Reflexões de um pagão entediado: Paganismo Vs Capitalismo? Concepções de tempo e espaço conflitantes
Uma verdade cruel: a compreensão de que somos frutos, em maior ou menor medida, do nosso meio. É uma tendência comum conceber o mundo atual nos seus vários aspectos, inclusive sócio-políticos e econômicos, sob a clássica máscara do dualismo ideológico que marcou o século XX, se não “maniqueísta” como já havia frisado o prof. Marcílio Diniz. Contrapor-se à estrutura do mundo capitalista pareceu sempre nos colocar quase que automaticamente do lado da esquerda tradicional socialista e comunista, se não anarquista. Contrapor-se à ideologia neoliberal, nas suas mais variadas formas, parece… mas apenas parece, nos empurrar diante deste abismo histórico-revolucionário que se auto afirmou durante tanto tempo como a “única opção” frente à máquina devastadora que é o sistema capitalista.
Desta forma, as diretrizes político-ideológicas sempre nos foram claramente delimitadas na educaçãoformal e informal: A ou B; esquerda ou direita; a favor ou contra o sistema vigente; ou simplesmente poderíamos relegar toda esta discussão a reles máxima “não gosto de política”; sem nos darmos conta de que, como diria o velho Aristóteles “somos políticos por natureza”! Raros são aqueles que conseguem fugir, mesmo que superficialmente, desta lógica tradicional regente do mundo contemporâneo. Uma lógica absurda que diminui e esconde uma gama de possibilidades existentes, já que a vida é, em si, este montante em potencial do vir-a-ser e do poder estabelecer. Mas o caso é que fomos condicionados a pensar dentro das possibilidades demarcadas, e percebo que aqueles indivíduos que se identificam com os ideais do paganismo ou neopaganismo, como também simplesmente do próprio panteísmo, encontram-se no meio termo da indecisão ante as opções oferecidas… seria eu um destes?.

Mas a realidade é que o paganismo, enquanto este norteamento de produção cultural antiquíssimo - e não somente – tem como via um tipo específico de valoração que lhe é próprio; ou seja, uma maneira característica de encarar a existência. Perspectivas existenciais envolvidas por concepções de tempo e espaço peculiares; ou ainda, uma concepção, se não várias, do que seja propriamente o tempo, determinando efetivamente a ação em prol da construção de um tipo peculiar de espaço; direcionando a ação em prol de uma concepção de mundo, idealizado ou não. Da mesma forma, as transformações no modo de produção da vida cultural podem, em contrapartida, determinar os caminhos tomados por uma sociedade. E não seria esta a situação introduzida pelo sistema capitalista? Uma transformação brutal nas concepções de tempo e espaço do homem modernizado. Uma alteração no seu modo de compreender a existência, seu modo de existir e, por conseguinte, uma mudança na sua percepção do tempo determinando a construção do espaço que conhecemos. O mesmo acontece com a ótica revolucionária da esquerda com relação ao tempo, o que provocou, e provoca, a construção ou ao menos condiciona um tipo de ação em prol de um espaço idealizado que possa vir emergir com a revolução.
É perceptível que parto de uma ótica minimamente materialista à proposta de análise, penso que isso não inviabiliza a linha de raciocínio. É importante frisar também que apresento conceitos traçados com maior clareza pelo geógrafo marxista David Harvey na sua obra “CONDIÇÃO: Uma Pesquisa sobre as Origens da Mudança Cultural”. Destarte, o diagnóstico inicial tem por base que o sistema capitalista introduziu uma transformação nas formas de percepção e experimentação do espaço e do tempo, categorias estas consideradas como sendo essenciais ao próprio existir do ser humano. Esta transformação foi categórica na própria construção do espaço natural tão devastado que conhecemos nos dias atuais. Por isso sou levado a crer que o Paganismo Moderno encontra-se em contrapartida a toda esta estrutura socioeconômica vigente. Decepciono-me com aqueles indivíduos que se dizem pagãos e não conseguem distinguir o discurso, e a ação, a favor ou contra o sistema vigente. Quando se dizem contra pensam que estão a assentir ao posicionamento à esquerda chata radical, quando se dizem a favor acreditam piamente que podem conciliar uma ética compulsiva compradora… “ética neoliberal(?)”com uma postura verdadeiramente pagã.
