Anunciando o fim do blog Parahyba Pagã

Saudações.

 

Sábado passado estava eu sentado debaixo de uma árvore no meio da mata cá próximo, só, escutando os pássaros e varrendo a paisagem com os olhos tive uma certa “visagem” que terminou por decidir o futuro de algumas das coisas iniciadas anos atrás. Este blog está com os dias contados e venho comunicar isto cá, depois de uma longa meditação. Basicamente, estou convicto de que perdeu sua “razão” de ser e transformou-se num blog “pessoal”; achei que haveria possibilidade de reverter isto mas não houve. Outros fatores contribuíram, muitos outros, mas não cabe expôr cá.

 

Ficarei com o blog pessoal – que no momento está abandonado – Ígnea Falcata. Vou retirar os artigos que me interessam (e, ao que pretendo, coloque-os lá), provavelmente daqui para o fim de setembro (vai depender do meu tempo livre). Continuarei com o grupo Fronte da Parahyba no Google+ e apagarei a página do Facebook do blog quando encerrá-lo de vez. Eu agradeço, profundamente, os leitores fiéis – que são poucos, que mesmo não concordando com tudo que posto cá, se dão ao trabalho de ler, divulgar e por vezes utilizar o que aqui é exposto. É sério, tenho um respeito muito grande e um carinho por alguns dos leitores conhecidos e mesmo sendo difícil para mim abstrair o leitor anônimo (que acompanha mas nunca entrou em contato virtual ou pessoal comigo), confesso, fico muito grato a ele também, muito. Como professor, encerro com a esperança de haver contribuído, pelo menos uma vez ou outra, para algumas reflexões e para alguns debates construtivos. Não é necessário ser platonista para defender que o Conhecimento é algo que faz valer a pena, disto estou certo, e que, com erros e acertos, este blog tentou exteriorizar algo desta caminhada, não só minha, mas de outros que cá contribuíram, como os camaradas Rodrigo e Thiago.

Primeiro logo do blog

Há muitas lutas pela frente ainda, é certo. E, claro, estou disposto a fazer a peleja continuar, mas noutro blog, noutro quadro virtual mais adequado aos fatos. O verão já desponta no horizonte, o inverno ficou para trás, e talvez este seja o momento de algo novo, pelo menos de terminar uma mudança (já iniciada) para um “lugar” novo. O filósofo grego Anaximandro disse, ao que parece, que o que tem início, necessariamente terá fim, cedo ou tarde. Bem, o fim deste blog chegou.

Ainda sobre as eleições de 2014

Bem, como colocamos cá, tínhamos apontado a candidatura de Campos como uma opção interessante, ao menos para mim; com a morte do candidato, caiu também minha opção, pois Marina, desde 2010, para mim ao menos, não é lá uma opção. Após o debate de hoje do SBT, confesso que terminei simpatizando algo com o sr. Levi Fidélix, mas é aquela simpatia oriunda do desgosto e pouco provavelmente votarei nele, o segundo turno continua como a real complicação. Mas venho cá chamar a atenção para dois pontos relacionados à eleição. Corro o risco de ser mal compreendido, tenho plena consciência disto, mas irei corrê-lo mesmo assim por acreditar que minha exposição não será lá difícil.

A questão mais importante para o Brasil

Talvez eu esteja ficando um tanto quanto mais apartado ainda de gente com a qual eu não convivo diretamente – e isto inclui muito dos colegas neopagãos et similis do mundo virtual – mas teve algo que realmente, é sério, realmente, eu não entendi. Me refiro ao alarde e ao clima que se formou em torno da candidata Marina sobre o casamento gay.

Que Marina seja “esguia” e “não se posicione claramente”, ou que esteja submetida a “autoridade” de um pastor (ou ao menos a autoridade de seus princípios religiosos) só é novidade para quem é míope mental ou se faz de doido.

De repente, pareceu que a única questão que importa, a questão pela qual se decidirá o sucesso do Brasil para os anos vindouros ad infinitum é a disposição de levar à frente ainda mais a agenda LGBT. O resto não importa, economia, segurança, educação, etc. Nada. Pareceu por um momento que a maioria dos sujeitos só se preocupavam em viver num país onde isto fosse a prioridade, não importa se o país estivesse imerso num caos social, falido, completamente destruído, sem saúde, educação, tecnologia, etc. Elite bancária sugando o erário? Educação despencando em níveis miseráveis? As riquezas do país sendo doadas e o povo sendo escravizado? Não, nada disto conta. O cenário mais catastrófico imaginável era um mero detalhe, desde que se promovesse no Estado a adoção de órfãos por parte de casais homossexuais. Parece que se chegou ao cúmulo do moralismo progressista (defendido pela Esquerda e pela Direita liberal/libertária) politcamente correto, este é a única coisa que importa. Importar-se com isso, não moderadamente, mas radical e absolutamente, mesmo que o sujeito não seja ele próprio gay ou tenha interesse genuíno, aĺém do mero pseudo-angelicalismo e auto-beatificação, na causa, tornou-se o critério definidor dos “Iluminados” em oposição aos “Obscurantistas”, afinal, se não estás comigo estás contra mim, não é?

Eu realmente não compreendo como tanta gente inteligente tem se comportado como se não houvesse mais nada em causa, mais nada de importante, além disto; como se isto definisse tudo e de uma vez por todas. Eu realmente não compreendo e começo a considerar que, na pior das hipóteses, o problema esteja em minha visão.

É uma questão a ser debatida? Claro! É uma questão a ser considerada? Óbvio! Mas considerá-la como a questão mais importante para o Brasil e dividir o mundo nisto, me parece um tanto quanto insensato e reducionista, para não dizer “gay-cêntrico”. Que seja a principal bandeira para a causa LGBT, pois estão claramente justificados a serem “gay-cêntricos”, que seja, afinal, há muitos desafios relacionados ao preconceito a serem vencidos por eles, mas comportar-se como se esta devesse ser a única e imperativa causa por sobre todas as demais relativas ao futuro da nação e a causa última de julgamento da moralidade humana, não me parece adequado. Que se lute, que se defenda, mas que não se perca o senso das proporções e se perceba que “subir” uma demanda da micro-política para a macro-política é uma coisa, tornar todas as outras demandas da macro-política subjulgadas a esta somente é outra bem diferente.

Talvez alguém diga: “ah, falas isto por que não sofres preconceito diariamente, já que não és gay”. Pode ser, mas meu argumento trata justamente disto – da legitimidade óbvia dos que legislam em causa própria e da separação disto para com as demais demandas públicas (muitas vezes mais importantes, por dizerem respeito a totalidade dos cidadãos – e ao seu futuro e força como um todo – e não apenas a uma parcela deles), que não deve, por isso, serem menosprezadas ou varridas para debaixo do tapete.

O meme “Não vote em evangélico”

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Por mais que nós cá não tenhamos disposição de votar em evangélicos, pelo menos a princípio, cremos que tal tipo de meme é contra-produtivo pelo seguinte:

1. Dá aos “evanjas” a tão sonhada oportunidade de vitimização e martírio.

2. Efetivamente, trata-se de uma generalização apressada – e talvez até (pelo princípio de “caridade”) – demonstre o modus operandi de “bloco” (maniqueísta) preconceituoso. É uma generalização apressada por não serem todos os evangélicos, completos devotos fanáticos para o fim da laicidade da constituição do país. Há muitos, como há entre os Monarquistas católicos, mas o “muitos” aqui talvez reflita mais a expansão numérica (pois há, claramente, mais evangélicos do que católicos monarquistas) do que propriamente algo absolutamente obrigatório (por mais que nos doa admitir isto, a defesa radical da liberdade religiosa e comportamental da Modernidade surgiu na agenda liberal, devedora da Reforma Protestante). Além de que isto pode levar a uma espécie de “ad hominem”. Não é pelo fato de um evangélico dizer que 2+2=4 que isto, por si só, torna-se errado; como, em princípio, não é por um diagnóstico e uma proposta de resolução política serem apresentadas por um “evanja” que por si só já a demonstre como errada. Operar assim, é mais ou menos como operam certos nazis que julgam que só por tal conceito ou ideia ter sido apresentada por um judeu (ou um gay) que isto já a faz, necessária e absolutamente, errada por simples juízo prévio, dispensando qualquer possibilidade de posterior averiguação. Troque “Não vote em Evangélico” por “Não vote em Pagão” ou por “Não vote em Judeu”, ou mesmo “Não vote em Gay” que rapidinho os paladinos da moralidade politicamente correta virão denunciar o preconceito. OK, arguirão, talvez, que “pagãos” e “judeus” não apresentam ameaça real a laicidade do país, sim, de fato; mas isto não implica, necessariamente, que qualquer coisa, incluindo falácias grotescas, possa ser usada como meio legítimo, belo e moral de propaganda ideológica. O fato é que, preconceito e mal uso de informação há em todos os aspectos ideológicos (e este meme é prova disto) e é de se estranhar certos reclames feitos por quem se sente a cereja última da evolução, virgem iluminada e paladina progressista ilustradora, luz da razão libertadora contra as trevas retrógradas da ignorância. O chato é isso: se fossem os “malzões” postando OK, dava um desconto, é compreensível (apesar de não concordar), dado que são os “malzões” – mas são os sujeitos que mais facilmente se ofenderiam e mais rapidamente gritariam “preconceito! Isto é um escândalo! Um absurdo!”, caso trocássemos o predicado ‘evangélico’ por qualquer outra coisa.

