Visões sobre o Caminho do Guerreiro

Saudações.

Um texto escrito meio que a título de notas e que ouso compartilhar aqui, por crer que será útil para alguns – mesmo que seja para despertar uma atitude crítica.

O Cão de Culann e seu cocheiro

i. O Caminho do Guerreiro sofreu um inflexo histórico dentro do Paganismo, outrora fora mais numeroso e novamente deve aspirar a tal. Dentro da tradição, os soldados devem ser mais numerosos que os sacerdotes/intelectuais, apesar de menos que os produtores/artesãos.

ii. Cada religião pagã que novamente renasce, autenticamente fincada na visão arcaica Indo-Europeia, aspira pelo refortalecimento do Caminho da Espada, pelo cultivo da Vontade de Ferro, pois são os Tempos que clamam, o fim de uma Era que impõe.

iii. O Ser no mundo pressupõe a Guerra, o Devir, o Conflito, a tensão de opostos é requisito à harmonia, o conflito é congênito ao que existe, primordial e primevo, como o Fogo e a Água – a união pressupõe a separação, identidade e diferença.

iv. É necessário, pois, resgatar a Metafísica da Guerra, retrilhar o Caminho da Espada, rebuscar a Iluminação no Campo de Batalha; para os feitos tornarem-se imortais e a possibilidade de ascensão ao divino ser concreta. O caminho para a montanha ainda é acessível aquele que batalha e peleja e não apenas para aquele que medita e contempla. A contemplação em excesso, passividade aumentada, leva a um estado efeminado dominante, a um desequilíbrio na balança. É necessário afastar o materialismo vazio, o esporte niilista, o culto ao adorno e parafernália; é necessário resgatar a disciplina viril, excelência austera e o desprezo pela bajulação e falsidade. A honestidade radical e rude, a ferocidade e amizade do cão. Olhemos uma vez mais, mas com um olhar verdadeiro, para os grandes heróis e seus feitos, encaremos uma vez mais o frenesi de batalha. Segue, uma vez mais, o Belo Combate. Compreende a mente de um Aquiles ou Cú Chulainn.

v. Uma moral altiva, aristocrática e uma disposição de espírito vertical. A camaradagem horizontal com os iguais, o respeito sereno para os com os dignos, sacerdotes ou produtores. A disposição ao desafio, ao duelo, ao segredo do juiz escondido que pronuncia suas sábias sentenças no campo de batalha. Saber os sinais no céu ou no sangue, a conquista que do cimo parte. A força espiritual que ganha uma guerra. Do controle sobre si ao controle sobre um exército. A acção ao falatório, as consequências às intenções. Eis o que nos espera.

vi. Juramentos, Lealdade – retomemos sem temor. Com horror fiquemos ante a palavra quebrada. Lealdade, Lealdade, quão séria é tua sombra, quão denso teu olhar. A retomada radical da seriedade da Palavra Dada, da Lealdade ante as dificuldades, do comportamento nobre e virtuoso. Eis o que nos espera.

vii. Miremos o que é são e belo. O que é forte e potente, que perdura e ascende, que faz crescer a força da vida, o poder e sua sensação e a experiência habilidosa. Inimigos existem. Honra também. A misericórdia pode ser um veneno inoculado desde muito, mas que num momento, teremos que extraí-lo. É necessário compreender a natureza do violento, os tipos de violência, os usos honrados e covardes. É necessário compreender a natureza do pacífico, os tipos de paz, os usos benéficos e maléficos. É necessário não estar mais preocupado em agradar a mediocridade e saber que há naturezas e naturezas. É necessário ter coragem para batalhas reais, ir além das batalhas “fakes” da mesquinharia.