O caso é que o horizonte temporal implicado em uma decisão implica diretamente/materialmente no tipo de decisão tomada; a busca por um espaço visado: uma concepção de mundo, seja ela consciente ou não. O que caracterizaria o próprio espírito da modernidade seria esta transformação no horizonte temporal em detrimento de uma transformação bruta do espaço construído pelo sistema de produção capitalista. Desta forma, pode-se pressupor e vislumbrar a multiplicidade de determinações conferidas pelas concepções de tempo e espaço na práxis diária humana, já que tais categorias provavelmente tem um vínculo direto com os processos materiais que lhes servem de subsídio, ou vice-versa. Portanto, as categorias tempo e espaço são construídas a partir da prática e dos processos materiais que servem a reprodução da vida em sociedade, como também são construídos diferencialmente, sem perder seus vínculos; da mesma forma o modo de produção de uma época ou sociedade sofre influencia direta das concepções de tempo e espaço que lhes servem de subsídio. O que quero dizer afinal com isto? Que para erguer os alicerces que sustentam nossos tão imponentes arranha-céus o sistema capitalista teve transformar a própria concepção de existência do homem; transformar, pois, sua compreensão de tempo e espaço com vistas a produção de um mundo recheado de felicidade: o consumo!
Seguindo esta linha de raciocínio, compreende-se que todo sistema de representação (cultura) “é uma espécie de espacialização que congela automaticamente o fluxo da experiência humana”[1]. Nas palavras de Bourdieu, as ordenações simbólicas do espaço e do tempo fornecem uma estrutura de experiência subjetiva na qual o homem aprende quem é, e como o deve ser na sociedade. Já Foucault diria que o homem é um ser próprio do espaço e do tempo e que, ou se submete a autoridade vigente do sistema de representação e fomentador de tais qualidades, ou cria espaços e resistência frente ao mundo e aos órgãos repressores. Penso que aí subjaz o espaço do neopaganismo ou paganismo moderno. Mas antes mesmo de fazer tal contraponto, deve-se ter por base a hipótese norteadora das teses de Harvey. Ele argumenta que as sociedades que possuem como fundamento econômico uma estrutura monetária, como na sociedade capitalista em particular, a relação do domínio sobre o espaço, tempo como também sobre um terceiro elemento, o dinheiro, cria um vínculo substancial de poder social no seu sentido pleno. Aqueles que dominam parte destes elementos determinam por consequência os demais; quem possui capital pode comprar espaço e por conseguinte deter poder sobre o tempo alheio, e quem possui espaço pode vir a ganhar dinheiro e influenciar os demais círculos.
O resultado do controle do capital ou do espaço gera a transformação da concepção de tempo, que seria o próprio estado do mundo contemporâneo. Na tabela temporal apresentada pelo sociólogo Gurvitch, o tempo na estrutura capitalista é compreendido na sua forma de “descontinuidade, contingência/o triunfo da mudança qualitativa com o futuro tornando-se cada vez mais presente”. Um êxtase pelo progresso, pelo consumo e uma fome insaciável por uma ideia de “felicidade” vindoura que nos é transmitida nos programas televisivos, na internet ou ingenuamente nas conversas no tedioso dia-a-dia. Mas é interessante observar que a sociedade, como toda existência, é este eterno conflito de interesses, um combate de forças opostas que lutam para se sobrepor; não a maneira maniqueísta, mas plural, e quase incompreensível à luz da razão tradicional. Mesmo que a estrutura socioeconômica capitalista atual seja dominante, e majoritariamente decisiva no processo formativo, diversos núcleos sociais emergem almejando representatividade e gerando luta de classes. Estes embates são responsáveis por impedir o nivelamento sociocultural; a luta de classes, ou melhor, a luta de forças opostas, é responsável por impedir a hegemonia das concepções de mundo universalistas reproduzidas pela formação contemporânea. Sobre isto lê-se:
