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Lugunassats

311. Tailtiu imorro, ingen Mag Móir ríg Espáne. ban-rígan Fer mBolg, tánie-side íar eur áir Fer mBolg issin chét chath Maige Tuired eo Ciall Cuan, 7 slechtaither le in chaill, cor bo mag seothemrach ria eind bliadna. Is hí in Tailtiu-sa ba ben Echach meic Eirc, ríg Hérinn, co ro marbsat Túatha Dé Danann é. Is é Mac Eirc dosfue a Hespáin ó hathair, .i. ó Mag Mór Mall ríg Hespáne. Taltiu trá, ro thresbastar i Tailtin, ra fái re Eocho nGarb mac Duach Daill de Túathaib Dé Danann, 7 dorat Cian mac Déin Checht, .i. Scal Balb ainm aile do, a mac di for altrom .i. Lug. Eithne ingem Balair Bailcbeimnig a mathair-side. Conerbailt iarsain Tailtiu gi Taltin, co tartdad a hainm fuirri, 7 conid hí a fhert fil ond fhorud Thailten sáirthúaid: condénta a cluiche cacha bliadain ic Lug. .i. cóicthiges ria Lugnasad 7 cóicthiges íar Lugnasad. Lugnasad, .i. noasad Loga meic Eithnend, ainm in chluiche.

“Como para Taltiu, filha de Mag Mór rei da Hispânia, rainha dos Fir Bolg ela veio primeiro à batalha de Mag Tuired para Coill Cuan, e o bosque foi limpo por ela, de modo que era uma planície florida de pasto antes do fim do ano. É que Tailtiu era a mulher de Eochu filho de Erc, rei da Irlanda, até que os Tuatha Dé Danann o matassem. É que Mac Erc que a tomou da Hispânia de seu pai, i.e. Mag Mór Lento, rei da Hispânia. Assim como para Taltiu, sentou-se em Taltiu [n.t.: o lugar], e dormiu com Eochu Garb filho de Dui Dall dos Tuatha Dé Danann, e deu Cian filho de Dian Cecht, i.e. Scal Baln [que é] outro nome para [ele], seu filho sobre adoção i.e. Lug. Eithne filha de Balor Forte-Ferreador era sua mãe. Logo depois, Taltiu morreu em Tailtiu [o lugar], e seu nome foi imposto no lugar, e é sua cova que está a nordeste do Assento de Taltiu: jogos foram feitos a cada ano por Lug, i.e. a quinzena antes do Lugnasad antes do Lugnasad e a quinzena depois do Lugnasad¹, i.e. o Ajuntamento de Lug filho de Eithnend, nome dos jogos.”

¹Outra versão: “Lugnasad, .i. aurdach nó sollomain Loga: unde Oengus post multum tempus dicebat: Nassad Logha, no nasad Beóain Melláin“, ou seja “Lugnasad, i.e. festival ou reunião-geral de Lug: unde Oegus após muito tempo disse: o Nassad the Lug, ou o nasad the Beóan de Mellan”.

(MACALISTER, R. A. S. Lebor Gabála Érenn. pt. IV. Dublin: Irish Text Society, 1941. p. 114-116)

Lúgnasad .i. cluiche no oenach is do is ainm násad .i. aurtach no cluiche Loga maic Ethne (no Ethlend) norfertha lais um thaide fogamair.

Lúgnasad i.e. um jogo ou feira, doravante nomeada nasad i.e. um festival ou jogo de Lug mac Ethne ou Ethlenn, o qual era celebrado no começo do outono.”

(STOKES, W. Three Irish Glossaries. London: Williams and Norgate, 1962. p. 26. et O’DONOVAN. Sanas Chormaic: Cormac’s Glossary. Calcutta: O. T. Cutter, 1868. p. 99)

Proto-céltico: *Lugu-nadsatV > “o atamento, ajuntamento [isto poderia designar desde casamentos até reuniões, assembléias, etc.] de Lugus”, *nad-satV vindo do verbo *nad-sko-, “atar, unir”.

Na Irlanda, esta data marcava a colheita num sentido amplo. Muitas orações e cerimonias eram feitas para garantir uma colheita isenta de dificuldades, inclusive no sentido “mágico”. Feiras diversas eram feitas, como a Feira do Puck em Killorglin, a de Tailtiu em Midhe ou a Feira de Lammas em Ballycastle, onde tecidos, animais e alimentos eram negociados, poetas e artístas apresentavam-se. Grupos de pessoas faziam procissões e excursões a colinas e outeiros, bosques ou margens de lagos, passando o dia ao ar livre em refeições comunitárias, música e dança. Em alguns lugares fogueiras eram acesas, assim como eram feitos bonecos de palha que enfeitados eram queimados após certos encantamentos (geralmente relacionados com as práticas mágicas das colheitas e do “encurralamento” do espírito do grão). Em muitos lugares eram realizadas competições e jogos como corridas de cavalos, mulheres ou competições de eloquência, poesia; contratos e aluguéis eram fechados, assim como casamentos temporários e outras divergências/acordos legais.

Ao que tudo indica, no mundo continental as coisas ocorriam de modo semelhante. Cabe ressalatar que o Consilium Galliarum convocado por Augustus ocorreum nas calendas de Augustus (1º de agosto) em Lugudunon, atual Lyon, nesta data todas as Gálias se reuniam em assembléia sob a direção de Roma, para ajuste de taxas, sacrifícios e supõe-se competições e jogos festivos.

DANAHER, Kevin. Irish folk tradition and the celtic calendar. In: O’DRISCOLL, R. The Celtic Consciousness. New York: George Braziller, 1981.
LAUNAY, Olivier. A civilização dos Celtas. Tradução não especificada. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1978.

E aqui, na Paraíba?

Em poucos lugares que conheço há colheitas nesta época. Em todo caso, quando as há, são as primeiras, geralmente de mandioca, feijão e fava. Evidentemente, isto depende de região para região. Em todo caso, tradionalmente, a parte “mágica” do rito, grosso modo, diz respeito principalmente as bênçãos/proteção das colheitas. Neste sentido, por aqui este aspecto fica um pouco reticente. Podemos regalar isto para o campo simbólico (colheita de ideias, projetos, planos), ligar com as primeiras colheitas de alimentos de necessidade imediata, onde houverem, ou (como tenho feito, nos últimos anos) atribuir ao rito uma dimensão mais sacrifical, de “graças” pela chuva, que por sua vez propiciará o plantio e a colheita, além de água para subsistência, o não-perecimento. Num geral, como sempre na maneira céltica de ver as coisas, lugares altos são preferidos, como colinas; também seria interessante procissões ao local, ou uma simples caminhada. Talvez coubesse também, incorporar as práticas folclóricas nordestinas de divinação do tempo, como a advinhação de chuva por pedras de sal (herança galega, e possivelmente céltica) em uma mesa redonda ou bacia, por exemplo.