viii. É preciso uma reflexão ao abrigo do escudo sob um céu escuro de flechas inimigas, é necessário um pensamento na trincheira esfumaçada na saraivada da metralha. Atônito ante a cadeia dos homens que mergulha, caindo como folhas, no Outromundo, no mergulho do caldeirão profundo, ao retorno, marchando em linha. Façamos o céu rejubilar-se uma vez mais, o chão tremer com nossa marcha, o vento carregar nossos alaridos e cantos aguerridos, após nossas trombetas aterrarem os que fogem. Elevemos nossos estandartes, olhemos orgulhosos o horizonte, certos da uma morte digna e de uma existência honrosa.

ix. Hoje não é fácil, o quotidiano nos cega nas quimeras dos sonhos de consumo. O comodismo nos imobiliza, com seduções fáceis e mesquinhas. Nos obrigam a trocar o irreal e lúdico pelo real e mortífero, nos acostumam a sempre arrumar um bode expiatório e a nunca enfrentarmos o que nos aguarda, o Real.

x. O caminho do guerreiro é também o caminho da política. Política e Guerra. Discernir o amigo, o inimigo e o alheio. A militância numa causa, o manejar de uma bandeira, uma postura activa e comprometida, em favor dos valores tradicionais da cultura religiosa. O caminho do guerreiro é também um caminho patriótico. O guerreiro do mundo inteiro é o guerreiro de todos e de ninguém, de toda guerra e de nenhuma. Todos os heróis tiveram pátria/clã/nação sendo honrados e admirados mesmo pelas pátrias/clãs/nações inimigas. O brio excelso extrapola o particular numa fagulha do universal, reflectindo o sol que brilha por sobre todos. O cosmopolitismo/universalismo real tem dificuldade de casar-se com o Caminho da Espada (possui maior facilidade com o caminho do sacerdote/intelectual). Em algum momento, é necessário tomar partido, preferir corajosa e vigorosamente, reconhecer pelo que se luta, solidarizar-se com os seus. Rechacemos o costume covarde de querer agradar a todos, de querer ser o diplomata perfeito, de ser o perfeito impessoal. Não compactuemos com a covardia e o engano deste costume.

xi. Atenta para não cair em certas armadilhas mais frequentes nos caminhos do Radicalismo e Extremismo. Atenta para não ceder por completo a lógica da disjunção exclusiva e revogar por completo a lógica Indo-Europeia da conjunção, atenta para não transformar-te num radical abraâmico que acha que é pagão, cego pelo absoluto da exclusividade. É um erro demasiado sério que deve ser evitado. Atenta igualmente para não cair no subjectivismo e egoísmo “liberal”, no fosso moderno entre o Eu e o meu Povo. É parte de um todo e teu semblante se desfaz no esquadrão em movimento, apesar de teu valor pessoal (que é intransferível) se sobressair no calor da peleja.

xii. Repara na Política, repara nos partidos, repara nos líderes. Lembra-te que, se convier ao teu destino, poderás liderar, ou se não convier, poderás ser liderado, ou alternar entre estas posições conforme a linha traçada. Tenha atenção nas causas que propagandeiam, nas lutas que se levantam. Examina e compara com os paradigmas da tua tradição. Pergunta como os heróis e antepassados veriam e se há algo de novo que merece uma real mudança. Tenha uma atitude combativa. Repara nos exércitos patrióticos e nas forças estabelecidas de defesa social, mesmo que constantemente apresentem seus erros e problemas, pois, para o bem ou para o mal, isto é que vive agora, que recua comunitariamente ao passado; as roupas e equipamentos mudam, as cores e formas, as virtudes e vícios, os excessos e faltas, mas algo permanece ali representado: o espírito combativo, o impulso guerreiro. Não há dinheiro ou salário que pague uma vida, nem ouro que compre o valor individual num embate ruidoso.