“Movimentos de toda espécie – religiosos, místicos, sociais, comunitários, humanitários etc. – se definem diretamente em termos de um antagonismo ao poder do dinheiro e das concepções racionalizadas do espaço e do tempo sobre a vida cotidiana. A história desses movimentos utópicos, religiosos e comunitários atesta bem o vigor desse antagonismo. De fato, boa parte da cor e do fermento dos movimentos sociais, da vida e da cultura das ruas e das práticas artísticas e outras práticas culturais deriva precisamente da infinita variedade da textura de oposições do dinheiro, do espaço e do tempo em condições de hegemonia capitalista.”[2]
O neopaganismo como um destes movimentos que se contrapõe à ordem regente, de uma maneira geral, tem por base uma concepção de tempo deveras diferenciada do sistema capitalista; o que contribui também para a produção de um tipo de espaço muito diferente do atual. Lembrando que por mais que seja um movimento moderno, o neopaganismo retoma para seu âmbito social uma estrutura temporal tradicional no Mundo Antigo; no caso, no paganismo antigo. Gurvitch atribui às sociedades arcaicas da antiguidade, e não somente, a concepção de tempo cíclico, sendo assim o passado, o futuro e o presente são projetados uns nos outros, frisando o teor de continuidade dentro de um grande processo de mudança da natureza (vir-a-ser). Dentro desta concepção de tempo pode-se pressupor que a ação empregada no presente em razão de um tipo de espaço, consciente ou não, terá sempre reflexos cíclicos. Não se objetiva assim uma felicidade vindoura advinda de uma noção de tempo linear ou progressista, desenvolvimento científico e comercial, tem-se na verdade receio daquilo que uma ação pode desencadear no presente já que a própria existência é concebida como um grande movimento unificado e, por fim, sacralizado.
Não só o movimento da natureza externa – das estações, da vegetação, dos animais, da geografia, dos estros – mas a própria natureza interna do ser humano, não me refiro simplesmente a TPM, atesta o teor periódico e unívoco do tempo e espaço; e como o espaço (meio ambiente) contribui para tais mudanças. Percebo que os adeptos formais e principalmente os literais do paganismo tendem a observar-se melhor diante da existência, e observar atentamente a própria existência diante do existente. Enquanto que o modo de produção capitalista é determinante e cruel na compreensão do “tempo enquanto dinheiro” – tempo corrido, tempo valioso, tempo de trabalho, tempo produtivo, tempo de consumo, tempo de disputa por poder: poder de consumo – e concomitantemente na apreensão do espaço enquanto “espaço de realização” deste tempo – consumo da felicidade e realização no consumo barbarizado – o paganismo tende, em contrapartida, a sacralizar o espaço enquanto manifestação divina, sacralizar a própria ação diária frente ao espaço como também nortear os sistemas de produção e estruturas políticas que lhes sejam acessíveis.
É interessante observar como no Mundo Antigo a política e a própria economia tendiam a passar, de certa forma, por um crivo religioso-moralizador de avaliação, mesmo que muitas vezes este não o fosse lá tão benigno com o mundo natural, como se imagina vulgarmente. No mundo contemporâneo o processo aparenta ser inverso, já que a economia e a política tendem a configurar a moral, a cultura e, de maneira mais precisa, a religião. De qualquer forma a sacralidade do mundo natural e o sagrado como instância primeira do espaço e do tempo é uma realidade evidente no paganismo antigo e no neopaganismo. Talvez esta premissa por si já coloque a cultura pagã, ou simplesmente uma postura pagã, do lado oposto ao sistema socioeconômico atual. Entretanto os movimentos sociais que se contrapõe ao sistema vigente não subsistem independentemente como que entidades suprassensíveis. Eles existem e subsistem no cerne de uma estrutura em plena forma, e por isso tem de lidar com um paradoxo quase irresolúvel: como manter-se “puros”, ou seja, manter imaculadas suas concepções de tempo e espaço tão frágeis, dentro de uma estrutura socioeconômica que impõe e transforma tudo aquilo que entra em contato com seu elemento chave de dissolução (?) o dinheiro… Não foram poucos os movimentos sociais que surgiram com a proposta da contracultural numa tentativa de resistir e contestar a ordem vigente, mas que acabaram diluindo-se e descaracterizando-se perante esse contato inevitável com o capital.