O aspecto mais “sóciocultural” da festa, é algo que, pelo menos como temos observado nos últimos anos, é relegado para segundo plano, quando muito. Ao nosso ver, isto é um erro oriundo de uma má conpreensão do caráter da data e da importância do folclore. Há muito que anseamos em organizar uma espécie de ‘Batalha campal’ nesta data, mas do jeito que as coisas estão… enquanto alguns não perceberem que seus “não-me-toques-de preferência de rótulo” só atrazam, a coisa aqui pelo interior da PB ainda vai demorar para andar de maneira séria. Mas, voltando ao assunto, podem ser feitos vários jogos: arremesso de pedras, corridas, cabos de força, ou mesmo uma partida de futebol! Charadas mitológicas, concurso de poesias improvisadas (creio que o ideal seja um concurso de Cantadores Repentistas) ou outros “jogos mentais” como o xadrez (cabe ressaltar que a “invenção” do fidchell irlandês é atribuída à Lug); também seria interessante passar o dia todo fora, ao ar livre, seja num piquenique ou pelos sítios.

Aproveitem a data!

O Sol é um dos grandes responsáveis pela vida na Terra. Dos grandes MESMO. Sem ele não haveria fotossíntese nem produção de oxigênio suficiente para a formação da atmosfera (na verdade não haveria fotossíntese!) que tornou a vida dos tipos de seres dos quais descendemos possível, ainda hoje. Sem o Sol provavelmente nos alimentaríamos de rochas e gelo e não estaríamos aqui no WordPress©. Isto é um fato.

Por mais que se considere que não há inteligência nenhuma por trás do Sol (o que é razoável se pensarmos que inteligências implicam necessariamente em sistemas nervosos como os do animais e principalmente os de última geração como os nossos), honrá-lo não me parece uma tolice. Acredito que é mais racional honrá-lo do que a qualquer entidade única, abstrata, invisível e fruto de uma cultura marginal da Palestina que teria criado o Sol. Por mais que o Sol tenha se originado de algo, não temos evidências para pensar que fora justamente esta criatura postulada por uma comunidade marginal Palestina que o teria criado (muitas outras culturas postularam criadores diferentes e igualmente válidos, e alguns nem sequer postularam criadores).

Quando se considera a piedade (no sentido antigo do termo, não no sentido cristão) e o sentimento de veneração religiosa como uma relação de troca interesseira e mesquinha, pautada na falsidade e na vantagem unicamente, talvez não se veja motivos para se prestar homenagens à certas entidades cuja certeza de que nos beneficiam não temos, ou de que ouvirão nossas preces e nos beneficiarão em algo. Este raciocínio é o raciocínio típico do avarento: se não terei vantagem ou lucro disto, por que devo fazer? Geralmente este tipo de gente não percebe que já está “lucrando” em estar vivo. E por mais que disseste: “mas milhões de outros seres também estão vivos o que torna isto uma trivialidade e não um milagre”. Por mais que este argumento ponha de lado um egocentrismo antes defendido (“se não ME traz vantagem, então…”), ele falha tanto por 1) utilizar como critério para a trivialidade o recurso à existência de vários seres (a grande maioria deles, principalmente dos visíveis, dependem do Sol) o que não é uma implicação logicamente válida (vários seres podem existir, sem que VOCÊ – produto de seu pai e mãe no instante x sob as condições y que permitiram exatamente o espermatozóide z fecundar o óvulo – , tenha que existir necessariamente – o que torna razoável pensar que se sua existência específica não é um milagre – ou no mínimo algo belo e interessante para você mesmo – ela também não é uma tolice).
E 2) por ele não negar a importância do Sol no processo de existência na Terra, mas antes realizar uma manobra para mostrar que render homenagens ao Sol é desnecessário, dispensável e tolo. Pelos outros seres não mostrarem o mínimo sinal (de acordo com o que consideramos “sinais”) de reverência pelo Sol por que deveríamos mostrar? Por mais que isto seja fato (coisa que não me parece seguro dizer, não por esoterismos quaisquer, mas pelo simples fato de que não dispomos de critérios para interpretar possíveis evidências disto), também não temos evidências de que os outros seres entendem racionalmente o funcionamento da natureza (e a importância do Sol no processo) a ponto de reproduzirem fenômenos (como a eletricidade que funciona este computador) e postularem teorias empiricamente prováveis a seu respeito. No entanto, não dizemos que desistiremos de fabricar computadores pelo fato dos outros seres não serem capazes de produzir um pentium 4. Ou seja, justamente por conhecermos racionalmente a importância do Sol que faz sentido honrá-lo.
Para entender melhor o que digo por “honrá-lo” citarei o romano Marcus T. Cicero:

“In specie autem fictae simulationis sicut reliquae virtutes item pietas inesse non potest” (De Natura Deorum, 3)
“Em espécie, no entanto, a piedade não pode encontrar-se, como as virtudes restantes, do mesmo modo de fingida simulação”.