xiii. O caminho do guerreiro deve ser vivido profissionalmente, sempre que possível. Procura, pois, servir nas profissões que assim o possibilitam: Polícias, Exército, Bombeiros, etc. Pratica jogos que simulam (o jogo nasceu da simulação do combate) e aperfeiçoam, mas não o pratica como um “burguês”, pelo fetichismo em si mesmo fechado, pelo culto do exterior e pelo mero êxtase dos sentidos. Pratica como “hobbista” e não como profissional, pratica com um propósito claro e distinto, com uma finalidade prática e útil. Acostuma-te com armas, suas diferenças e propósitos, conheça-as cada uma, na sua saúde ou doença: são ferramentas e extensões de teu próprio corpo as quais nossos antepassados costumavam levar nos próprios túmulos e piras consigo ao Outromundo.

xiv. Disciplina e hábito, treino e condicionamento. Exercícios. Saúde e vontade de aço. Corpo são, mente sã. Alguns simplesmente não entenderão – talvez seja necessário sentir, além de compreender. É verdade, há algo de profundamente terrível, há algo de profundamente perturbador e que pode levar ao asquerosamente sanguinolento e brutal, diriam os romanos: bellum dulce inexpertis. É onde desponta o melhor e o pior, é onde a natureza humana se perde e se encontra, se desfaz e se constrói.

xv. Peior est bello timor ipse belli. Há guerras e guerras e diversos frontes. Uns mais arriscados, mais visíveis e brutos, outros mais seguros, escondidos e delicados. Há grandes batalhas e pequenas batalhas, encontros rápidos e longos. Há recuos e avanços, derrotas e triunfos. Às vezes mesmo uma injustiça pode cair sobre nós, como uma nevasca terrível que alcança um desabrigado nu, e demorar com seu peso a nos fazer mover e reagir. Mas lembremos da Noite Mais Longa, sua escuridão e promessa, do Sol Invicto que desponta depois.

xvi. Mesmo uma vida corriqueira, imersa em rotina e com seus momentos de banalidade, pode oferecer um lapso, uma brecha e oportunidade, de no passo honesto e firme, destemido e virtuoso, mesmo que nas pequenas coisas, de uma vida que vale a pena, de uma existência heróica e bela. Não é preciso equipamento caro, nem a mais recente tecnologia – não invejes quem somente disto dispõe, portanto. Uma vida simples e excelente brilha com algo de heróico, um heróico um tanto estóico, por sobre os feitos comuns do vulgo. O exemplo para teus filhos, a fortaleza para tua casa, a companhia para teu cônjuge, um orgulho aos teus maiores e, quem sabe, uma luz para teu povo.

xvii. Quando a espada, a enxada e a récita integram-se num todo orgânico, o mundo harmoniza-se são na dinâmica do que é natural, elevando-se como incenso espesso de um fogo sacrificial, obtendo a presença dos deuses grandiosos e a possibilidade do fenomenal, do que transvalora o comum, numa momento epifânico luminoso. O caminho da espada não é para todos, como não é a vida intelectual/sacerdotal, e mesmo não é a produtiva/artesã; mas é algo que pode ser compreendido por todos que há diferentes caminhos e passos e que a desigualdade é natural. A natureza selecciona, separa, divide, une. Ressurgirá a tensão atávica pela Irmandade de Guerreiros, “isolados” e devotos, pelas tropas de elite casados com a Morte, pelo desejo de superar e exceder. Não se pode reprimir isto para todo e sempre, nem deixar tal erupção ao léu; ao contrário, sábio e precavido é quem o antevê dentro dos Ciclos do Mundo.

xviii. Uma comunhão de guerreiros talvez tenda (sem moralismos torpes) a uma “milícia”; mas não se trata de incentivar uma militarização do Paganismo, não se trata da transgressão (hybris, peccatum) de submeter o puramente religioso ao político/militar, mas de relembrar que há algo de religioso (muito mais connosco que com as “religiões da paz”) no militar/político. Não se trata de pôr o guerreiro acima do sacerdote/intelectual, mas simplesmente de enfatizar sua igual necessidade.