3. As ameaças efetivas à laicidade, como já lembramos noutra oportunidade, veio tanto quanto (ou até mais) de supostos paladinos progressistas que, diante da inegável e quase irrefreável marcha de expansão dos “evanjas” foi ter com eles negociatas e acordos com fins eleitoreiros quanto do lobby evanja em si. Achar que o problema é somente o sujeito “do mal” (sim, para muitos os “iluminados” que passaram do “humano-demasiado-humano” isto é uma questão moralizada, e moralizada no sentido nietzscheano, apesar de não admitirem, escondendo-se em seus mantos de pseudo-pós-modernice) que claramente diz o que pensa e diz que vai implementar seus “planos maléficos” caso tenha oportunidade é todo o problema, é um erro simplório – não, este até é um problema, mas é um problema às claras, um problema frontal, um problema que chama ao bom combate. O problema mais perigoso, é o justamente o que jaz oculto, o “não-evanja” que, por motivos diversos (eleitoreiros ou não), cederá e fomentará a agenda; o gato que se passa por lebre, este merece sim a atenção redobrada e um meme deste termina por desviar isto, instigando, ao invés, uma polarização cega.

O candidato deve ser analisado pelo conteúdo de suas propostas e pelas implicações práticas e lógicas de suas posições, não pela sua filiação religiosa apenas. Esta conta, conta, mas não é tudo. Que tal exemplos práticos? Suponhamos que temos um candidato x que é evangélico, e um y que seja new age. O candidato y promete apertar ainda mais o desarmamento civil e tornar impossível o acesso legal à armas de fogo por parte dos cidadãos legalistas. Já o candidato x promete tornar o acesso de tais cidadãos às armas um direito constitucional. Em termos puramente práticos, numa sociedade governada pelo candidado y, um minoria religiosa que fosse agredida violentamente à extinção por setores majoritários (tolerados por motivos eleitoreiros, digamos), não teria meios legítimos de defesa contra a violência armada, sendo reduzida a mera “ovelhinha”, vítima indefesa, podendo somente gritar até o último suspiro. Já numa sociedade governada pelo candidato x, teria a possibilidade de adquirir meios de defesa armada e mesmo que fosse perseguida à extinção, posteriormente, pelo próprio governo (aparelhado por evangélicos fanáticas), teria, ao menos, a chance de uma resistência e morte gloriosa. Por este meme, teríamos de votar, cegamente, no candidato y, mesmo que isto nos trouxesse uma extinção mais fácil, rápida e eficazmente realizado pelo nosso agressor.

Ou seja, pode até ser útil para tentar diminuir a força do lobby evangélico, mas nem sempre útil significa eficiente, nem que se possa recorrer a tudo (principalmente, quando vindo de gente que discorda tão escandalosamente da máxima de que “os fins justificam os meios”).

Finalizando.

Antes que algum idiota venha cá azurrar é bom deixar claro que 1. não estou dizendo que todo mundo deva ser anti-gay ou algo assim, 2. não estou dizendo que devemos votar em evangélicos. Absolutamente. Mas, estou dizendo que 1. as posições pró-gays não são, a priori, mais importantes que outras questões efetivamente cruciais ao país (o que não significa dizer que não tenham importância, mas significa dizer que há mais importantes) e 2. que não é por ser evangélico que um sujeito, automaticamente, se torna sinônimo de “mal absoluto”, “demônio”, “obscurantismo irrevogável”, etc.

Alguns pensamentos sobre a construção de comunidades orgânicas locais

Saudações. Este texto devia ter vindo antes, demorou mas está aí.

Diante da multiplicidade de desafios de ordem política e religiosa pela frente, a idéia de viver numa comunidade pequena composta por correligionários é algo que atrai muitos dos adeptos das religiões étnicas indo-europeias (e de tudo aquilo que convencionou-se chamar de “[neo]paganismo”). É uma opção convidativa e atraente, independente do perfil ideológico do adepto – seja um hipponga-libertário-new-age ou um militarista-conservador, além dos diversos tons entre um perfil e o outro. Claro, algo disto já foi discutido neste blog e viemos mais pôr um adendo aqui.

Por um lado, talvez isto – de formar comunidades paralelas – represente uma recusa ao grande embate político-social (e uma prévia aceitação da derrota), uma atestação de que não tem jeito mais (ou um reconhecimento de que não temos força suficiente); uma atitude conformista/negativa, que soa “egoísta”, uma “fuga do mundo” (condenável tanto pelo viés liberal social-democrata que no melhor dos casos pode se inspirar no civismo ateniense ou romano, quanto pelo marxista materialista-hitórico) e um apego a uma atitude “retrógrada” (e “alienada”, para o marxista) em prol de um idilismo “Amish”. Talvez, efetivamente, tenha algo disto, pois, na condição de minoria da minoria e da quase que completa falta de representatividade social e política na macro-sociedade é quase impossível não “cansar”, não estar saturado em algum momento e buscar algo mais fácil de ser posto em prática. Ainda por cima, quando há uma certa tendência anti-cívica, herdeira do Estoicismo e do Epicurismo, talvez, e reforçada pelo desprezo cristão por tudo que é “deste mundo” e pelo seu ascetismo amante de desertos é que se ache uma postura inadequada. No entanto, a tendência da viabilização de novas comunidades, a possibilidade de erguer algo diferente, é uma constante que se vê na colônias gregas desde a época arcaica, nos assentamentos romanos, nas expedições e migrações célticas e germânicas, por exemplo; e em muitos casos (especialmente entre os germânicos, célticos e mesmo alguns helênicos) o cariz rural/“de vila” se fez quase sempre presente.

Além de que a história mostra que “Fugir para as colinas” nem sempre significa derrotismo. Nossos ancestrais ibéricos, já cristianizados, que rumaram para a Galiza e Astúrias para reconquistarem suas terras gerações após a conquista moura, são um exemplo do que desejo apontar aqui. É possível, lá nas colinas, montar um acampamento e cuidar de, paulatinamente, tornar as condições de vitória/expansão reais, palpáveis. Este é o ponto que indico cá e encaro isto como inspirado no pioneirismo migratório/colonizador de Celtas, Germânicos e Gregos.

Nesta possibilidade, para qual converge muita coisa, creio que estão – na minha opinião – as idéias mais úteis de boa parte do “blá, blá, blá” político que se pretende “pós-moderno” (e defendido por quem se acha mais “descolado” e inteligente, etc.). É aqui que vejo, por exemplo, utilidade nos conceitos de “voluntarismo” e “comunidade orgânica” tão frisados por anarquistas; nas digressões sobre o tal do “municipalismo libertário” (e da ideia do “ocupe” venha da extrema-esquerda ou dos libertários/anarco-capitalistas), do esforço de “espalhar” ou realizar o esforço democrático em comunidades (impulso de setores progressistas de Esquerda, por exemplo), da retórica neo-tribalista (de radicais racialistas) ou das realizações hippongo-verdistas de permacultores simpatizantes do neoxamanismo, por exemplo.