As virtudes têm por fim a si mesmas, buscar realizá-las é como buscar realizar atos éticos. O mundo pagão antigo no geral considerava a piedade e reverência religiosa como uma virtude. Por mais que reconheçamos que há espaço sim para a “fingida simulação” ou para o “dou, única e exclusivamente, para ficares me devendo” (que cabe ressaltar, difere do puro ‘dou para que dês’), a questão não é essa; mas simplesmente delimitar temporalmente de acordo com convenções tradicionais o simbolizar da ação de agradecimento pelo decurso do curso do Sol. Não nos interessa entrar nos pormenores psicanalíticos ou “subconcientitantes” para buscar relacionar tais ações simbólicas com a saúde mental do indivíduo pós-moderno em seu reconhecimento na Natureza; não temos a mínima competência nisso. O ponto aqui é bem simples: não parece sábio negar a importância do Sol para a vida na Terra e para NOSSA vida na Terra. Honrar o Sol em um determinado dia do ano devido a sua importância parece bem razoável, independente do Sol saber se o honramos ou não. Na verdade honrar o Sol faz mais sentido do que o Deus Judaico-Cristão, por exemplo. E ao menos que rechacemos todas as práticas de homenagens ao Deus Judaico-Cristão et similis em nossa sociedade e no mundo todo, não faz sentido rechaçar tal homenagem ao Sol. Ok, há a opção de rechaçá-las todas em conjunto, mesmo desconsiderando prováveis níveis de racionalidade ou de pragmatismo. É uma opção. Não me cabe valorá-la moralmente como uma “boa opção” ou “má opção”, pelo menos por hora.  Antes que alguém diga: “mas porque devo rechaçá-las todas?”, adianto:
Postularmos inteligências não-materiais é algo desaconselhável do ponto de vista das provas empíricas. Pelo simples fato, de que – como já citamos acima – um dos principais argumentos contra isso (por parte dos materialistas empiristas radicais) é que não dispomos de evidências para pensar em uma inteligência sem um sistema nervoso (materialmente composto e funcionando a base de reações químicas e eletricidade – coisas “materiais”). Neste ponto, pensar desde um deus até um fantasma “inteligente” ou consciente se torna uma questão de fé. O materialista empírico-radical dirá “não é razoável se quer, de acordo com nosso conhecimento da Natureza, pensar em inteligências espirituais de qualquer tipo”. Qualquer tipo de religioso pode retrucar “mas a ciência dos homens ainda não desvendou os segredos da Natureza” e o mais radical e entusiástico “e nem desvendará!”.
Logo, é razoável dizer que ou um evangélico, por exemplo, aceita a existência do seu deus e, no mínimo, a alta probabilidade da existência de outros seres “espirituais” inteligentes (e quem sabe entre eles, deuses) ou ele se torna um ateu teórico. Caso ele aceite isto (que como evangélico é óbvio que o fará), com qual critério ele dirá que não há existência espiritual inteligente no Sol (que é visível) mas há em um ser que ninguém nunca viu e que cuja existência é postulada por uma comunidade marginal da palestina que conseguiu convencer a ferro e artimanhas políticas a Europa? Claro, ele terá de explicar isto sem recorrer à Bíblia, pois do contrário, incorreria em uma petição de princípio (daria como demonstrado justamente o que desejaria provar). Por isto, que digo que ou se rechaça todas as postulações “espirituais” ou se aceita que postular “inteligência” para o Sol e outras entidades visíveis é razoável. Ah, cabe notar que os primeiros cristãos, não negavam a existência dos deuses Romanos por exemplo. Eles se negavam a reconhecê-los como “deuses” (eles subiram o critério para tal de um modo muito confuso e estranho, mas isto é outra história); mas acreditavam na existência deles, nem que fosse como “demônios”.

Por mais que o Sol tenha sido honrado em quase todas as culturas e povos que existiram no mundo (digo ‘quase’ todas, por desconfiar que tenha sido todas), para nós nordestinos em geral há certa relutância. O Sol aqui é uma força destruidoramente poderosa. No auge do Sol, no dia mais longo do ano, no Solstício de Verão, em Dezembro o Sol é, em muitas regiões do Nordeste, um ser não tão querido. No entanto, seu poder altíssimo é reconhecido, com certa tristeza em alguns lugares, mas o é. Não podemos enfrentá-lo diretamente, pelo menos não em macro-escala, vivemos lutas diárias (se é que alguém o combate) em micro-escala. Ainda sim ele nos enche a vista abrasadoramente. No Solstício de Verão no mundo Indo-Europeu, o Sol fertilizador é celebrado (apesar do mundo Indo-Europeu reconhecer seu poder de destruição) no mês de Junho (de onde pensas que veio o São João?) e sua partida é um tanto sentida. Aqui, penso que seu auge é o momento de reconhecermos solenemente seu poder indomável e destruidor, vitorioso que coloca sob seu jugo não só animais e plantas, mas o próprio sertanejo. É uma época de se louvar os que sobrevivem, os fortes, uma época de um vigor abrasivo e flamejante. Neste ínterim, me parece interessante prestar homenagens às chuvas esparsas que permitem a sobrevivência, a floração e frutificação de certas árvores em muitas regiões (brejeiros e curimataúenses entendem que me refiro às Chuvas do Caju). E claro, também é uma época de se celebrar sua brandura no porvir, pois após o Solstício, os dias encurtarão até se equalizarem no equinócio e o Trovão e o Raio sacudirão o céu.

Creio que a maioria dos pagãos sabe muito bem que o Natal é uma festa Pagã. Ao contrário da música chata (eu acho ela muito chata, mesmo sendo uma versão de John Lennon!) da Simone, o Natal não é Cristão em origem. Se tornou Cristão forçadamente. O próprio papa (o santo encarnado e representante maior de Deus para os católicos do mundo) passado, João Paulo II, reconheceu isto em seu pronunciamento oficial de Natal no Vaticano em 2000. Ele repetiu quase que ipsis literis as palavras de São Patrício, dizendo que os romanos e pagãos celebravam o nascimento do Sol enquanto os cristãos celebram o nascimento do sol deles: Jesus. Sería realmente interessante se tivéssemos dois sóis, o nosso e o cristãos o deles; mas sem entrar em detalhes e sem expor críticas, continuemos. Prova é que os maiores símbolos do Natal ainda são pagãos: o Papai Noel e a Árvore (pinheiro ou parecida com um pinheiro) de Natal. Todos os dois símbolos têm origem nas celebrações do Solstício de Inverno do Norte da Europa. Sem contar a brancura da neve, as roupas pesadas de inverno…

No geral, por razóes óbvias, o modelo sazonal europeu está incrustado em nossas mentes. Tem gente que chega perto de ver nevando em plena Caatinga de Cabaceiras em Dezembro, só de pensar no Natal. O chocalho dos bodes lembra as renas. Sem falar do roupão vermelho felpudo e grosso de Papai Noel (nestas horas a pessoa se pergunta sobre a força dos poderes da mente). O pinheiro, sempre verde mesmo debaixo das maiores nevascas e sob as temperaturas mais baixas, é o símbolo da vida que permanece encoberta pela alva neve. No hemisfério norte, em tempos tão gelados (principalmente onde neva muito e sair de casa não é tão fácil assim) é natural que a celebração seja voltada aos sentimentos familiares, caseiros e de calor humano. Algum CALOR é necessário! Seria um ótimo indício do Fim dos Tempos (que poderia ter sido aproveitado naquele filme 2010) nevar em Cabaceiras no dia 25 de Dezembro. E aqui?