Bem, por mais que esta discussão seja chata, ou aparente ser chata a alguns, é importante compreender de maneira simplificada o que esta em jogo aqui: o paganismo trabalha num sentido contraposto ao sistema capitalista e democrático, por isso não se engane! Algumas questões que surgem: como dizer-se pagão, ou afirmar-se enquanto pagão em um mundo não-pagão? E ainda … que posicionamentos político-econômicos um pagão propriamente dito pode tomar diante de um mundo que oferece opções muito limitadas de escolha(?); opções estas que não abarcam, ou raramente fazem referência, aquilo que uma estrutura psíquico-existencial pagã exige como sendo essencial à tomada de uma decisões e posicionamento(?). O neopaganismo, como um movimento que se contrapõe naturalmente a ordem vigente no mundo contemporâneo, e isso já nas suas bases existências, delimitadas por concepções de tempo e espaço muito peculiares, queira ou não é uma estrutura/instituição ainda muito frágil e fragmentada. Está exposto a uma série de aparatos de dissolução postos intencionalmente pelo sistema político-econômico atual no objetivo de enfraquecer os movimentos que lhe sejam contrapostos.
Admito que no que diz respeito a uma postura política sou pessimista, não consigo ver progresso ou evolução numa sociedade guiada pela Democracia. Fico a me perguntar e que podemos nós, aristocratas, fazer em um mundo conduzido por propagandas e imagens falsificadas, especial quando estas estão tão vividamente atreladas ao âmbito político. Submeter-se ao mundo das propagandas? Isso me pareceria mais uma conversão ao protestantismo ou a adesão completa à cultura do McDonalds e da Coca-Cola. Poderia ser a revolução Socialista/Comunista o caminho? Como diria Nietzsche, não vejo aí mais que uma reconfiguração da estrutura de idealização do cristianismo na crença de um mundo sem sofrimento e desigualdade que estaria por vir.
Progressivamente sou levado crer que uma cultura neopagã só poderia vir a fortalecer-se, e crescer com um mínimo de autonomia, pureza e integralidade na medida em que se distanciasse dos núcleos de hegemonia do sistema político-econômico em vigência. Uma comunidade “alternativa”? Talvez seja uma opção… não a única. Mas o fato é que, enquanto uma comunidade dita pagã encontrar-se inserida no coração da uma estrutura política capitalista, e ainda por cima democrática, suas bases morais e éticas serão sempre frágeis, e facilmente dissolúveis. O que falta ao neopaganismo atualmente? Diria que integralidade! O que pode-se fazer na busca desta integralidade eis uma boa questão!
Para compreender um pouco mais acerca do conceito de Cultura Integral acesse o artigo disponibilizado no Legio Vitrix “A Ideia de Cultura Integral” por Stephen Edred Flowers .
- Dia das Mães

Como já comentado aqui em anos anteriores, eis uma data civil que apesar do apelo comercial poderia ganhar alguma significação religiosa também para os politeístas de nossa época. Ok, alguns dirão que tradicionalmente já há nos calendários religiosos certas datas que são mais apropriadas e tal, especialmente ao culto às Deusas Mãe. Em todo caso, fica aqui nosso registro de louvor e nosso convite a uma libação as nossas mães!
(ok, aqui neste vídeo a “Mãe” está em um sentido divinizado, mas foi o vídeo que me veio à mente!)
- III Encontro Nacional Evoliano – edição parahybana
Para os pagãos interessados ou simpáticos ao pensamento do filósofo Julius Évola, estará ocorrendo na nossa capital, na UFPB, entre os dias 4 e 6 de setembro, a terceira edição do Encontro Nacional Evoliano. Esta edição tem algo de histórico: a vinda do filósofo russo Aleksandr Dugin, principal ideólogo do movimento Eurasia (que grosso modo, é um dos únicos movimentos políticos atuais com uma base metafísica declarada – e neste caso, uma base metafísica indo-europeia) e um dos grandes nomes atuais de Metapolítica e Geopolítica eslava. O evento contará ainda com uma série de nomes importantes de âmbito nacional no que diz respeito a Filosofia da Religião, Geopolítica, etc. Cabe ressaltar que haverá um sorteio de livros de autores que interessam a muitos de nós, como Guénon, Schuon, o próprio Évola, etc.