xix. Se tu és do que carregas contigo uma espada, aceita teu Destino e Natureza. Brande-a alto e não te furtas. Retoma hoje na tua religião o Caminho da Espada, procura os teus iguais, lembra-te que esta classe tendia a ser mais ampla que a sacerdotal. Age. Os deuses da Guerra nos miram. Corramos pelos campos em formação e murmúrio, não temamos a visão do rubro assento onde se senta o Senhor da Guerra, com sua lança e corvídeos (ou abutres). Como cães correndo no campo, como lobos numa matilha pela floresta. Não esqueças que os guerreiros são algo aparentados por dentro, por mais que hajam germânicos e celtas, romanos e gregos, africanos e ameríndios, asiáticos e polinésios. As virtudes excelentes, os códigos de honra – não são brincadeiras, nem “interpretação de papéis”, são reais e podem ser uma vez mais vividos. Integralmente. Sem concessão, sem “RPGísmo” de raquíticos, sem chorumelas desvairadas.

xi. Agora, é necessário uma moção, um movimento, um passo firme. Não basta pensar, apreciar, admirar, é necessário viver.

Dia da Mães 2013

Sob as bênçãos das Madres divinas, amas dos nossos antepassados e sabedoras dos destinos dos mortais, iniciamos esta postagem invocando às mães pagãs de nosso estado um dia verdadeiramente auspicioso e para além dos meros presentinhos de ocasião.

Às Mães, nossas mães, pois. Me desculpem as que não o são e inventam todos os artifícios para preencherem a falta instintiva de não serem homenageadas na data. Sejamos francos, a mãe de um cachorro ou gato, é uma cachorra ou uma gata, por mais que uma pessoal deseje, considere e propagandeie que é “mãe” de um tal animal de estimação, não o é. Sei que isto tenta replicar a lógica da “mãe de criação”, da adoção – que manifesta o instinto e constitui maternidade também. Mas no caso dos animais de estimação não deixa de ser um wishful thinking socialmente estimulado, principalmente quando a pessoa se utiliza disto para reclamar a si a mesma atenção que uma Mãe (de verdade) tem numa data destas. Se há a escolha em não ser mãe ou o arrependimento de ter-lhe sido, que se assuma isto de modo honesto, sem complexos. Pronto. Não precisa dos malabarismos intelectuais mais toscos nem dos descarregos de energia ressentida (um ódio quase mortal) contra a data e seu comercialismo/consumismo. Voltemos a nudez da Natureza – sem arrodeios e artificialismos forçados.

Claro que há as mães quase que indignas de sê-lo. Há aquelas que, talvez por falta de educação real entre outros motivos (entre os quais, a falta do mínimo de maturidade psicológica), creem que suas crias são como “bonequinhas” de enfeite, como aquelas da infância, para serem mostrados às amigas nos shoppings (a atualização adulta das brincadeiras de boneca em grupo?). O trabalho real e desafiante de uma educação digna deste nome, o peso da responsabilidade diária, “rotina”, das noites em claro e dos mais diversos aperreios, lhes passa longe – queriam, pois, viver à solteira, pagar alguém para todas estas partes incômodas (e não só para já passarem o dia todo com a prole) – desejariam só ser mães nos momentos de passeios e paparicados das amiguinhas solteiras.

Vivemos num interregnum dirão e que por isso, numa época de inversões e desmanches, qualquer um pode reclamar para si tal título e quem negá-lo, é um autêntico “retrógradofascistarrepressormachista”. O que é ser “Mãe” hoje? O que há de especial nisto, quando quase todos (independente do sexo de nascimento) e todas as coisas parecem poder sê-lo ou reclamam para si tal título?