Alguns Neopagãos teimam (essa é a palavra) em celebrar o Solstício de Verão como sendo um Solstício de Inverno. Eu sinceramente não entendo como eles conseguem isto. Pra começar, aqui não é frio. Não neva. Não é inverno. A morte branca e gelada não ceifa nossos campos e adormece nossa vegetação e animais. Ok, alguém pode dizer: “mas o SOL esbranquiça nossos campos e adormece nossa vegetação”. Isto é uma inverdade. Muitas árvores estão florindo nesta época. Mesmo nas regiões mais quentes do Estado. Basta um simples passeio ao Cariri ou Sertão para constatar isto. Ok, também é verdade que nas regiões mais secas, algumas árvores adotam a tática de se desfazerem da folhagem para evitar a evaporação dos líquidos, esbranquiçando as matas (Caa-tinga). Nossa vegetação não está totalmente adormecida, penso que nem 50%. grande parte mesmo das plantas que perdem as folhas, espalham suas sementes nesta época: precisam fazer isto no momento certo para aumentar as chances de sobrevivência e disseminarem mais descendentes por ai que crecerão com as chuvas (precisam crescer durante as chuvas para sobreviverem à seca vindoura). Isto não acontece durante o Inverno europeu, pelo menos que eu saiba. Grande parte dos animais, principalemte os de climas mais secos, nesta época estão ativos: tejús, jararacas, tatu-pebas, etc e mesmo pássaros. Ok, dizer que nosso verão é como o europeu é um exagero, mas dizer que nosso verão é como o inverno europeu é outro. O nosso verão é o nosso Verão é penso que é bom começarmos a vê-lo assim. Principalmente que o “nós” envolvido na frase aí, é o de pessoas que buscam integração e respeito com os ciclos sazonais e a bio-região, mesmo partindo de matrizes européias.

Câmara Cascudo?

Luís da Câmara Cascudo do estado irmão vizinho nosso ao norte, é um autor que os pagãos paraibanos e norte-riograndenses devem ler. E não só ler, mas aproveitar.
Em termos políticos, foi um homem monarquista (posição relativamente “tradicional” no sertão nordestino), depois integralista, posições que se explicam em sua oposição ao marxismo. Particularmente, considero este um dos grandes problemas dele: era “brasileiro” demais. O sentimento de “integridade” nacional fica bastante abalado e evidente em um texto como ‘Vaqueiros e Cantadores’ (que diga-se de passagem, simplesmente muito bom) e ele parece forçar a barra quando em um texto como ‘Contos tradicionais do Brasil’ se refira à ‘do Brasil’. Qualquer um que foliar as páginas percebe que os contos são da Paraíba e principalmente do Rio Grande do Norte. Há nem meia dúzia de contos do sul. Apesar de necessitarmos de um espaço para textos mais “políticos” aqui, deixemos esta questão de lado, afinal posições “separatistas” ainda soam um “pecado”/blasfêmia para muita gente.
Voltando aos textos, me aterei ao acima citado: ‘Contos Tradicionais do Brasil’. Alguns contos como ‘Os compadres corcundas’, ‘A princesa de Bambuluá’ e a ‘Princesa e o Gigante’, assim como grande parte dos Contos de Encantamento, ecoam as narrativas medievais à la Mabinogion. Claro, mas destituidos das caracterizações mitológicas mais abrangentes que as tornam parte de um sistema. Em todo caso, grande parte dos contos são incrivelmente pagãos e muitos são facilmente “isoláveis” do cristianismo medieval incrsutado. Há presença de encontros com o ‘povo das fadas’ análogos com vários contos das narrativas célticas insulares, por exemplo; as circunstâncias e consequências são simplesmente inspiradores.
Penso que ‘repaganizar’ tais contos para utilizá-los como são tradicionalmente utilizados, na formação de nossos filhos, é algo de extrema valia. É harmonizar o Regionalismo com a Tradição pagã ancestral. É um projeto longo, e não penso que seja necessário escrever volumes densos para justificar tal manobra em termos teóricos e inatacáveis. Apenas gostaria de chamar atenção do povo Neopagão da Paraíba e de nossos irmãos do RN para a rica tradição recolhida pelo Sr. Câmara Cascudo.

É um tópico relativamente consensual no Neopaganismo o não sacrifício animal. Não é difícil encontrar os argumentos a favor disto, autores a fora. O principal argumento que temos encontrado pode ser formulado da seguinte forma, obviamente considerando os similares e suas variações: toda vida é sagrada, pessoal e intrasferível. Ora violar o que é sagrado é uma profanação, violar o que é pessoal é um desrespeito arbitrário assim como o que é intransferível. Matar é uma violação da vida, logo é uma profanação e um desrespeito arbitrário.
Inclusive é corrente utilizar como critério de diferenciação entre o que pode ser chamado de Neopaganismo e de Paganismo a não execução de sacrifícios animais. Apartando as práticas Neopagãs das práticas das religiões étnicas tradicionais, dos cultos de matriz africana, etc.

Evidentemente que aqui não trataremos dos pormenores deste argumentos e de suas variantes. Seria muito interessante buscarmos as origens deste argumento no Neopaganismo, mas isto é um trabalho que no momento deixaremos de lado. Mas perguntamos, em que medida isto é coerente com o paganismo antigo ocidental e em que medida isto pode ser seguido.
Para a primeira pergunta, uma resposta satisfatória demandaria uma pesquisa história muito extensa em ampla. Por paganismo antigo ocidental, nos referimos as crenças pré-cristãs dos povos que habitavam a Europa ocidental, em especial ao mundo greco-romano, germânico, celta e relacionados. Bem, vamos tratar de maneira ampla. A totalidade destes povos realizavam sacrifícios animais como práticas religiosas corretas e metafisicamente fundamentadas. Basta recorrer ao mito grego dos ardis de Prometeu e do primeiro sacrifício (VERNANT, 2006, p. 61) por exemplo para se ter uma idéia do aparato simbólico-discursivo (poderíamos, simplesmente, dizer “mágico”) em cima do sacrifício. Não entraremos nos pormenores.

Havia exceções? Sim, no mundo Europeu, se considera estas exceções em última análise como influência oriental. No geral, a abstinência do sacrifício animal e da eventual refeição comunitária com a carne do animal sacrificado, se relaciona as correntes de mistérios gregas, Orfismo, Pitagorismo e seus desdobramentos, revivências e reinterpretações. Nestas “linhas” – um tanto marginais à religião cívica do mundo grego (ibid. p. 69 ou BURKERT, 1993, p. 572) – o sacrifício de “sangue” é considerado “impuro” (VERNANT, 2006, p. 55). A ligação entre sangue e impureza é muito clara no imaginário cristão, e de alguma forma tem lá suas semelhanças com isto.