Inscreva-te, convida mais interessados e ajuda na divulgação, pois.
Acredito que, em maior ou menor medida, haja uma questão pagã abordada neste texto. Por isso resolvi disponibilizá-lo aqui no site.
“Ao observar uma série de belas imagens desmobilizadas pelo Windows como papel de parede me dei conta de como as fotografias, pinturas entre outras formas de expressividade/representatividade da natureza de certa forma empobrecem a realidade o real. Quando digo de certa forma tenho consciência que tais técnicas podem, em certa medida, enriquecer aquilo que muitas vezes, ou pelo menos a primeira vista, é cru…. dado como sendo sem valor. A tecnologia, e a sua principal representante contemporânea, a internet, possui este poder de diminuir o potencial do que é real em favor da representatividade. A artificialidade introduzida pela técnica moderna tem diminuído progressivamente a possibilidade da “vivência” do real por parte dos indivíduos, prova disto é a nova concepção de amizade disponibilizada pelos meios de comunicação.”
Veja o texto completo no Raposas do Planalto
Questão indígena…
Um vídeo interessante, vê só:
p. 1
p. 2
Eis o caos que se forma. Índios emigrados às grandes cidades (sob territórios de seus antepassados, é certo, gostemos ou não)… Integração mantendo as diferenças, luta pela sobrevivência étnica, linguística, religiosa e de algo da cultural material; qual a alternativa política mais adequada para sanar tais questões em benefício de todos (preferivelmente)?
Mais tijolos aos muros
Saudações.

Venho cá rápido, compartilhar mais alguns textos interessantes sobre o processo de Cristianização que nos sirva para erguer barricadas firmes e reter posições estratégicas no fronte (a linguagem bélica é galhofeira, não vos preocupeis). Grosso modo, é uma continuação desta outra postagem. Textos em inglês, infelizmente, ei-los:
PAGELS, Elaine – The origin of Satan (oferece referências preciosa, alem de expor claramente o procedimento “padrão” do cristianismo em torno das antigas religiões): clica aqui para baixar em pdf
CURRAN, John R. – Pagan City and Christian Capital: Rome in the fourth century (clássico): clica aqui para baixar em pdf
PERKINS, Judith – New Identities: Pagan and Christian narratives from the Roman Empire (este, confesso que não terminei de ler, mas o que li, recomendo): clica aqui para baixar em pdf
EDWARDS, Mark; GOODMAN, Martin; PRICE, Simon; ROWLAND, Chris (edit.). Apologetics in the Roman Empire: Pagans, Jews and Christians (ótimo, seria bom traduzí-lo!): clica aqui para baixar em pdf
LIEU, Samuel N. C.; MONTSERRAT, Dominique. From Constantine to Julian: Pagan and Byzantine views (este não terminei de ler, para ser franco mal saí do primeiro capítulo): clica aqui para baixar em pdf
Bem, ainda há uma ruma de livros que poderia postar aqui, mas, por hora, creio que está bem. Cabe ressaltar que tais livros estão sendo postados por motivos pedagógicos, digamos assim, para nossa comunidade parahybana. Assim que possível, peço as pessoas que gostaram que comprem os livros impressos.
Inté!
Aos Dióscuros (hino homérico)
ΚΑΣΤΟΡΑ ΚΑΙ ΠΟΛΥΔΕΥΚΕ ΑΕΙΣΕΟ, ΜΟΥΣΑ ΛΙΓΕΙΑ,
ΤΥΝΔΑΡΙΔΑΣ, ΟΙ ΖΗΝΟΣ ΟΛΥΜΠΙΟΥ ΕΧΕΓΕΝΟΝΤΟ:
ΤΟΥΣ ΥΠΟΔΜΗΘΕΙΣΑ ΚΕΛΑΙΝΕΦΕΙ ΚΡΟΝΙΩΝΙ.
ΧΑΙΡΕΤΕ, ΤΥΝΔΑΡΙΔΑΙ, ΤΑΧΕΩΝ ΕΠΙΒΗΤΟΡΕΣ ΙΠΠΩΝ.