Para as que ainda consideram a fertilidade sacra (honrando-a conforme sua natureza e cumprindo seu propósito) e os ciclos divinos, como as mães dos tempos passados – minhas saudações. Mães, pilares da existência ao longo das eras, elos belos de uma corrente curvada. Quanto mais se recua no tempo, menos se conhece e, neste caso ao menos, a falta de conhecimento não diminui a importância – sem uma, só uma mãe sequer, não se estaria aqui; pelo menos não nesta forma. Interessante como mesmo as pessoas mais diferentes, entre as pessoas simples, ainda nutrem um respeito de ares sagrados, quase que “tabuíticos”, em relação a mãe. Seu arquétipo indelével ainda persiste vigoroso, mesmo entre os que condenam a “idolatria” do culto que não é para o Desertificador (o deus de Israel) – eis o triunfo pagão da Madre.

A Mãe das Mães ainda vela pelos viventes e os alimenta – agradeçamo-la também e libemos em sua honra com boa mente. Feliz dia das Mães!

Aidan Kelly – “Há mais que um infinito”

Outro texto, conforme citei no post anterior, que merecia ser traduzido é este (clica para ver o original, em inglês), do sr. Aidan Kelly. É algo de “vanguarda metafísica”, digamos. A tradução do texto para o português é cortesia da estimada sra. Denise Diniz a quem sou grato.

Aleph-Nulo

Há mais que um Infinito

(Aidan Kelly, tradução Denise Diniz)

Infelizmente, tenho visto algumas pessoas argumentarem que “uma vez que o Deus Cristão é infinito, nossos Deuses Pagãos devem ser finitos.” Hum, não. Não quero ser sarcástico, mas isto é apenas uma teologia REALMENTE ruim. Uma das causas deste problema é a suposição de que só há um infinito e que o Jeová, o Velho-Pai-de-Ninguém*, tem direito exclusivo sobre ele. Mais uma vez, não. Há mais de um infinito. Na verdade, há uma infinidade de infinitos, de uma infinidade de tipos diferentes.

Sei que não ocorre a muitas pessoas, mesmo que entendam do que se trata a teologia, que teologia possa ser feita matematicamente. Pode sim. Simplesmente observe.

Na vida diária é difícil lembrar que “infinito” não significa apenas “muito grande”, mas “sem fim”. Felizmente há um conjunto sem fim com qual estamos bastante familiarizados, que é o dos números naturais: 1, 2, 3, 4, 5 etc. Cerca de um século atrás, um matemático alemão, Georg Cantor, pensou que talvez pudesse descrever o infinito em um pouco mais de detalhes do que apenas “sem fim”. Começou pela pergunta: “Quantos números naturais existem?”. Ele propôs o conceito de “O número de todos os números”, o qual chamou de número “transfinito” e simbolizou como  (lê-se alef-nulo). Em seguida, Cantor assinalou que “contar” significa colocar os itens no conjunto que contamos, em correspondência de um-para-um com o conjunto dos números naturais: 1, 2, 3 etc. O número que alcançamos ao último item nos diz quantos itens estão no conjunto.

Em seguida, faremos uma pergunta aparentemente idiota: Quantos números pares existem em relação a todos os números naturais? Não é senso comum pensar que há apenas uma metade possível? Mas, se contarmos os números pares os colocando em correspondência de um-para-um com todos os números naturais, que é nossa “regra de contagem” normal, o que vemos é:

2    4    6    8    10…
1    2    3    4    5…

Obviamente a quantidade de números pares é a mesma de números naturais; então o número de todos os números pares também é . Equivalentemente, alef-nulo dividido por 2 é igual a alef-nulo… Por isso, qualquer subconjunto definido dos números naturais, assim como todos, também será igual a  . Você já pode perceber que esta linha de raciocínio segue um aspecto cada vez mais paradoxal.