No geral, muitos dos envolvidos com o Neopaganismo desconhecem a natureza dos sacrifícios do paganismo antigo. Porque ignoram de fato ou por que não desejam sabê-lo. No mundo greco-romano, a primeira esguichada de sangue ainda quente que espirra sobre o altar, muitas vezes acompanhado como no caso grego de um grito ritual ou de uma canção solene, tinha uma importância metafísica crucial. Assim como a decoração dos templos com ossadas de animais sacrificados. Quando o sacrifico era de grandes animais – quem já viu um boi sendo morto pode imaginar a quantidade de sangue – exigia dos sacerdotes verdadeira habilidade no manuseio dos instrumentos para a realização do sacrifício e mesmo no corte da carne (pois muitas partes eram dedicadas aos deuses, ou deuses específicos). Quando tratamos de sacrifícios humanos então, geralmente uma sensação de repulsa nos abate. O mundo Indo-Europeu não tinha a prática de canibalismo como corrente, como entre os nativos daqui (o que não quer dizer que não tenha ocorrido em alguma parte). Imaginar cabeças decepadas encaixadas em estruturas de paredes de santuários, ou corpos em decomposição enforcados em bosques sagrados, não nos parece agradável nem muito “religioso”. Ou mesmo a prática sarmácia do patricídio, legitimada religiosamente.

Antes que alguém comece a se perguntar se defendo estas práticas atualmente, digo, geralmente, que não. Em alguns casos talvez isto funcione socialmente. Quando a mídia paraibana foi tomada pela notícia do assassinato de uma família quase toda por um casal em João Pessoa, onde os assassinos mataram crianças retalhando-as com um facão, o sentimento do estado era de ver o casal de assassinos mortos, preferencialmente por meios de suplícios. Claro, muitos cristãos – realmente cristãos – os perdoaram e tal, bastava um arrependimento que os livraria da culpa por qualquer crime hediondo. Mas no geral, o sentimento popular era de revolta (os próprios presos revelaram que tramavam para matar o casal no presídio) e de anseio velado de vingança. Por isso que digo “geralmente” não. Os gauleses (e generaliza-se para os celtas em geral), ao que indica, realizavam sacrifícios de prisioneiros e culpados de crimes considerados muito graves fazendo-os passar por suplícios terríveis (CÉSAR, 1967, p. 199), coisa que era tida como mais agradável aos deuses. Isto se aplicaria hoje? Sinceramente não sei, nem desejo discutir isto aqui. A questão, é óbvio, é o significado de “crimes muito graves”.

O que nos interessa é visualizar bem que no mundo antigo o sacrifício animal era ligado com as práticas religiosas, em alguns muitos casos essencialmente, tanto que muitas vezes “piedoso” ou “religioso” era aquele que observava os dias sagrados e os sacrifícios sangrentos. Isto é contrastante com as práticas do Neopaganismo e os discursos que as legitimam, se excetuarmos as correntes órfico-pitagóricas. Neste sentido não há coerência prática geral, nem teórica se considerarmos as evidências simbólicas presentes em narrações míticas.
Já sobre a sustentabilidade disto, temo nossas dúvidas. O motivo é simples: há como viver sem ceifar vidas? Desde que nascemos, respiramos no ar vários seres microscópicos que são mortos ao entrarem no nosso organismo, ou a bebermos água. Nos alimentamos constantemente de vida retirada ou ainda viva; a vida mantêm nossa vida. No geral, uma das primeiras medidas do Cristianismo, foi proibir o sacrifício cruento de animais. Como isto era impossível, tiveram de “secularizar” a matança, tirando de cena, o sacerdote, as fórmulas, práticas, encanamentos, e o direcionamento das coisas aos deuses.

Ora, mas alguém dirá: “ah mas nos referimos a vida animal…”. Ótimo. Isto implica em um hierarquização dos tipos de vida. Ou melhor, da vida dos seres. Geralmente consideramos que a vida de um peixe é “melhor” ou “vale mais” que a de um vegetal, e que a de uma ave “vale mais” que a de um peixe, de um animal mais do que a de uma ave e a de um ser humano, mais do que todas! Isto me parece até algo natural de nossa espécie. Suspeito que um timbú prefira ver um humano morto à outro timbú. Ou então, nos recolhemos no argumento do “ser indolor”: tiramos a vida dos que não sentem dor. Este argumento é de um materialismo que nos parece estranho quando percebemos que, muitas vezes, pessoas muito esotéricas ou espirituosas o sustentam. Muitas vezes eles próprios concebem a existência de corpos espirituais para estes seres, mas esquecem do sofrimento deles (por ligarem “sofrimento” à posse de um sistema nervoso, posição naturalmente materialista). Na concepção Órfico-pitagórica, talvez isto seja mais facilmente explicado em recorrência ao ciclo hierárquico de reencarnações, etc.

Nem sempre a vida humana é hiper-valorizada no imaginário pagão Indo-Europeu. No geral, como nos diz Michel Rouche (2009, p. 477) alguns animais como o cavalo, tinham um valor que superava qualquer vínculo familiar entre povos eqüestres. Ainda na Idade Média, foram registrados casos onde o indivíduo preferiu perder sua mãe à seu cavalo. Para os que enxergam estas relações sob o olhar totemista é fácil compreender, mas no geral isto causa um sentimento de horror nas mentes cristãs (em mentes pagãs antigas também – dependendo da cultura à qual nos voltamos, mas no geral menos que nas cristãs).

No mundo antigo Indo-Europeu, a hierarquização de vítimas, muitas vezes era corriqueiro, e até prescrito religiosamente. Isto me parece implícito no rito romano do Suovetaurilia ou o védico Sautramani, segundo o esquema trifuncional dumeziliano. Mas hierarquizar vítimas é algo mais compreensível vindo de quem se utiliza de vítimas do que de quem não se utiliza delas, por considerar toda e qualquer vida “sagrada, pessoal e intransferível” segundo o argumento acima. Este argumento, no meu ver, por si só impediria a sobrevivência de qualquer ser, já que me parece impossível evitarmos ceifar a vida (‘vida’ é vida) de seres microscópicos que estamos “ingerindo” constantemente.