~
(texto normatizado: Κάστορα καὶ Πολυδεύκἐ ἀείσεο, Μοῦσα λίγεια,
Τυνδαρίδας, οἳ Ζηνὸς Ὀλυμπίου ἐξεγένοντο:
τοὺς ὑπὸ Τηϋγέτου κορυφῇς τέκε πότνια Λήδη
λάθρη ὑποδμηθεῖσα κελαινεφέι Κρονίωνι.
χαίρετε, Τυνδαρίδαι, ταχέων ἐπιβήτορες ἵππων. [5])
~
Cástor e Polydeuces canta, Musa clarivocante,
Tyndaridas, os nascidos do Olímpio Zeus:
Sob os cimos do Teygeto carregou-os a mareada Leda
secretamente domada pelo negro-nublado Cronida.
Rejubilai, Tyndaridas, cavaleiros de ligeiros cavalos. (5)
(tradução minha)

Trechos de WEST, M. L. Indo-european Poetry and Myth. Oxford/New York: Oxford University Press, 2007. p. 186-191.
Os Gêmeos Divinos.
Estudiosos desde há muito tempo ficaram impressionado com as semelhanças entre os Ashvins védicos, os Dióscuros gregos, e “Filhos de Deus” que muitas vezes aparecem nas canções lituanas e letãs. As características comuns são claras ea inferência óbvia. Três diferentes tradições poéticas preservaram de forma reconhecível um par de figuras da mitologia ou Religião MIE (Médio-Indo-Europeia). Há um consenso raro entre os comparatistas sobre esta conclusão.
(…)A dupla grega é geralmente chamada de Diosko(u)roi, ou seja, os Filhos de Zeus, mas às vezes de Tyndaridai (Tindáridas), entendida como ‘filhos de Tyndareos’. Tyndareos foi um rei mortal, marido de Leda. Zeus a visitou. Segundo alguns, os dois meninos Castor e Pólux, ambos têm a paternidade de Zeus, enquanto outros dizem que Pólux era ‘filho de Tyndareo’ e Castor de Zeus. Eles aparecem mortais na forma de jovens (iuuenes, Cic. De Orat. 2. 353, De nat. Deorum 2. 6).
Como os Ashvins, eles estão muito associados a cavalos. Castor tem o epíteto hippodamos “domador de cavalos”, e nos dois hinos homéricos dirigidos aos Dióscuros são takheōn epibētores hippōn “cavaleiros de ligeiros cavalos”. Eles ‘trafegam pela terra ampla e por todo o mar em seus cavalos de pés ligeiros’ (Alceu fr. 34. 5). Píndaro (Ol. 3. 39) usa do epíteto euippoi “que têm bons cavalos”, que corresponde a suáshvā predicado dos Ashvins (RV 7.68.1, cf. 69. 3). Os seus cavalos são sempre descritos como brancos, e os Ashvins famosamente deram um cavalo branco ao herói Pedu, que conquistou noventa e nova vitórias com este. Em outro lugar (Pyth. 5. 10), Píndaro fala de “Castor do Carro Dourado”. O carro dos Ashvins também é de ouro (RV 4.44. 4, 5, 5. 77. 3, 7. 69. 1; 8. 5. 35).
Os Dióscuros são celbrados e louvados como salvadores e socorristas dos perigos, especialmente no mar e no campo de batalha. Em um verso anônimo eles são chamados ō Zēnos kai Lēda kallistoi sōtēres, “os (filhos) de Zeus e Leda melhores salvadores” (PMG 1027 (c);… cf Targ adesp 14). O mais longo dos dois hinos homéricos (33) descreve como marinheiros no mar agitado oram e sacrificam a eles, e eles vêm correndo através do ar em suas asas (ksouthēisi pterygessi) e acalmam os ventos e as ondas. A oração de Alceu a eles é muito similar. Facilmente vêm e resgatam os homens da morte, ‘pulando de longe em brilho sobre os mastros dos navios bem cerrados, na noite árdua trazendo luz à escura nau’. Lendas contam de suas aparições nos campos de batalha para ajudar os exércitos, como para os Lócrios no rio Sagra na batalha contra Crotão, e para os Romanos no lago Regillus.