Em termos práticos, isto se reduziria numa estratégia geral de fundar pontos sólidos em diversos lugares do país – teríamos três tipos de projetos:

1. fundar “colônias” rurais

2. formar “maioria” em alguma cidade pequena

3. formar “maioria” em algum bairro de alguma cidade grande

Revitalizar laços orgânicos e reais, promover um cotidiano integrado que possibilite a experiência de imersão cultural integral ao religioso, reforçar, para utilizar um termo durkheimiano, a “solidariedade mecânica” (aquela existente naturalmente, entre pessoas linguística-cultural-religiosa e geograficamente próximas, ou seja, a solidariedade do “ethnos”, da tribo) em oposição à solidariedade “burguesa” (derivada da globalizante divisão do trabalho)/moderna/“orgânica” (no dizer de materialista-progressista/evolucionista de Durkheim: de notar que ele chama de “orgânica” à burguesa e de “mecânica” a orgânica, sendo que é justamente o contrário!), universalista, virtual, do anônimo cosmopolita, é a meta. Com isto, naturalmente, brilhará mais forte nossas instituições e tradições, facilmente brotarão árvores vistosas e bosques sadios. Ou seja, basicamente se trata de criar bolsões, “viveiros” (religiosos) sadios que garantam exemplares vigorosos e centenários.

Onde isto está, dentro de uma perspectiva escatológica (seja do amedrontado prenúncio do fim da era petrolífera-tecnológica, seja da fé no fim religioso da Era presente, seja do geopolítico “fim da história”, etc.), não é o que me disponho a tratar aqui. Se trata de algo paralelo (e independente) a tudo isto. Que tenha utilidade para os prenúncios deste Inter-regnum, que seja, mas é outra coisa.

Particularmente, tenho algo destes projetos mas também creio que a “grande cidade” não deve ser de todo abandonada – creio que deve algo do efetivo ficar lá, entrincheirado, e talvez recebendo algum suporte “das colinas”. Talvez inspirado pelo que há de melhor em virtuosismo cívico no mundo ocidental, justamente, formulado por “pagãos” como Platão, Aristóteles, Cícero, etc.

Mas como operacionalizar isto, quais táticas?

O mundo virtual, por enquanto, possibilita um ferramental de organização formidável mas que parece também levar a dispersão e esvaziamento do Real, quando esquecemos de seu cariz instrumental e o encaramos como finalidade em si mesma. Enfatizar a dimensão instrumental da informática e pô-la em prática é o primeiro passo.

Bem, depois disto é necessário considerar umas coisas que acredito serem entraves. Vou expor a primeira destas coisas tomando como referência o pouco que percebi do projeto louvável do Rafael Noleto da “Vila Pagã” cá no Nordeste.

Bandeira da "VIla Pagã" no Piauí

Bandeira da “VIla Pagã” no Piauí

Para que o objetivo geral tenha melhores condições de frutificar enraizando-se, num quase osmótico processo de configuração com a Bio-região local, é importante que haja uma “unidade” de foco. Todos serem da mesma religião, ou ao menos cultuarem os mesmos deuses dentro de um mesmo arcabouço cultural, é crucial. Daí que “vilas” ecléticas/ecumênicas estão fadadas a problemas de ordem prática e forçarão seus moradores a desenvolverem um linguagem religiosa comum (que pode soar demasiado artificial ou não) que possibilite o mútuo entendimento, coesão grupal e o conforto “ideológico”, digamos. No caso do projeto Vilã Pagã, é mais ou menos o que me parece – estando eu distante, posso estar enganado – que ocorreu e levou ao desenvolvimento do “paganismo Piaga”. Mesmo se juntarmos, por exemplo, Reconstrucionistas Célticos de foco irlandês, com gaulêses, com galeses e ibéricos (todos, em teoria, RCs), haverão “desconfortos” (explícitos ou não) que levarão as partes minoritárias ou mais constrangidas a cederem ou saírem, cedo ou tarde. OK, talvez no casos dos Reconstrucionistas (ou “etno-religiosos”, digamos) assim seja e que entre os neopagãos ecléticos (Wiccas, Neodruidas mais ecléticos, etc.) isto não seja lá problema.

Outro fator é que Além de sermos poucos, e muito dispersos geograficamente, a viabilidade prática dos “iguais” unirem-se num ponto geográfico é complicada, especialmente quando já se começou a pôr em andamento algo destes projetos (mais ou menos nossa situação cá, confesso). Este é o fator logístico, digamos. Daí que tal projeto requer certa radicalidade e uma disposição de ferro de mudar-se (e arriscar-se, especialmente os que não possuem tanta fixidez ou raízes já fincadas em certo local) em prol de tal ideal. Este é um ponto crucial, é o que decide o sucesso ou o fracasso, o que decide o movimento ou o repouso. Trata-se da pulsão interna, da ação. Trata-se de quebrar a inércia da cadeira sedutora do conforto e ir para os elementos, faça chuva ou faça sol. E isto, definitivamente, não é para qualquer um – é a afirmação aristocrática, arcaica, que zomba do comodismo bundão.

Por outro lado, se considerarmos que os “iguais” devem permanecer onde estão (não se juntando), devendo fundarem grupos em seus respectivos locais, surge o desafio – já tratado – de como “crescer”, em qualidade em quantidade. Como inspirar, propiciar os chamados dos deuses ou despertar o interesse em dada religião? Há “público”? E quando a comunidade neopagã mais ampla sabota nas escondidas, seja por ranços de inferioridade declarada ou por picuinhas diversas? Ano após ano temos aprendido muito sobre estas questões aqui e digo, sob a égide de Bandu, que é difícil não se decepcionar e mais difícil ainda é não formar “filtros”, cada vez mais espessos, a ponto de se tornarem muros. E muros sem portas, são prisões. Simples assim.

Então, como proceder?

O caso de 3. em cidades grandes, é o mais fácil e exequível e me espanta que ainda não esteja ocorrendo: basta que os sujeitos se articulem para mudarem de bairro (basta escolher um bairro onde já 2 ou 3 de um grupo já residam e tal) – não precisam deixar os empregos ou transferirem-se para outros municípios, estados, etc. Longe das amizades e familiares, nada disto. Uma outra possibilidade ainda menor disto, é se houver uma combinação para “ocuparem” um dado edifício – se as pessoas decidirem investir em apartamentos em um único edifício, em pouco tempo se “controlará” o mesmo. Em poucos anos já se terá um núcleo duro, operativo comunitariamente.

O caso de 2. é mais difícil pois requer que vários sujeitos se mudem, e isto não é coisa simples, pois depende de empregos, familiares, amizades e toda uma vida já construída. Mesmo que os sujeitos de uma mesma unidade federativa (ou de vizinhas) decidam levar isto a frente, passará por todas estas coisas, apesar de estarem mais próximos para visitarem familiares e amigos. Além de que, se um grupo, completamente “alienígena” chega numa cidadezinha, com toda a excentricidade, sem “enturmar-se”, corre um risco sério de serem expulsos rapidinho, ou despertarem ódios que impeçam o projeto. Numa cidadezinha de 5000 pessoas é possível ter 50 que, estando presente em setores estratégicos (serviços essenciais ou inovadores para economia local, policiamento, burocracia administrativa, ensino, mídia/jornalismo local, etc.), permitam a execução de um tal projeto. E perceba, leitor, por exemplo, 50 asatruars se acham num único show underground de Heavy Metal em qualquer grande cidade (especialmente do Sudeste). Mas em todo caso, exige muita articulação e planejamento.

O caso 1. é o mais trabalhoso, talvez, mas possível, como a “Vila Pagã” de Rafael Noleto bem demonstra, mesmo tendo optado por uma espécie de “condomínio fechado” (neste sentido, algo mais urbanizado e para uma “vila” mesmo). A tática, neste caso, seria de alguém comprar uma área rural e dividir um pedaço dela em lotes (inclusive, num sistema de “mini condomínio horizontal fechado”), deixando uma área de trabalho comum, outra para a construção de um templo, etc. Conforme o interesse e o tipo de projeto que se queira levar a frente. Outra possibilidade é que uma vez que um sujeito já dispunha de um pequeno pedaço de terra, outros do grupo/comunidade religiosa busquem comprar as áreas vizinhas e/ou próximas, buscando formar um “cinturão” ou “confederação” de propriedades próximas se articulando em algo próximo do que atualmente funciona em “associações de agricultores”, “cooperativas” ou mesmo de sindicatos rurais. Dinheiro não surge do nada, mas se for de se endividar por uma vida para comprar a casa própria que te deixará eternamente insatisfeito (por não ter espaço, jardim, etc.) então reveja os planos, comprar um lote rural e construir talvez saia mais barato e traga mais satisfação: se é para dever, que se deva ao menos satisfeito, por algo que vale a pena.

Bem, vou parar por aqui. Eis algumas ideias e por isto venho cá compartilhá-las, afinal, uma andorinha só não faz verão, como dizia o famoso estagirita. E como tenho repetido cá, acredito que é necessário mais “pró-atividade”; é contra-produtivo e simplesmente indigno posar passivamente de eterna “vítima” indefesa.