Ok, então qual é a saída? Acredito que justamente por hierarquizarmos vidas que não realizamos sacrifícios de animais. Esta é uma saída, um tanto vaga, claro, mas é uma. Há opções que geralmente não são pensadas. Pessoas altamente espirituosas, dotadas de uma piedade hiper-crônica (considero isto uma patologia em alguns casos, tanto quanto a “hiper-falta de piedade crônica”, conhecida como “psicopatismo-sanquinolento-nervoso”, hehe – os psiquiatras e psicanalistas têm palavras mais bonitas pra estas coisas), muitas vezes se esquecem disto quando responde instintivamente matando uma barata que saiu correndo pela cozinha num pisão. Ou quando mataram aquela muriçoca chata tarde da noite. São vidas ceifadas.
Uma das saídas que me parece interessante, e que tenho adotado em certa medida, é realizar estes atos do cotidiano que nos confrontam com iminência de ceifar uma vida (para nossa sobrevivência, higiene, saúde, etc.) como sacrifícios primiciais. Geralmente, me parece adequado realizar uma breve oração ou dedicação em voz alta antes de realizar o ato. Claro, nem sempre dispomos de tempo para muito “enfeite”. Isto tem me feito perceber ‘vida’ onde geralmente só enxergamos ‘incômodos’, como formigas, rãs, insetos em geral, etc.

Do mesmo modo, que para os que consomem carne, o sacrifício animal é uma ótima saída. Há maneira mais respeitosa de se tirar uma vida do que dedicando-a aos deuses? E ainda por cima, consumindo parte do animal? Creio que esta é uma boa saída para os que vivem em comunidades rurais em oposição aos que, pelo contexto urbano em geral, são levados a consumirem carne industrializada, em processos que muitas vezes envolvem mortes cruéis e total desrespeito para com o animal. Muitas vezes, nosso problema é que consumimos carne demais. Os gregos só consumiam carne dos sacrifícios e de acordo com as regras sacrificais, por exemplo (VERNANT, 2006, p. 58). Sem contar que em reuniões comunitárias como um casamento, ou uma festa em homenagem a um evento, muitas vezes é um costume ocorrer, no interiorzão da Paraíba, a matança de um boi, carneiro, bode, ovelha, porco ou mesmo galinhas, etc. Geralmente na zona rural, um casamento implica na matança de algum animal. Isto poderia ser repaganizado – ao que me parece – “sem traumas” (já que suspeito que isto vem diretamente das épocas pagãs).

Ou seja, sustentar este discurso de “não tirar a vida” é difícil. Os antigos parecem ter percebido que tirar a vida é algo sagrado, solene e respeitoso em si mesmo, já que inevitável. Nos idiomas célticos, temos uma ótima maneira de ver isto: o termo “sacrifício” é bem próximo de “retribuição”, *ati-od-ber-to-, e para “vítima”, “retribuída ou atribuída” *ad-ber-tā (em Galês médio ‘aberth’, em Irlandês antigo ‘edbart’ ou ‘idbart’). “Sacrificar” é, nesta maneira de ver, retribuir; e só retribui quem recebe algo. Bem, com este brevíssimo texto não desejo convencer o público Neopagão a realizar sacrifícios de animais. Apenas desejo provocar a reflexão a este respeito. Creio que é preciso analisar alguns dos argumentos, e creio que caso estes sejam “fracos”, realizamos um favor à comunidade Neopagã em demonstrar isto. Isto torna possível a elaboração de argumentos mais firmes.

Fontes:
BURKERT, Walter. Religião grega na época clássica e arcaica. Tradução: M. J. Simões Loureiro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.
CÉSAR, Júlio. Comentários sobre a guerra gálica (De bello Gallico). Tradução: Francisco Sotero dos Reis. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967.
ROUCHE, Michel. Alta Idade Média Ocidental. In VEYNE, Paul (org.). História da vida privada 1: do Império Romano ao ano mil. Tradução: Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. Tradução: Joana Angélica D’Ávila Melo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Enquanto traduzo a parte Labara do livro online Land, Sky and Sea – me deparo com uma tese um tanto interessante: a de que certos termos de uma língua são essencialmente intraduzíveis. No geral, considera-se que línguas possuem esquemas conceituais incomensuráveis, ponto-chave do que convencionou-se chamar de Relativismo Lingüístico. Segundo José Medina (2007, p. 140) tal concepção foi desenvolvida por Edward Sapir e Benjamin L. Whorf na primeira metade do século XX, tendo a formulação da hipótese da relatividade lingüística como sendo:

…a idéia de que nós pensamos e experimentamos o mundo de acordo com a língua que falamos, e que nosso pensamento, nossa experiência e nossa realidade é relativa, em função da nossa língua e pode não ser compartilhada com falantes de outras línguas. De acordo com Sapir e Whorf, línguas que sejam substancialmente diferentes (as que possuem raízes históricas diferentes – línguas indo-européias e línguas ameríndias, por exemplo) contêm diferentes sistemas metafísicos que dividem o mundo de modos diferentes, isto é, de acordo com diferentes princípios de individuação, que reconhecem diferentes conjuntos de entidades (ontologias diferentes). Idem.

Os estudiosos citados, chegaram à tais conclusões estudando as línguas dos nativos norte-americanos, mas cremos que também seriam válidos para os nativos daqui. Em tupy as formulações verbais são de tal modo diferentes do português que talvez estejamos justificados em pensar que eles experimentem o tempo de maneira diferente dos lusófonos. O pressuposto é simples: as gramáticas moldam a mente dos falantes, suas concepções de mundo e maneiras de experienciar. Claro, pelo menos eu não acredito que isto tenha um valor fisiológico: não vejo evidências para acreditar que, por exemplo, o sistema de percepção visual (retina, glóbulo, córneas, etc.) de um falante de tupy seja diferente do meu. Mas trata-se justamente do “vejo evidências”, ou seja, aos significados que atribuímos. Isto está também ligado com o problema da indeterminação do significado (e da tradução radical) levantada por W. V. Quine no ‘A relatividade ontológica’ (1975, p. 141). Como bem notou Medina, mesmo Thomas Kuhn – no ‘A estrutura das revoluções científicas’ – “argumentou que línguas pré- e pós-revolucionárias não podem ser mutuamente traduzidas, a menos que ocorram distorções” (2007, p. 141). Neste sentido, voltando-se ao paganismo mais propriamente, desembocaríamos na linha argumentativa da importância de aquisição de uma língua para a real “mudança” na nossa cosmovisão: nossa ontologia (evidentemente incluindo o campo estritamente religioso) seria diretamente vinculada com a maneira que nossa gramática “sintactíza” nossos esquemas conceituais. Ou seja, todo aquele discurso de adoção religiosa de uma língua teria um pano de fundo filosófico, digamos, “firme”.

