” (no sentido etimológico que abordei acima) sem que se contrarie. As crenças na existência de alguma forma de “arquia” (ante rem, in re, post rem, nominalisticamente, etc.) e na sua ausência (“anarquia”) são mutuamente excludentes. Como disse, me refiro a alguns usos específicos (especialmente aos usos de origem religiosa não-cristã, pois dentro do cristianismo primitivo parece ter havido uma brecha que os anabatistas revisitaram) e exponho cá os motivos. Tal exposição não visa ser o início de uma cruzada contra o termo, mas antes chamar atenção para sua dimensão etimológica e as possibilidades de nos reapropriamos dela de um modo que me parece menos problemático. Aos camaradas pagãos e correligionários, recomendo que utilizem simplesmente “tribalismo” ou “primitivismo” ou algo do tipo.

Wikipédia, Wikipédia…

Já aqui falei uma série de vezes sobre a necessidade de um trabalho cultural amplo. E em alguns setores parece-se que o trabalho deve ser visto mais como guerra. E venho aqui bater numa tecla específica: na necessidade dos próprios pagãos modernos serem os fornecedores/corrigidores das informações que são expressas sobre eles na mídia livre virtual – me refiro a espaços como a Wikipédia e similares. Na verdade, me volto a Wikipédia em si – mas vejo que isto talvez se aplique a outros serviços. Não adianta torcer o nariz e repetir a ladainha de que a “Wikipédia é coisa de idiota, não confiável, etc.” – as pessoas comuns (incluindo teu eventual patrão ou familiar) recorrem a ela, e a confiabilidade de suas informações pode ser melhorada – pelo menos em tese – pelos reclamantes e torcedores de nariz; basta o sujeito deixar de reclamar e trabalhar, deixar de falar e agir.

 

Se os pagãos não se fazem presentes, a não-presença não permanece “não-presença”, ela é “ocupada”, queiramos ou não, e se torna “presença”. Os pagãos não ocupando, o espaço virtual é ocupado por não-pagãos e mesmo, talvez, por anti-pagãos. E a permanência de tal ocupação, por si só, com o sedimento do tempo, torna-a pesada, densa e de difícil remoção no futuro.

Lembro-me de um caso particular, do qual participei pessoalmente, anos atrás (acho que mais de 5 já!), dentro da comunidade virtual do Druidismo/RC cá do Brasil, houve este vislumbre de que seria muito bom dar uma levantada, em termos teóricos, nos artigos da Wikipédia. Isto mobilizou gente boa destas fileiras que logo pôs-se a trabalhar. Bem, a equipe de revisores da Wikipédia meio que censurou boa parte das edições – mesmo quando citavam as fontes direitinho e tal – o que nos fez suspeitar que havia um viés ideológico opositor para além da desculpa do “manual de estilo” da Wikipédia. Isto foi frustrante e creio que desmotivou bastante qualquer iniciativa posterior, inclusive minha, pelo menos advinda desta comunidade virtual em particular.

Mas, estes dias, anos depois, ao ver o artigo sobre Druidismo na Wikipédia, ou o sobre Paganismo em geral, vejo que abandonar o “jogo” pela frustração só favoreceu o oponente. Os artigos estão terríveis e muitas vezes ecoam preconceitos e vieses ideológicos anti-pagãos e abraâmófilos. O (artigo) sobre Druidismo possui mais da metade do texto falando sobre a crueldade de sacrifícios humanos (que eram práticas excepcionais, ou seja, não eram lá corriqueiras, e/ou estavam ligadas ao sistema social punitivo, como Penas Capitais para crimes hediondos) e supostas práticas canibais (destas, só há um registro seguro e que a arqueologia aponta como sendo oriundo de uma situação de desespero social e radicalismo religioso); a outra metade é quase toda voltada a exposição de uma particularidade irlandesa (os tipos de “druidas”) que não sabemos se se aplicava a totalidade dos druidas, sendo por isto, muito mais uma informação contingente que essencial (considerando que outras informações essenciais não estão no artigo). Já o artigo sobre o “Paganismo”, quando lista as características comuns e outras coisas do tipo que unem os diversos significados do termo, lista umas sistematizações suspeitas (“wiccanices” ou coisas feitas de fontes duvidosas), etc. Como se chegou a tal parcialidade? É simples, quando um não quer, dois não brigam – mas caso o segundo queira, o primeiro que se recusou a brigar pode levar uma surra bem dada. É uma lição simples que a sra. Realidade ensina, mas que alguns cepos das cercanias, costumeiramente intoxicados por fumaças New Age, se recusam a aprender.

Antes de alguém pensar uma aresia, é bom esclarescer: não estou dizendo que é culpa de fulano ou sicrano (ou de mim mesmo!) – não! É algo de responsabilidade “comum”, por mais que gente como eu, com pouca paciência para o livro de estilo da Wikipédia, não queira se envolver, e bater na tecla é útil por propiciar – quem sabem – que um inspirado com afinidades com o livro de estilo “wikipediano” nos ajude. Mas para que a batida na tecla tenha mais condições de surtir efeito, creio que é necessário escrever o que escrevi aqui.

Posto isto, venho cá alertar os camaradas de outras fés e correligionários para que não se deixe os artigos da Wikipédia ao léu, mesmo que saibamos que serão alterados (inclusive por motivos ideológicos). Nada de trégua, nada de facilidade, persistamos.

PB Pagã – Áudio 06 24/10/2013

Saudações.

Eis o áudio desta semana. Ficou ainda mais nas custas que o anterior e me deixou pouco satisfeito. Primeiro, creio que posso expor de modo melhor as considerações sobre o cenário local e regional do Paganismo do que fiz neste áudio. Segundo, estou convicto que preciso repensar o formato disto (destes áudios) e arrumar uma plataforma melhor. Penso que a condução de algo neste estilo (de notícias e tal) não se adequa bem ao meu modus operandi, suspeito que se houvesse uma apresentação da notícia e eu entrasse mais com os comentários e tal, funcionaria melhor. Não sei bem. Estou aceitando sugestões e estou pensando em parar até testar algo melhor.

http://www.spreaker.com/user/5421727/pb_paga_audio_06_24_10_2013

Ligações para os principais textos e notícias referidas:

1. Bom trabalho da PMPB Ambiental:

http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2013/10/aves-silvestres-sao-resgatadas-em-bairros-de-joao-pessoa-diz-pm.html

2. MST continua com sua agenda:

http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2013/10/policia-reforca-seguranca-diante-da-expectativa-de-protesto-do-mst-na-pb.html

http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2013/10/servidores-relatam-prejuizos-em-orgao-estadual-apos-invasao-do-mst.html

http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2013/10/integrantes-do-mst-ocupam-centro-administrativo-da-paraiba.html

3. Protestos de comerciantes agrícolas em Campina Grande:

http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2013/10/feirantes-protestam-por-seguranca-na-empasa-de-campina-grande.html

4. Esculhambação até da Polícia Federal

http://www.folhapolitica.org/2013/08/95-dos-policiais-federais-afirmam-que.html

5. Leilão do campo de Libras, PT privatizando/entregando patrimônio natural dos brasileiros:

http://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2013/10/22/tesoouro-por-pechincha-diz-revista-alema-sobre-leilao-do-pre-sal.htm

6. Rússia retem ativista brasileira do Greenpeace:

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/10/ativista-brasileira-do-greenpeace-tem-pedido-de-fianca-negado-na-russia.html

7. Brasil doará aviões de combate a Moçambique:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/10/1361178-em-meio-a-tensao-brasil-vai-doar-avioes-a-mocambique.shtml