Há quem diga que a boa e velha Realidade está com os dias contados. Se assim for, sou dos que está disposto a deixar este mundo virtual de fantasias tecnológicas para os entusiastas nerds, faço questão de me deixar de fora desta “Grande Ilusão”, e retornar, de vez, para as matas e montes “retrógrados”, para o sangue e o aço, para a Realidade, a mesma de nossos deuses e de nossos ancestrais.

Sobre as eleições de 2014 no Brasil

“A prudência, ela, consiste em saber-se reconhecer a extensão dos inconvenientes e tomar por bom o que é menos ruim” (Maquiavel, O Príncipe, xxi.)

Pensar sobre as eleições vindouras é algo pragmático, que ultrapassa os devaneios e formulações teóricas que apontam os vários defeitos do “Sistema”. Pode-se recusar a ideia do “Brasil” sendo um separatista regional, pode-se recusar a Democracia, pode-se advogar Monarquia ou Autocracia/Ditadura, pode-se o que quer que seja – mas efetivamente a eleição está aí e, pelo menos por enquanto, não há sinais de que deixará de acontecer. Daí sua imediatez, sua “concretude” e externalidade (coerciva e geral, para usar termos durkheimianos) e por isto que não venho cá expor meus motivos de concordância ou não com o “sistema”, não é sobre isto que escrevo.

Basicamente, fiquei de expor cá meu parecer sobre as eleições vindouras e os candidatos, atendo-me, no máximo que conseguir, a um viés religioso. Claro, é quase impossível ser imparcial, até porque Política não é algo “racional”, mas um aglutinador de paixões, razões, Vontade e Poder – mas creio que certas posições (como a de certa incompatibilidade doutrinária entre crenças indo-europeias e idéias marxistas-materialistas, ou de crenças tradicionais e “anarquismo”, etc.) são defensáveis independente de preferências pessoais, por serem logicamente sólidas. Então, buscarei primeiro apresentar, do modo mais imparcial possível, o que considero importante (que é, basicamente, para não crer facilmente em histerias de medinho de candidaturas anti-laicistas) e só depois apresentarei minha posição, que sendo algo pessoal, não tem lá importância.

Bem, como já dito neste blog, cada vez mais desconfio que teremos de desenvolver um caminho ideológico próprio, em termos de Política. Um vanguarda intelectual terá de parir tal criação. Os caminhos aí existentes esbarram numa série de dificuldades, assim como a simples “importação” de doutrinas e ideologias políticas – historicamente – parecem não “andar” muito, além de serem como um atestador de falta de criatividade intelectual e do mero provincianismo já velho nas terras brasileiras. Talvez seja necessário algo que surja de cá – podendo até ter uma forma herdeira do Além Mar – mas algo intuído do relâmpago sobre a planície pedregosa da Caatinga, ou do barulho dos riachos da Floresta, ou do vento soprando o capim nos Pampas… Mas enquanto tal coisa não se manifesta, nossa comunidade religiosa mais ampla se agrupa em torno de certas figuras políticas que lhe parecem, no melhor dos casos, defenderem algo que abarca suas posições políticas ou ideológicas em geral. E isto ocorre meio que “cegamente” ou de forma bem rasa. Claro, há quem diga que o nosso “projeto” político deve ser, simplesmente, abandonar o país – nós, religiosos indo-europeus, teríamos pois de migrar para nossos países de origem, integrando-nos lá, e pronto, o “Brazil” que se exploda. Bem, há quem diga muita coisa.

Não é incomum ver, por exemplo, Wiccans defendendo gente como um “Jean Willys” da vida, mesmo que o sujeito estejam num partido cuja ideologia possui vínculos com regimes ditatoriais (que inclusive no caso soviético, ao menos no período estalinista, perseguiu gays e criminalizou o comportamento homossexual) e defenda um complexo teórico materialista-histórico (que não só nega, por princípio, a possibilidade real do divino, como nega a validade das experiências religiosas e místicas, como, deterministicamente, põe toda religião como forma de alienação, distração da super-estrutura para ocultar a materialista e iconoclasta “realidade” da luta de classes). Geralmente fazem isto por defesa de causa própria (sendo gays, o que é compreensível) ou, no pior dos casos, por considerarem que tais sujeitos estejam realmente comprometidos com a laicidade e não somente com o enfrentamento daquilo que consideram o Inimigo – a bancada conservadora cristã, o lobby evangélico, etc. Não por estes defenderem um estado forte, menos democracia, ou algo assim (os evangélicos majoritários na política, são democratas, centristas e liberais em economia e mesmo existe tendências à Esquerda entre eles – pintá-los como “fascistas”, ou seja, anti-democratas, belicistas e promotores de um Estado máximo anti-liberal, é simplesmente tosco), mas simplesmente por condenarem, dentro de seus pontos de vista religiosos, o comportamento homossexual (sendo por isto, coerentes com suas doutrinas – sendo fundamentalistas), ou seja, a oposição se dá muito mais num nível pessoal que num que diga respeito às grandes questões da Pátria. Ou seja, uns defendem desejosos de comprar brigas alheias ou crerem que tal força representa uma oposição “forte” contra o que consideram o Inimigo “todo-poderoso”, seja inconscientemente, seja pelo “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Há também os que namoram com idéias libertárias e anarquistas, sem perceberem os conflitos destas com suas alegadas crenças “tradicionais” ou reconstrucionistas, ou ainda os que defendem, no pior dos reacionarismos capitalistas, deslumbres neoliberais de reductio ad oeconomicum, capitalizando tudo em dinheiro, consumo, comodidade e conforto “burguês” ad infinitum, sem a menor preocupação com a tribo mais ampla ou com os pais e descendentes, ou com o bosque mais próximo (que dizem tanto “adorar”), preso no quadrado mental solipicista da auri sacra fames da utopia virtual e da democracia do espetáculo.

Digressões a parte, o que há de posicionamentos mais inteligentes à Esquerda, pelo que vi até hoje, se dão por tática e não por concordância ideológica, já os posicionamentos menos inteligentes (e que no meu ver, devem ser criticados e rechaçados, por serem daninhos à própria comunidade e ao serviço religioso em si) se dão pela pressuposição de que há confluência de posicionamentos ou simplesmente pela ignorância dos pressupostos filosóficos e teóricos das doutrinas marxistas-leninistas clássicas. Só um pagão ignorante ou ingênuo abraçaria o marxismo, para não falar dos mal-intencionados, claro. No entanto, é possível coadunar algumas visões tradicionais com certas formas de “socialismo” (não o tal do “socialismo científico” do Marx, que de científico não tem nada, apesar de advogar uma base materialista quase positivista), desde que sejam um “socialismo” que tenha lugar para a religião (seja como fundamento de ordenação social, seja como manifestação inseparável da vida social), a identidade cultural e a crítica aos aspectos nefastos do liberal-capitalismo em seus pressupostos doutrinários. Por outro lado, os que estão mais à Direita, estão mais pelo aspecto de visão de Estado (os mais liberais, por Estado Mínimo, livre concorrência e liberdade em geral; ou mais nacionalistas, por Estado Forte e pela crença que o Estado deve instigar virtudes morais desde um ponto de vista marcial/aristocrático) do que pela moralidade cristã.

Se por um lado, se pode apontar claramente um incongruência ou falha gritante de princípios, a priori, nos que guinam à esquerda marxista, se pode, igualmente apontar uma certa fatalidade de consequências, a posteriori, dos que terminam por apoiar à direita moralista/conservadora cristã. Como já falamos noutra ocasião, há dois anos atrás, um “pagão” ser conservador (os tradicionalistas o são) é algo facilmente justificável filosoficamente (justificar-se um liberal economicista, à esquerda social ou à direita capitalista, é muito mais difícil), mas seu conservadorismo diferirá visivelmente do de um cristão em temas como Eutanásia, Pena de Morte, Condições de Aborto, etc. Se um pagão que apóia cegamente marxistas é uma espécie de estúpido que não enxerga contradições lógicas elementares, um que apóia cegamente fundamentalistas cristãos termina por atirar no próprio pé, quando não dá, ele próprio, o seu revolver para nele atirem.

Mas nos concentremos na eleição em si.