No entanto, ainda com base neste ‘pano de fundo’, me parece que também teríamos também um inconveniente: a adoção de um segunda língua (ou terceira, quarta, etc.) é estritamente dependente – nos contextos normais Cⁿ – da língua materna. Ao menos – chamarei isso de ‘contexto anormal’ Cª – que sejamos educados em um ambiente bilíngüe, e adquiramos as duas línguas simultaneamente. No entanto, não vemos Cª suficientes para os levarmos a sério, logo acreditamos estarmos justificados a considerar apenas os Cⁿ. Ora, se aceitarmos o modelo de aquisição por comparação de uma segunda língua, onde nos deparamos, basicamente, em efetuar comparações e paralelismos (como ao consultar duas listas/tabelas paralelas), a coisa fica mais evidente. Ora, neste aspecto, teríamos a ‘lingua mater’ como a tabela de estruturação conceitual de referência para a língua que será adquirida. Ou melhor, a segunda língua seria inteligível se e somente se em relação à primeira (lingua mater). E por sua vez, uma terceira em referência às duas (ainda com certa predominância da primeira).

Se assim é, e se nos lembrarmos da implicação com nossa ontologia, a aquisição de uma segunda língua não parece modificar necessariamente nossa ontologia. Uma vez que a primeira língua é nossa referência, e com ela nossos esquemas de estruturação sintática e conceitual implicando em nossa ontologia e na “metafísica” que esta língua pressupõe, a aquisição de outra só é realizada em relação com a primeira e com a ontologia da primeira, de modo que estaríamos tentados a conceber que apenas ressignificaríamos a ontologia da segunda língua de acordo com a primeira. E como vimos, caso haja essencialmente uma incomensurabilidade entre línguas diversas, tal processo seria ou impossível ou insuficiente ou inapropriado. Impossível por serem as línguas (a mater e a segunda) intraduzíveis; Insuficiente por que sempre aspectos ou termos de uma língua seriam intraduzíveis e incompreensíveis em referência à lingua mater; Inapropriado por que fomentaria apenas repetições na segunda língua vazias de significado ontológico, ou então adaptadas à ontologia da lingua mater.

Se meu raciocínio estiver correto, penso que temos um problema aqui. No que diz respeito ao paganismo, a mudança de cosmovisão pela adquirição de outra língua seria vã sem a formulação de uma intertraduzibilidade: faz mais sentido aprendermos outra língua se houver como compreendermos suas construções sintáticas diferentes, e como isso sim, perceberíamos – em referência à nossa lingua mater – a ontologia subjacente e estaríamos aptos a tentar realizar a mudança de cosmovisão. No contrário, me parece que estaríamos fadados a repetir mecanicamente expressões e construções alheias em contextos específicos.

Outra saída que conheço, foi formulada por Donald Davidson por meio de uma reductio ad absurdum da tese do relativismo lingüístico: se assim fosse, simplesmente não haveria possibilidade de comunicação intercultural. Nos diz Medina “de acordo com Davidson, a cada vez que somos confrontados com um alegado hiato conceitual, logramos superá-lo de um modo ou de outro; e mesmo se não logramos transpô-lo, não há boas razões para concluir que o hiato é, em princípio, intransponível” (idem). No geral, Davidson argumenta que não pode haver tal incomensurabilidade: a própria existência e percepção de incomensurabilidade pressupõe certa comensurabilidade entre as línguas. Claro, sem querermos nos aprofundar, isto levará Davidson a formular um critério para se aceitar algo como uma língua: que seja traduzível para uma língua familiar (ibid. p. 142). Medina, analisando o argumento de Davidson como um dilema (ibid. p. 143) nota que há um pressuposto de ‘tríplice tradutibilidade’ na concepção de “língua” em Davidison; se uma língua A é traduzível para B, e se B para C, então A é traduzível para C. Medina nos diz que tal pressuposto não é correto, pois pode-se conceber que línguas muito distantes entre si – nesta cadeia de tradução – podem ser diretamente intraduzíveis; apesar de que, no geral todas seriam traduzíveis. Seria como se a tradução direta do kayapó (da Bahia) para o português fosse impossível (pelo menos em certos aspectos), apesar de ser entre o kayapó e o krikati (do Maranhão) ambas do tronco jê.

No meu entendimento, isto não resolve o problema, antes o adia: ao invés da incomensurabilidade entre línguas, teríamos entre grupos lingüísticos e famílias. No entanto, e pelas evidências históricas e ambientais, isto me parece mais provável. Me parece também que devemos estipular diferentes níveis de traduzibilidade relativos aos diferentes grupos lingüísticos sob aspecto temporais diferentes. Neste sentido, o pressuposto geral que chamamos de ‘tríplice tradutibilidade’ seria mais precisamente válido para certas “recortes”, e no geral seria válido em cadeia: toda e qualquer língua é traduzível, apesar de algumas serem por meio de outra < claro, tratamos de certas peculiaridades.
Como nosso intuito não foi nos aprofundarmos nestas questões, mas apenas apresentar algumas considerações que acreditamos serem pertinentes ao assunto no meio pagão, nos ateremos por aqui.
Ainda sim, ressaltamos a importância do aprendizado de línguas para o âmbito religioso como auxiliadoras do processo de mudança de cosmovisão (e mesmo parte do processo de aculturação e desprendimento do judaico-cristianismo). Sobre este último aspecto, é interessante notar que boa parte das línguas ocidentais modernas (mesmo as nórdicas ou célticas) se tornaram o que são hoje dentro de contextos formalmente cristãos ou que pressupunham, pelo menos teoricamente, a ontologia cristã. Por isso, muitas vezes acredito que o estudo de línguas não inseridas inteiramente (do ponto de vista histórico e cultural) nestes pressupostos ontológicos sejam mais eficientes, como as línguas nativas ou as línguas européias antigas. Principalmente quando nos voltamos para culturas extintas e/ou com pouquíssimos vestígios arqueológicos e literários.

Continuaria recomendando enormemente aos interessados em Xamanismo o estudo de línguas ameríndias, por exemplo, mas com a ressalva da necessidade de um estudo reflexivo.

Inté!