(…)Os Dióscuros não possuem nenhuma ligação óbvia com o amanhecer ou nascer do sol. Mas veremos(…) que sua irmã Helena corresponde, de uma maneira mais interessante, tanto à Filha do Sol báltica quanto à Filha do Sol védica, com quem os Ashvins têm muito a ver. Veremos que estas figuras estão unidas num complexo mítico que confirma a identidade entre os Ashvins, os Dióscuros e os Dieva Dēli enfim.
Traços esporádicos desses Filhos de *Dyeus podem ser reconhecidos em outros lugares com graus variáveis de probabilidade. No mito grego, além dos Dióscuros, que são particularmente associados com a Lacônia, podemos encontrar outros pares de gêmeos
que têm algumas das características certas. Há os tebanos Anfião e Zeto, que são filhos de Zeus, haviam divindades de culto loca, que eram chamadas de leukopōloi “potros alvos”, “potros brancos de Zeus” ou mesmo “Dióscuros potros alvos”. Há ainda os famosos gêmeos siameses Cteato e Eurito, os Meliões: que também saõ chamados de leukippoi koroi “jovens de cavalos brancos”, e nasceram de um ovo, como Helena. Seu pai divino, no entanto, foi Posidão e não Zeus. O mesmo acontece com os Afaretidas Idas e Linceu (apelidados de ‘os Dióscuros Messenos’), que aparecem na lenda como rivais dos Tindáridas.Timeu escreveu que os celtas que viviam pelo Oceano veneravam os Dióscuros acima de todos os outros deuses, tendo uma antiga tradição de terem os visitado vindos do Oceano. Isto foi tomado como evidência de que so Argonautas (com quem os Dióscuros navegaram) passaram por lá. Mas, para nós, lembra a concepção védica dos Ashvins vindo de samudrá. Tácito (Germ. 43. 3) relata que os Nahanarvali na Silésia tinham um bosque sagrado dedicado a dois deuses que chamou de Alcis: eles eram irmãos, iuuenes, e identificados com os romanos Castor e Pólux.
Jan de Vries chamou atenção, neste contexto, para uma série de lendas germânicas de migrações e conquistas lideradas por pares de irmãos príncipes (e também chamou atenção para o perigo de ver os Dióscuros em cada par de irmão que ocorre em uma saga). Um par destaca-se entre estes: Hengist e Horsa, os líderes lendários da invasão anglo-saxão da Britânia, que vieram do mar, em resposta a um pedido do rei britânico sitiado, Vortigernos. Eles eram descendentes de Woden. Seus nomes significam “garanhão” e “cavalo”, e parece significativo que os mesmos nomes, Hengist e Horsa, foram dados a pares de cabeças de cavalos usados para adornar um mourão de uma fazendo na Baixa Saxônia e em Schleswig-Holstein, talvez uma relíquia do culto pagão.
Mais ecos do mito “Dioscúrico” têm sido procurados nas lendas da Irlanda e País de Gales. Algum do material é, certamente, sugestivo, mas como dificilmente pode ser dito algo para dar peso ao argumento do mito indo-europeu, vou passar por cima dos detalhes que os curiosos podem explorar noutros lugares.
(…)Mesmo sem esta evidência penumbral (evidências incontestes que a iconografia de vários povos e periodos sugestiva aos Gêmeos Divinas sejam de fato relacionadas a eles) temos motivos suficientes para crer em um par de Gêmeos Divinos no MIE, os Filhos de *Dyeus, que montam cavalos através do céu e resgatam os homens do perigo mortal na batalha e no mar. (…)
Hesíodo: Conselhos Familiares e Interditos
Algo da sabedoria prática tradicional helênica, de outros tempos, decerto, mas ainda interessante; coisa que esta gente moderna ignora e tem como superstição tosca risível. Dos Trabalhos e Dias (Tradução: Sueli Maria de Regino).
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[695-699]Quando tiveres idade adequada, nem muito perto, nem muito longe dos trinta, conduz uma mulher à tua casa, visto que essa é a melhor idade para o casamento. A mulher deve ficar na puberdade por quatro anos, casando-se no quinto. Desposa uma virgem, pois assim poderás lhe ensinar a ter um comportamento adequado.