OK, podemos questionar as urnas eletrônicas. Sim, podemos sim, estando neste país e dado o rumo das coisas, não é idiota suspeitar de fraudes nas urnas. Talvez não se disponha de evidências sistematicamente conclusivas para condenarmos as urnas por completo (em todas as ocasiões), mas dizer que não se tem motivos de duvidar delas é ou um ato de fé ingênua ou de afirmação comprometida-militante com o atual Governo. Basicamente será uma eleição que determinará se o PT permanecerá ou se haverá, após 12 anos, alternância de poder. Daí que, no final das contas, será esta a grande contenda de fundo: a saída ou não do PT do governo. Vale lembrar a citação de Maquiavel acima, no início da postagem, é por isto que, realisticamente (sem moralismos), se verá as alianças mais suspeitas e as retóricas mais inflamadas. Vejamos os candidatos:

1. PT e PMDB candidatando-se a reeleição (para totalizarem 16 anos no poder), com o apoio do PSD, PP, PR, PROS, PDT, PCdoB e PRB . Temos pois uma candidatura de centro-esquerda (que promete, se eleita, guinar mais à Esquerda), com apoio de uma parte da Esquerda progressista (que tende ao centro em seus representantes mais liberais, incluindo os trabalhistas do PDT apesar da herança brizolista), da Esquerda “ortodoxa” (PCdoB) e do “Centrão”.

2. PSDB com o apoio do PMN, SD, DEM, PEN, PTN, PTB, PTC, PTdoB . Temos aqui uma candidatura de Centro, que aglutina o apoio de gente de Esquerda (sim, ou alguém acha que o sindicalista Paulinhho da Força, líder do “Solidariedade” não é de Esquerda? E o PMN? Sem contar que, ao contrário do propagandeado, o PSDB é de Esquerda, menos que o PT, claro, mesmo tendo namorado com o Neoliberalismo permanece como uma tendência de Centro-Esquerda) e da Direita liberal (DEM), assim como de gente próxima de alguma forma de terceira posição (PEN, os trabalhistas de passado nacionalista varguista, como o PTN, PTB e PTdoB).

3. PSB com Marina Silva de vice, com o apoio do PHS, PRP, PPS, PPL, PSL. Temos neste caso uma candidatura da Esquerda Progressista, quase Centrista (PSL, PRP), Social-Liberal, aglutinadora de algum setor da Esquerda “ortodoxa” (PPL) e estranhamente de um partido centrista que possui histórico monarquista (PHS).

4. Outras candidaturas: PSC – que aglutinará um setor considerável dos Evangélicos, o PV – que cada vez mais encarna seu esquerdismo universalista hippóide, as da extrema-esquerda: PSOL, PCB, PSTU E PCO – cada um com candidatura própria e a candidatura do PSDC.

Ou seja, teremos 10 candidaturas à Presidência do Brasil. Bem, o que isto nos mostra? Primeiro, mostra que há insatisfação com o atual governo e um apelo concreto pela rotatividade de poder. Segundo, que a Esquerda, como um todo, posição hegemônica na política partidária nacional está desunida – já não se entendem entre si os setores da extrema/periféricos nem os próximos ao centro. E é fato, o Governo desagrada tanto quem está a sua Direita (de setores da Esquerda Progressista, ao Centro, à Direita e terceiro posicionistas), quanto quem está ainda mais a sua Esquerda (setores da Esquerda “ortodoxa” e a Extrema-Esquerda); tal desunião, caso houvesse um maior peso da Direita partidária (tanto a liberal/neoliberal/libertária, quanto a conservadora/monarquista) ou de opções de terceira via (Nacionalistas e mesmo se ecologistas como o PEN seguissem como estão e se tornassem mais fortes), seria decisiva e uma real oportunidade de mudança. Mas não é o caso. Terceiro que o segundo turno será onde, realmente, as cartas serão postas na mesa e as apostas serão feitas na “vera”.

De um ponto de vista mais geral.

Pensando enquanto membro de uma minoria religiosa, estritamente, temos de considerar o possível crescimento dos Evangélicos e dos seus setores mais radicais. Não agora, creio que a candidatura do PSC, por enquanto, é apenas sintomática, mas, justamente, aponta para um futuro interessante onde um poder evangélico com reais condições de ganhar apareça forte. De um ponto de vista geral, as três candidaturas majoritárias (PT, PSDB e PSB) são, teoricamente, comprometidas com a Laicidade (para quem acha que o fato de “evanjas” apoiarem a Marina ou o PSDB contra o PT, são motivos para preocupação relativa a laicidade, lembrem-se que o que tivemos de mais próximo, de verdade, de uma afronta à laicidade que foi acordo do Brasil com o Vaticano deu-se no governo do PT, além de que o PT só ganhou, como Lula admitira em entrevista no final de 2002 começo de 2003, graças ao apoio dos setores progressitas da igreja católica ao PT; se hoje “se desentendem” amanhã poderão se entender de novo – o que não falta são Freis Betos e Leonardos Boffs da vida para intermediarem a retomada de laços) e não creio que, somente visando isto, se deva preferir uma a outra. Se os sujeitos das candidaturas menores ganhassem, aí sim, talvez houvesse preocupação (seja de eventual perseguição cristã fundamentalista encoberta pelo Estado contra minorias religiosas vistas como “demoníacas” ou “idólatras” – neste caso, talvez mais o PSC, não creio que o PSDC faria isto – seja de uma proibição atéia, de gênero soviético, vinda de um PCO, PCB ou PSTU da vida).

Talvez alguns protestem dizendo que o atual Governo (PT) estabeleceu comissões inter-religiosas e de combate aos preconceitos diversos, etc. De acordo com a cartilha politicamente correta da ONU e tal, etc. Bem, no nível estadual, o PSB fez isto cá na PB também – e talvez até mais que no nível federal, salvo as justas proporções, claro. Além de que parece improvável que os elementos pensantes e diretores do PSDB (que defendem pontos liberais clássicos, entre os quais a liberdade de comportamento e escolha religiosa, como um Fernando Henrique Cardoso da vida) resolvam, de repente, guinarem ao fundamentalismo evangélico do nada. Por outro lado, destes partidos, o PT é o que mais demonstra tendências populistas, estas sim, dispostas a atropelarem estes conceitos “elitistas” de Laicidade, Livre-pensamento, etc. (bandeiras muito mais sensíveis para setores esclarecidos da sociedade, como qualquer um pode verificar). O exemplo bolivariano é interessante neste quesito – Chaves justamente zombou do ateísmo de Marx, e do sentimento anti-religioso das elites esquerdistas, da intelligentsia “esclarecida”, tentando formular uma síntese política que aproveitasse o sentimento religioso de cunho messiânico direcionando-o num sentido de libertação política do “imperialismo yankee” e da afirmação de uma identidade sul-americana (parece que algo próximo disto, pelo menos no sentido populista de aproveitar o sentimento religioso da massa, é desejado pelo nordestino Mangabeira Unger para o Brasil) chamando setores “progressistas” (ou seja, filo-marxistas, como os ligados a Teologia da Libertação) da igreja católica e das protestantes para apoiarem a “revolução” (lembrando que, eventualmente, hostilizou os setores mais tradicionais e conservadores da igreja católica). Enfim, é um assunto complicado, mas pelo que vejo, ao menos nas três candidaturas majoritárias, não há ameaça séria ao nosso exercício e vivência religiosa, não mesmo; e mais, creio que alarmismos neste quesito em respeito a qualquer uma das três candidaturas majoritárias são muito mais “medinho” de gente histérica/covarde ou um artifício para desviar a atenção de outros quesitos.

Minha posição.

Escrever minha posição talvez seja expor-se desnecessariamente ou talvez sirva para levar alguém a crer, erroneamente, que viso direcionar votos, como se eu tivesse algum poder de sugestão em tais assuntos no público leitor, que é diminuto, diga-se de passagem. Mas vou arriscar-me, pois.