Fontes:
JACOB, Pierre. O Empirismo Lógico: seus antecedentes, suas críticas. Tradução: Teresa Campello, Rômulo Gaudêncio do Rego & Giovanni S. Queiroz. No prelo.
MEDINA, José. Linguagem: conceitos-chave em Filosofia. Tradução: Fernando José R. da Rocha. Porto Alegre: Artmed, 2007.
QUINE, Williard V. O. Relatividade ontológica e outros ensaios. Tradução: Assis Pereira da Silva & Andréa Maria A. de Campos Loparié. In Col. Pensadores. Ryle; Austin; Quine; Strawson. São Paulo: Abril S. A. Cultural e Industrial, 1975.

Reconstrucionismos!

RECONSTRUCIONISMOS.

Os movimentos religiosos comumente chamados de Reconstrucionismos se caracterizam como revivacionismos de práticas religiosas de sociedades pré-cristãs, em sua maioria, da Europa.
Se houvesse algo parecido, acerca das crenças dos nativos aqui da Paraíba, talvez o termo soasse adequado também, em vista dos pouquíssimos vestígios das práticas e do imaginário geral de tais povos indígenas (afinal, teríamos muita coisa a reconstruir com pouquíssimas evidências). Sem contar que as chances de tal revivacionismo acontecer, talvez estivessem muito mais ligadas a pessoas brancas economicamente estabilizadas do que a descendentes “diretos” dos grupos indígenas – de identidade cultural destruída e muitas vezes recatados a contextos marginais. Bem, mas não estamos aqui para discutir a possibilidade e legitimidade da reconstrução de práticas religiosas dos antigos povos nativos da Paraíba.

Voltando ao movimento Reconstrucionista (se é que podemos referi-lo como um todo, no singular, e não no plural) é um dos movimentos, dentro do paganismo contemporâneo como um todo, que tem mais se consolidado. Talvez o principal motivo seja a seriedade e compromisso (diferentemente de outras religiões pagãs contemporâneas que tem sido motivo de chacotas por parte de intelectuais…) dos “líderes” e participantes em geral. O forte compromisso com a plausibilidade (quando não probabilidade) histórica e cultural das culturas-foco, viés de estudos científicos e fontes primárias como fontes gerais tem tornado as práticas religiosas dos Reconstrucionismos “legítimas” e muito bem fundadas no escopo geral do paganismo contemporâneo, além de o afasta-lo “naturalmente” dos emaranhados esotéricos da Nova Era, Magia Cerimonial, Ocultismo e Romantismos a fora.
Os movimentos, em muitos casos, partiram do descontentamento com as práticas ecléticas e pseudo-atribuíveis à uma cultura-foco por parte da Wicca e de outros caminhos relacionados. No geral, a falta de “originalidade” (no sentido de recorrer à origens defensáveis e comprováveis) levaram muitos Neo-pagãos, desde meados dos anos 70 a buscarem e trilharem caminhos historicamente mais defensáveis. Os caminhos nórdicos, em especial a Asatru, mostraram-se pioneiros em tal empreitada: não só a Asatru mostrou ser possível e exemplificou os frutos de trabalhos sérios e comprometidos com a fé dos antigos, mas também demonstrou a possibilidade de reais experiências religiosas e do estabelecimento de termos e de um sistema moral sólido alinhado tanto com às crenças antigas quanto com o contexto contemporâneo.

No geral, hoje, há uma certa tendência Reconstrucionista percorrendo boa parte de algumas religiões Neo-pagãs como o Druidismo (a ordem norte-americana ADF, pode ser considerada uma pioneira neste sentido, apesar de alguns “porens”) e mesmo algumas vertentes “étnicas” do que se convencionou chamar de Bruxaria Tradicional.
Bem, neste pequeníssimo texto, apenas gostaríamos de disponibilizar alguns links para que os interessados busquem por si mesmos mais informações de acordo com seus respectivos interesses. Infelizmente, grande parte do material está em Inglês, mas podemos considerar isso um incentivo a mais para convocarmos os pagãos a contribuírem com traduções para o crescimento qualitativo de nossa fé na região.

Em português.
Asatru, Reconstrucionismo Nórdico:
www.fornsed-brasil.org/
groups.yahoo.com/group/asavanitru/

Reconstrucionismo Helênico:
http://helenismo.forumeiros.com/

Reconstrucionismo Celta:
http://community.livejournal.com/thecrfaq_br/
http://fidnemedlusitania.blogspot.com/
http://community.livejournal.com/gaeassail/
http://br.geocities.com/sitetresmundos/
http://wallacetaliesin.livejournal.com/
http://celtasrecon.ning.com/
http://coilledharaich.wordpress.com/
http://reconstruccion-celta.foroactivo.com/

Reconstrucionismo Ibérico
(esse termo é muito complicado, por favor, considerem como provisório – sugiram outro!):
No geral, não há o que poderíamos chamar de Reconstrucionismo Ibérico. Os vestígios da religião pré-romana são muitos escassos, a ponto de alguns considerarem uma ‘Reconstrução’ plausível impossível. Muitos os que se voltam ao culto dos deuses ibéricos adotam uma das três linhas gerais: 1) ou o fazem à romana i.e. adotando o calendário, língua e contexto simbólico-mitológico geral do mundo Greco-Romano, ou 2) o fazem à céltica, voltando-se as ocupações célticas pré-romanas na península Ibérica e traçando paralelos com o mundo Gaulês e insular (Gaélico e Britônico), ou ainda 3) misturando elementos das duas opções acima em dosagens guiadas por evidências históricas, bom senso e preferências gerais.

Credima Iberica Celtica

http://cultopoliteista.ning.com/
http://www.celtiberia.net/index.asp
http://s2.excoboard.com/exco/index.php?boardid=10026

Em inglês.
RC:
http://www.seanet.com/~inisglas/
http://www.imbas.org/
http://www.pathofeire.org/
http://sinnsreachd.org/index.html
http://www.paganachd.com
http://gaolnaofa.org/
http://community.livejournal.com/gaulish_recon/
http://www.delawarevalleyceltic.org/
http://www.newtara.org/

Asatru:
www.asatru.is/
www.irminsul.org
www.runestone.org/
www.geocities.com/Athens/Forum/5346/

Outros:
Religio Romana (revivacionismo romano).

http://www.novaroma.org/religio_romana/

http://www.religioromana.net/

Reconstrucionismo Helênico.
http://www.elaion.org/
http://www.hellenion.org/
http://www.dwdekatheon.org/
http://www.neokoroi.org/
http://ysee.gr/index-eng.php

Reconstrucionismo do leste Europeu.
http://vinland.org/heathen/pagancee/
http://www.krugperuna.org
http://geryon.org

Reconstrucionismo Finlandês.
http://www.lehto-ry.org/english.html
http://www.taivaannaula.org

Inté!

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