[700-706]Casa-te, sobretudo, com alguém que more perto de ti, mas observa bem tudo à sua volta, para que teu casamento não se torne motivo de zombaria para os teus vizinhos. Não há bênção melhor para o homem que uma boa esposa, nem nada pior que uma esposa má, de alma voraz, que vai queimando sem fogo o seu marido, levando-o a uma velhice prematura, mesmo que seja forte.
[707-713]Tem cuidado com o olhar dos venturosos deuses imortais. Não trates um amigo da mesma forma que a um irmão. Não sejas o primeiro a ofender nem mintas para dar gosto a tua língua. Se ele te ofender primeiro, em palavras ou ações, lembra-te que há de pagar em dobro. Contudo, se te procurar como amigo, desejando dar-te uma reparação, recebe-o bem. É um homem sem valor aquele que procura por amigos diferentes a cada momento.
[714-721]Que tua face não deixe o teu íntimo envergonhado. E não te chamem de pródigo ou de rude, nem te acusem de companheiro de velhacos e caluniadores dos homens bons. Não te atrevas jamais a criticar alguém pela funesta pobreza que o devora, enviada pelos deuses imortais. O maior tesouro de um homem é ter uma língua cautelosa, e a maior graça, saber agir com moderação. Se disseres iniquidades, bem depressa falarão algo pior de ti.
[722-726]Não faças desfeitas em um banquete comunitário, pois neles a alegria é maior e a despesa, menor. Ao amanhecer, nunca ofereças libações a Zeus com o radiante vinho, tendo as mãos ainda sem lavar. Nem aos outros deuses imortais, porque eles não te ouvirão e desprezarão tuas súplicas.
[727-734]Não te ponhas de pé, a face voltada para o sol, quando urinares. Lembra-te porém de fazê-lo quando o sol estiver de frente para o nascente. Em viagem, não urines no caminho nem alguns passos fora do caminho. Nem urines despido, pois as noites são dos deuses bem-aventurados. Um homem cauteloso e sensato o faz abaixado, ou se apoia à parede de um pátio fechado.
[735-736]Não exponhas os genitais manchados de esperma junto à lareira de tua casa. Deves evitar isso. Nem geres filhos ao retornar de um funeral, pois é de mau agouro. Fá-lo quando voltares de um banquete aos deuses imortais.
[737-741]Nos rios que correm sempre, nunca atravesses a pé a água que flui suavemente, sem que tenhas orado com os olhos fixos em sua corrente, depois de lavar tuas mãos na água límpida. Aquele que atravessa um rio sem lavar a maldade de suas mãos atrai a ira dos deuses, que lhe enviam males futuros.
[742-749]Em um banquete consagrado aos deuses, não cortes o seco de teus cinco ramos verdes com o refulgente ferro e jamais cruzes a jarra de servir o vinho em cima da taça enquanto se bebe, pois disso resulta uma sorte funesta. Se contruíres uma casa, não a deixes sem terminar, para que um corvo barulhento não pouse sobre ela grasnando.
[750-754]Não comas nem te laves em tigelas que não tenham sido consagradas aos deuses, porque para isso existe uma punição. E não assentes uma criança de doze dias sobre algo que não possa ser mudado de lugar. Isso não é bom, pois leva o homem a não ser homem. Também não o faças com um menino de dois meses, por que ocorrerá o mesmo. Um homem não deve lavar seu corpo na água onde uma mulher tenha se lavado, já que com o passar do tempo também sofrerá um amargo castigo.
[755-759]Quando presenciares sacrifícios ardentes, jamais ridicularizes os mistérios porque isso despertará a ira dos deuses. Nunca urines na foz dos rios que correm para o mar nem nas fontes. Com todo cuidado deves evitá-lo. E não faças jamais as tuas necessidades nessas águas, visto que não é certo agir assim.
[760-764]Deves proceder de forma correta e evitar a má fama entre os homens, pois a fama danosa é leve, muito fácil de levantar, embora difícil de suportar. E mais difícil ainda é tirá-la de cima, porque quando espalhada por muitas pessoas ela jamais morre totalmente, uma vez que a fama é, por certo, divina.