Particularmente, creio que a permanência do PT no governo é nocivo ao país, apesar de reconhecer que em termos de política externa, o PT tenha se comportado com um pouco mais de culhões (na era Lula) que o velho papel de capacho em forma de “gigante bobão” de sempre. Listar todos os motivos e pormenorizá-los é algo que tornará este artigo longo e que, no final das contas, não cabe aqui, o máximo que farei é ser bem “raso”, apenas para não ficar gratuita e completamente injustificada a posição. Internamente, creio que o PT deva ser responsabilizado diretamente pelo aumento absurdo da criminalidade (votei contra o Estatuto do Desarmamento, junto com meus pais e familiares e nunca esqueci a safadeza deste governo neste quesito) e pelo alto nível de vagabundagem assegurada pelo mal planejamento reinante do auxílio estatal nas pequenas cidades como na que vivo, pela repetição cretina de práticas que condenava quando era oposição, entre tantas outras coisas que contribuem para que o país afunde ainda mais. No âmbito da educação – onde trabalho – talvez os dois governos se compensem, apesar do PT ter investido mais na infra-estrutura das universidades federais e na criação de escolas técnicas que são, efetivamente, necessárias (neste quesito o PT se destaca, apesar do nível dos sujeitos que ingressam nas universidades ter caído). Em ambos (PT e PSDB) parece ter sobrado o desejo de “aparecer” em números, fazer coisa “pra-inglês-ver” e faltado o comprometimento radical com a educação de base (e com a Educação pública de qualidade, em geral), faltou um plano de Estado, um projeto sério, para a Educação. Minhas reservas em relação ao PSDB se dão, justamente, no nível da política externa e na maior tendência deste governo em ser “vendilhão da Pátria” em suas recaídas mal resolvidas de Neoliberalismo (não o vejo como mal absoluto, não me entendam mal). Ambos (PSDB e PT) demonstraram escândalos de corrupção altamente nocivos ao projeto de um Brasil forte (“privataria tucana” em geral e safadeza da Vale da Rio doce em particular; aos “mensalões” e a jogatina de cargos em geral e a brincadeira com a Petrobrás em particular), dentro de uma perspectiva mais nacionalista em relação aos recursos estratégicos do país. Por outro lado, o PSB não representa uma alternativa decente aos meus olhos, pois me parece que lhe falta “fibra”, e se tem alguma simpatia minha, o tem pelo regionalismo da figura de Eduardo Campos a quem a figura de Marina Silva, mais tirou do que acrescentou, para mim, volto a frisar. Se a candidatura do PSB tivesse aglutinado em si o trabalhismo de origem nacionalista, assim como a proposta ecologista do PEN, talvez tivesse mais indícios para crer numa real alternativa ao binômio PT-PSDB que está aí. E o pior, não me identifico com nenhuma das candidaturas pequenas.

Daí que para mim, a escolha será complicada e do tipo de “voto de nariz tapado”, estou ainda analisando. É possível que em cima da hora, vote em Campos. Não sei, terei alguns meses para considerar esta possibilidade ainda. Mas caso o segundo turno seja PT x PSDB, aí realmente me complico.

Finalizando

Foquei, neste momento, na presidência somente – mas tão importante quanto (ou dependendo do caso, talvez até mais) é o foco nos deputados e nos partidos dos mesmos; dependendo do resultado das eleições, a composição do senado e do congresso nacional podem tornar um governo inexequível (há quem diga que, especialmente, se o PT perder…), além, claro, dos governos estaduais. Estejamos atentos e não nos deixemos enganar.

Aparecendo brevemente

Saudações.

O blog está um tanto quanto desabitado pelos autores – e nisto, peço desculpas aos eventuais leitores que temos (que a julgar pelas estatísticas, não são muitos). Bem, estamos trabalhando e tocando nossas vidas profissionais, religiosas, familiares, etc. E nem sempre o tempo ou as circunstâncias adequadas à escrita cá surgem. Inclusive, por vezes, falando por mim, esboço algo e não posto, só depois (que pode ser semanas) leio, edito, apago ou finalmente posto. Venho cá, rapidinho, compartilhar uns pensamentos sobre alguns pontos.

Filosofia

Os grandes projetos estão ainda sendo gestados, particularmente, me refiro a três em especial – a um trabalho apologético do politeísmo, ao trabalho de exploração metafísica das raízes culturais do Nordeste e de uma interpretação Indo-Européia para a mesma (as bases do “Paganismo Armorial”, peça-chave para o quebra-cabeça da integralidade cultural dos politeístas indo-europeus do Nordeste) e ao trabalho de fundamentação filosófica (e reconstrução mítico-litúrgica) do Iberoceltismo em especial.

Este último, talvez, seja o trabalho mais difícil que enfrentei na vida, e mesmo sabendo que não estou só nele, é algo distinto, absolutamente, um autêntico (no meu ver) serviço religioso, serviço às divindades, que requer abnegação e disciplina, que requer aquela certa forma de vida contemplativa, que permita uma “iluminação”, que um saber que toque nos pilares perenes se manifeste. Não é coisa fácil, uma vez que construção discursiva científica-positivista (base das engrenagens metodológicas reconstrucionistas, ás vezes, invisíveis mesmo aos reconstrucionistas mais criteriosos) alguma permite alcançar tal âmago, uma vez que se trata não de elaborar um mero sistema filosófico-teológico “humano, demasiado humano”, mas de fazer-se manifestar uma luz sobre-humana, como o raio fulgurante por sobre a colina.

Política

Ano de eleições presidenciais no Brasil, o que traz à baila, uma politização de certos assuntos e mesmo de nossa pequena comunidade. De um ponto de vista mais filosófico, nos EUA há uma politização a la gouche dos setores mais “libertários” do Neopaganismo, defendendo uma hibridização de causas minoritárias arreligiosas com teologias neopagãs. E não será novidade ver muito em breve isto ser reproduzido acriticamente cá na “colônia”. Os sujeitos vociferam espumantes contra os radicais malucos que misturam Odinismo com Racialismo, por exemplo, mas, sem percepção alguma de anormalidade, buscam traçar implicações metafísicas entre suas concepções religiosas e ultra-modernismos como Feminismo radical, Teoria Queer, Anarquismo sindicalista, etc. Criticando a mistura de coisas nos outros, e ignorando (por má-fé ou real ignorância) a mistura que também fazem. Tal procedimento é paradigmático por explicitar o partidarismo ideológico (e talvez, a carência da percepção das divergências da Modernidade com o Mundo Antigo entre uma parcela considerável dos Neopagãos dos EUA), de que misturar a ideologia x (politicamente incorreta, “diabólica”/maléfica, fascista) não pode, mas as y, w e z pode (que são “do bem” na visão pseudo-angelical de mundo ultra-moderna do Humanismo laicista, do marxismo progressista, etc.), quando em ambos os casos tratam-se de misturas anacrônicas e/ou, em alguns casos, inconsistentes que deveriam ser igualmente problematizadas. Em todo caso, talvez por não tratar-se de racionalidade apenas, são assuntos espinhosos que causam certos incômodos, mesmo entre pessoas que se respeitam e se admiram.

No meu ver, isto tudo aponta, como que num augúrio, para a necessidade vindoura da construção de teorias políticas “pagãs” atuais, próprias, assentadas ou que dialoguem com a tradição política e religiosa dos povos indo-europeus do mundo antigo e, ao mesmo tempo, que nos mostre cenários futuros adequados; se tratariam, pois, de teorias realmente pós-modernas (e não meramente ultra-modernas, como tanto se vê), que realmente tivessem superado a modernidade, seja pela retenção sintética do pré-moderno, seja pelo futurismo assentado nos pilares atemporais das tradições religiosas indo-européias.

Fora tudo isso, há a sombra das eleições presidenciais se aproximando e com ela a necessidade de refletir e analisar, sob nosso ponto de vista, claro, as candidaturas e os projetos (quando os houverem, óbvio) dos candidatos. Eu pretendo aproveitar este blog para expor algo do que percebo sobre as candidaturas e as opções, mas vou esperar que as coisas se tornem mais claras nas semanas vindouras.

Parahyba

Finalmente o Inverno chega. Sim, nosso “inverno”. Aqui pelo brumal do Brejo parahybano o clima começa a ficar agradável e a vontade de estar ao ar livre aumenta (caso não haja as maravilhosas semanas de chuva sem interrupção – saudade destes tempos, faz anos que isto não ocorre) ainda mais. Devaneios climatológicos a parte, estamos precisando revitalizar a experiência dos comentários de notícias e, particularmente, estou desejoso de engajar-me numa produção cultural em breve; mas as coisas dependem de outros fatores, além de que os retornos dos programas de áudio foram poucos e o público deste blog só diminuiu – isto tem me feito pensar sobre o futuro deste blog também, confesso. A impressão de que se está falando/escrevendo para “paredes” não é das melhores, pelo menos não para mim.

Espero que com o Solstício de Inverno, tal impressão mude.

19 de Março

Saudações.

Noite do 19 de Março. Esta data é uma ilustração da sobrevivência e do caráter imorredouro do que o beatame chamará de “paganismo”. É um símbolo de Tradição que persiste, modificada no Tempo e no Espaço; uma prova do Paganismo Inconquistável (“a religião impossível de ser derrotada” segundo Guillaume Faye). Pelo Nordeste se celebra, sob o verniz católico, um dia augural para o Inverno e tudo o que este representa para o Sertanejo: fartura, colheita, trabalho na terra, etc. A associação popular com o tal São José é esporádica: nada há na mitologia bíblica neste personagem que o associe a Chuvas, Fartura e Lavouras. NADA. A associação como “padroeiro dos trabalhadores”, em sentido estrito, caberia muito mais aos trabalhadores de ofício manual especializado, artífices (carpinteiros, artesãos, etc.). Nada o liga à Chuva/Metereologia nem a fertilidade das colheitas vindouras. Então, como se explicaria tal fenômeno?

A percepção augural do tempo.

Que há certos dias que concentram em si o prenúncio de estações inteiras é uma concepção bem viva entre os povos célticos, como os registros e o folclore medieval facilmente atestam, seja nas ilhas britânicas, na Bretanha francesa ou nas zonas nortenhas de Portugal e Espanha. Claro, isto não é uma percepção unicamente dos Celtas, é algo comum entre os demais povos Indo-Europeus e mesmo entre os demais povos antigos/tribais/integrados com a Natureza. Tal percepção ainda viva no imaginário popular dos Nordestinos, herdeiros de eventuais raízes célticas via Galego-Portugalidade, percebeu no fluxo natural local tal marco. Esta associação não existiu na Europa, não veio de lá simplesmente. Somente uma percepção sedimentada e integrada na Bio-região cá, geração após geração, pôde identificar tal padrão imanente de uma indicação transcendente e pô-lo na prova do Tempo. Confirmou-se que, em boa parte das Bio-regiões nordestinas, a Véspera do Equinócio de Outono augura o Inverno. Por “coincidência”, tal Véspera caiu no dia que o calendário católico arbitrariamente destinou ao tal Santo. Uma percepção ancestral, “pagã”, manifesta em um símbolo cristão que aí estava, inócuo até então; o vitalismo pagão fez brilhar uma data cristã apagada. Algo novo surgiu, uma novidade antiga – entrelaçada ao Imanente.

As cerimônias da data.

Até o modus operandi do “agradecimento” ao Santo remonta às raízes pré-cristãs mais óbvias e indeléveis, depositadas profundamente no imaginário de nosso povo. A fogueira sacrificial, a procissão com o Ídolo e homenagem, as oferendas de adornos, flores, hinos e preces. A adivinhação do Inverno se soma ao rito de oferenda primicial, de propiciação agrária às futuras Colheitas. Inicia-se o ciclo do Milho – este nobre grão nativo, divinizado pela sabedoria indígena – inicia-se o tempo até o Solstício de Junho (até o São João, dirá o vulgo). Este é um dos casos em que o Cristianismo Popular mostra-se valioso e um veículo que, mesmo possuindo suas limitações, manifesta Luzes Perenes.

E nós, o que fazemos?

Repaganizamos, incorporamos esta manifestação autêntica em nossos calendários litúrgicos nordestinos. Não cabe aqui iniciar uma “cruzada” para esfregar na cara de católicos o paganismo manifesto da data, não se trata de buscar contraria-los em sua fé, ou de demonstrar arcaísmos e “impurezas” doutrinárias a quem tanto se diz puro e “evoluído” (é de notar que certos sujeitos, especialmente alguns neo-ateus e neo-pagãos adolescentes, se satisfazem com tais coisas, no fundo, regojizando-se inconscientemente por serem mais cristãos/”angelicais” e puritanos que os próprios cristãos!). Nada disto. Deixemo-los felizes lá, rogando ao Santo deles. Respeitemos esta manifestação, por mais que para nós ela nos pertença mais. Roguemos nós aos nossos deuses da Agricultura e/ou das Chuvas e estejamos cientes que nosso Nordeste contém tesouros, alguns escondidos, outros nem tanto.

Visões sobre o caminho do produtor

A obviedade da necessidade de produtores é tão gritante (pelo menos para quem vive e labuta para realizar projetos no mundo real) que não há muito a falar. Neste sentido, reunimos uns pensamentos curtos e simples que expressam algumas das ideias que acredito serem expostas para um número maior de pessoas e compartilhadas. São pensamentos e devem ser encarados como tal.

1. Se é vital ao paganismo contemporâneo o ressurgimento da classe guerreira, se pode falar ainda mais da classe produtiva. A base, o alicerce, a pedra grave e plana. O bloco rígido e rústico, massa volumosa e potente, construtora de impérios e exércitos, do que é grandioso e imponente, que manifesta a vontade de um povo, que constrói o destruído de novo e suporta uma ordem vigente. Precisamos de produtores: produtores de verdade.

2. Não tenhais por produtores de verdade meia-dúzia de “hippies”, que erradamente alguém relacionará como expoentes da nossa classe produtiva. Não. No passado como hoje, o produtor é o camponês, o trabalhador manual pesado (no nível mais baixo), o pequeno comerciante (no nível médio), artesãos, mestres de ofício, técnicos e talvez mesmo, músicos, artistas e poetas de baixo nível (no nível mais alto). São produtores, a classe prestadora de serviços, a classe industrial e a exploração dos recursos primários. Talvez mesmo, seja produtora a “elite” de engenheiros e “homens de negócios”, que nossa sociedade vê como equivalentes a sacerdotes e a intelectuais, os superando, muitas vezes, em prestígio. É necessário compreender que o grande empresário, suposto membro da elite, não é de “elite”, no sentido tradicional, mas o é somente no sentido “burguês”, ou seja da “elite econômica”. Ele é parte da classe produtiva, uma parte alienada pelo sonho e pela fantasia da “burguesia” e que se pensa diferente, ontologicamente, dos seus empregados.

3. É necessário iniciar a desocupação do mundo do trabalho, colonizado pelo Comunismo. É necessário ver, de modo sincero, sem preconceitos, as alternativas (Der Arbeiter de Ernst Jünger), é necessário também considerar e ver os substratos que o Marxismo trouxe consigo e que são valiosos. O paganismo necessita de uma teoria própria do trabalho, para agora, uma que parta da visão tradicional do trabalho e da reflexão filosófica desta (Política de Aristóteles, Íon de Platão, etc.) e transpasse o materialismo modernista (liberal e comunista) dos sindicatos e do mundo consumista. É necessário compreender novamente a lição ancestral de que o fim do Toque de Midas (o Capital Apátrida que tudo em que toca transforma em ouro, em mercadoria, desprovendo de espiritualidade, vida e valor transcendente) só se dará pelo retorno ao Sagrado, e não pela sua extirpação completa (como querem os Comunistas e como alguns Anarquistas, mesmo que não saibam, terminam trabalhando para).

4. Voltemos e olhemos para o nosso “passado”: as corporações de ofícios, as guildas, os arranjos e soluções do campo e da cidade. Lembremos, uma vez mais, que a grande virtude do Produtor é a temperança. O que o guerreiro tem na guerra o produtor tem no trabalho; esta é a sua guerra, este é o campo para que suas virtudes floresçam, sua via de ascese, para que se ilumine.

5. Nisto, na denúncia da eventual perversidade e alheiamento do mundo produtivo moderno e de como este é controlado por uma elite financeira que subjuga o mundo, há algo de valor nos socialistas que deve ser compreendido. Efetivamente, são os sujeitos que mais trabalharam para compreender os efeitos nocivos da economia moderna – o seus diagnósticos são valiosos, mas a receita dos remédios comunistas se mostraram aplicações de um veneno mortal. Talvez por erros de compreensão de como o capitalismo funciona, segundo advogam alguns (Ludwig von Mises e a Escola Austríaca), talvez pela sedução do messianismo utópico do “Reino dos Céus na Terra”, ou seja, por um erro de finalidade (que por sua vez, determina os meios, ao menos entre a Esquerda, vd. Moral e Revolução de Trotsky).

6. É necessário também, não cair na trama fácil do bode expiatório – antes os judeus, hoje os grandes magnatas como George Soros – pois, por mais que caibam em certas posições (e de fato, sejam responsáveis em alguns casos), não se pode subestimar a auri sacra fames, veneno que pode, a princípio, em menor ou maior grau, infectar qualquer sujeito em qualquer classe e de qualquer origem.

7. Precisamos, antes, de construtores, pedreiros, engenheiros. Precisamos retornar à construção de templos, altares, à transformação da ideia em matéria, matéria que condensa a força vital. Já há gente de bijouterias e hippies de artesanato medíocre, não é lá disso que precisamos. Precisamos de mestres, artesãos que produzam obras para a eternidade, imortalizem-se e elevem-se ao divino pela suas obras.

8. A ideia de uma comunidade religiosa autônoma necessita de produtores, fundamentalmente. Precisamos de uma comida plantada e colhida sob a égide de nossos deuses, de carne consagrada a eles, de casas e espaços construídos que reflitam nossas visões e compreensões, vestes, bebidas, instrumentos, utensílios, cultura material. Eis uma necessidade que torna um pedreiro pagão, hoje, mesmo que medíocre, mais útil que 10 blogueiros medíocres que repetem a ladainha do mais do mesmo.

9. Há muitas saídas interessantes hoje que, de certa forma, realizam os apontamentos, digamos, arqueofuturistas. Há muita coisa boa e aproveitável, seja entre as diversas profissões técnicas, seja na tecnologia que dispomos, seja nas técnicas e conhecimentos de permacultores, etc. Informação, há. Não é o que falta.

10. Muitos dos que se aproximam das nossas religiões talvez não disponham de uma natureza majoritariamente produtiva. Talvez, nestes anos, atraiamos mais sacerdotes/intelectuais, poucos guerreiros e poucos produtores – afinal, restaurações, tradicionalmente, começam de cima, formando uma “vanguarda”. Mas talvez não seja só isto – talvez haja muita gente confusa sobre sua real natureza, alienada de si mesmo, pela distância de uma vida saudável junto à Natureza, pela intoxicação ultramoderna das grandes cidades, pela fantasia da vida médio-burguesa e do comodismo santificado, o comodismo do consumo e da satisfação instantânea dos apetites. Talvez. Só quando se sai da caricatura, do faz de conta onde tudo se compra e rápido se faz, e se mergulha no real, onde nem tudo tem preço e onde o tempo requer disciplina inquebrantável, é que possamos saber bem as reais causas. Precisamos que se forme o contexto que liberte os sacerdotes – desobrigue-os de terem de exercer as artes produtivas e combativas, por carecerem os produtores e os combatentes. Precisamos que os produtores assumam sua produtividade, reconheçam que não são nem guerreiros, nem sacerdotes, ou melhor; reconheçam (pois se trata da natureza predominante) que são melhor produtores, que guerreiros ou sacerdotes.

11. Muitos povos conceberam que certos deuses presidem as atividades produtivas ou partes delas. É mister e essencial religá-los à concepção do trabalho em sua plenitude. Sem isto, repetir-se-á a ladainha profana da substituição dos poderes transcendentes pela “deificação” materialista do Consumo, do Mercado, Salário, da Marca. Não. Adoremos uma vez mais os deuses ligados à produção e ao comércio justo, direcionemos nossas mentes uma vez mais para o luminoso, retomemos a mística divina da transformação da matéria bruta em um arte, da verdadeira magia, da dimensão sagrada da produção, do “Segredo do Aço”. Não caiamos na ilusão do simulacro vazio, do ídolo oco, produto da mente semita. Não, reconsagremos a foice, o martelo, como a espada e o pergaminho! Uma vez mais, tenhamos as imagens de nossos deuses cunhadas em nossas moedas.

12. E nesta tarefa compreendei que o comunista (e suas variantes, incluindo os trotskistas e outras matizes de anarquistas) não estará conosco. O capitalista radical também não. Se vivemos, de fato, numa era onde o Trabalhador governa, é crucial estarmos cientes que tais saídas (que não são meramente políticas, mas constituem visões de mundo em si) não são decorrências naturais das visões dos nossos antepassados, mas algo diverso, derivado pela introdução de algo alógena. É dever do intelectual pagão esclarecer em que consiste o Trabalho no mundo pagão, o que consistiu no mundo católico (que teve lá suas simbioses com o pagão) e o que consistiu a partir da Reforma Protestante (Max Weber). Sem isto, o produtor corre o risco de ser esvaziado por dentro, corroído pelo materialismo radical (que se disfarça com desculpas a cada instante), do “tudo é dinheiro”, no final, “dinheiro é o que importa”, “ser um vencedor” nos moldes hollywoodianos do homem de negócios bem sucedido que despreza arrogantemente, e triunfantemente (num orgulho iconoclasta e profunda hybris), tudo o que não lhe rende dinheiro. Estes, enganam melhor por, supostamente, ainda preservarem um ethos de competição e suposto mérito, de concorrência e “guerra”, mas não. Não. Esta não é a deificação do produtor, sua exaltação não consiste nisto e não há moralismo escondido nesta atestação. Não nos iludamos pela propaganda dos idiotas úteis, seja do Grande Capital, seja do grande Embuste Comunista.

13. A exaltação do produtor se dá pelo exercício de sua virtude e pela perícia/excelência em seu ofício. Sem moralismos. Eis o que imortalizou Fídias, eis o que imortalizou Kalashnikov. Eis o que deve-se mirar: a obra, a posteridade – faz para o futuro, no presente. Eis a chave do aforismo de Horácio (seguindo Hipócrates) ars longa, uita breuis, ars como τεχνή, fundamentalmente. E isto só se dá melhor quando a produção não visa a obsolescência programada, isto só se dá, quando se produz de um modo não-capitalista (mesmo que dentro de um sistema formalmente capitalista). Quando se segue na via da excelência, o produtor alcança o status de Mestre de Ofício, equiparando-se em prestígios, nos tempos de nossos ancestrais, aos mais altos dos sacerdotes/intelectuais e dos guerreiros. Tanto que em algumas sociedades, uma nova “classe” se formava, da emancipação dos trabalhadores especializados, de sua diferenciação dos trabalhadores comuns e campesinos, de sua individuação da massa uniforme e anônima. Eis os Áes Dana, eis a origem dos Vaishyas. Eis a verdadeira emancipação pelo trabalho, para o horror da retórica marxista.

14. É importante sabermos sobre o mito e a áurea de santidade criada em torno do produtor e do povão em geral. O produtor é quem compõe a plebe, a massa, o povão. Como já apontamos noutros textos, inicialmente, era compreensível a visão do “bon sauvage” do Rousseau no camponês rústico e analfabeto como um contrapeso a afeminização da nobreza francesa. Mas a coisa perdeu o sentido e o Produtor foi transformado pelo idealismo socialista num ser perfeito, numa classe santa e sempre certa, incólume e sempre injustiçada, explorada e maltratada. De repente, o Produtor tornou-se a medida do que existe: sua necessidade é a necessidade, sua visão, a visão, sua queixa, a queixa. Como o Reino dos Céus é prometido ao “pobre” no Cristianismo, de repente, o Mundo é prometido ao “produtor”, com a diferença de que no Cristianismo, ao menos, o pobre é pecador por natureza, enquanto que o “produtor” não parece padecer de nenhum vício – se por acaso se contesta um, tem sempre origem noutra coisa que não nele (na burguesia, na alienação da superestrutura, na falta de oportunidades, etc.). Não, o Produtor possui também suas características nefastas (como o Sacerdote e o Guerreiro), não é um “santo” completamente isento de defeitos e responsabilidades, nem um condenado que precisa se redimir no Além. Não tomemos a visão religiosa alheia como nossa (mesmo quando ela se passa por pseudo-científica e ateísta), resgatemos a nossa própria.

15. É de espantar que nossas religiões tenham o público que atualmente possuem. É de espantar. Talvez de causar preocupação, mas também, talvez, de esperança. Devíamos estar ocupando os campos, mas não abandonando a polis por completo – criando fortalezas nestas, mas, mais ainda, criando raízes, respirando bem, repaganizando o pagus. É necessário ter ciência do movimento tático. Que estendamos os galhos por sobre o asfalto, mas que nutramo-nos na terra fértil e nas águas límpidas. As árvores que crescem sob a poluição e a fumaça tóxica, cada vez mais demonstram um deformação congênita (umas horas no Facebook o demonstram para qualquer um), uma espécie de atrofiamento, cada vez mais aspiram ser plástico, mero plástico ornamental. Por isto é que é importante certa seletividade, precisamos dos melhores, mais que nunca, para nos organizarmos conforme a natureza e para evitarmos a “plastificação”. Para que não nos seja retirado toda capacidade de reação, de mobilização, para que não nos tornemos um enfeite exótico e manso, inofensivo e morto, um animal empalhado.

16. Roguemos aos Poderosos, sacrifiquemos e libemos. Trabalhemos para (re-)erguer templos mais do que blogs, multipliquemos estátuas, mais que “curtidas”, cultivemos mais jardins e campos que memes engraçadinhos, voltemos também ao mundo concreto do Produtor.