Além disso, o número de todos os números racionais (frações) também é igual a . Para ver isto, crie uma grade de coordenadas, com os números 1, 2, 3, 4 etc., ao longo dos eixos X e Y. Na grade, o item em cada interseção será uma fração, com o valor de X acima e o valor de Y abaixo, assim:

0    1    2    3    4    5…
1    1/1    2/1    3/1    4/1…
2    ½    2/2    3/2    4/2…
3    ⅓    ⅔    3/3    4/3…

Uma regra de contagem precisa ser um algoritmo que determina qual é o próximo número a ser contado e que conta cada elemento de um conjunto apenas uma única vez. Aqui está a regra de contagem:

1. Comece com 0.
2. Conte uma unidade à direita sobre o eixo-x.
3. Conte diagonalmente abaixo e à esquerda até alcançar o eixo-y.
4. Conte uma unidade abaixo ao longo do eixo-y.
5. Conte diagonalmente acima e à direita até alcançar o eixo-x.
6. Repita os passos 2 ao 5 ad infinitum.

Este caminho em ziguezague garante que cada combinação de dois números naturais será contada apenas uma única vez; por isso o número de todas as frações também é igual a . Se se substitui a grade acima com uma tabela de multiplicação então a contagem mostrará que o número de todos os números compostos é também igual a . Além disso, uma vez que a tabela multiplica o conjunto  ao longo do eixo-x pelo conjunto  do eixo-y abaixo, podemos ver que alef-nulo ao quadrado é igual a alef-nulo…

Uma notação equivalente, que irá tornar-se rapidamente útil, é a utilização de números pares. Isto é, assim como a notação binária produz uma seqüência de números contáveis: 0, 1, 10, 11, 100, 101, 110, 111 etc. podem também produzir uma notação diádica. Isto é, (0,0), (0,1), (1,0), (1,1), (0,2), (1,2), (2,0), (2,1), (2,2), (0,3) etc. Cada par possível de números será gerado.

Os pontos em uma matriz tridimensional também podem ser contados. Pode-se visualizar adicionando-se um eixo-z e utilizando-se uma regra de contagem que funciona como uma espiral em ziguezague: (0,0,0), (0,0,1), (0,1,0), (0,1,1), (1,0,1), (1,1,0), (1,1,1), (0,0,2) etc. Uma regra de contagem corretamente definida sempre estabelecerá qual a combinação vem em seguida, gerará todas as combinações possíveis de três números e garantirá que cada combinação é contada apenas uma única vez. Como cada eixo fornece um conjunto , alef-nulo ao cubo é igual a alef-nulo.

Pode-se avançar a uma matriz de quatro dimensões. Seres humanos simplesmente não podem visualizar isso, mas não precisamos. Usando uma regra de contagem em conjunto quádruplo (0,0,0,0) produzirá o mesmo resultado. O mesmo vale para cinco dimensões, e assim adiante. Portanto,  elevado a qualquer potência finita ainda é igual a .

Então todo conjunto definível sem fim de números é igual a alef-nulo? Não – e é aí que a linha de raciocínio fica mais interessante. O número de todos os números irracionais é maior do que . Aqui está o porquê. Um número irracional é um número decimal que não se repete, como =3,14159… Pegue dois números decimais quaisquer, que estão em posição igual, digamos, 0,2345 e 0,2346. O último é o número subsequente do primeiro? Não, porque pode-se gerar 0,23455, que fica entre eles. Se subdivide-se uma polegada não há fim para a subdivisão: pode-se escrever um número infinito de casas decimais dentro de qualquer distância, não importa quão pequena. Como não há uma maneira de determinar um “próximo número”, não pode haver regra de contagem. Cantor chamou isso de “o número de todos os números irracionais”, o “número do continuum”, ou alef sub c. Por isso existem pelo menos dois tipos diferentes de números transfinitos, dois infinitos diferentes, mesmo neste modelo matemático simples.

Só por precaução: note que enquanto  elevado a qualquer potência finita ainda é igual a ,  elevado a  é maior do que , mais uma vez, porque não há maneira de determinar um “próximo número” e, portanto, não pode haver regra de contagem. Da última vez que ouvi, ninguém ainda foi capaz de decidir se alef sub c é o mesmo que  elevado a alef-nulo…

Resumindo esta parte do nosso programa assinalo que, de acordo com Hans Hahn (em seu ensaio “Infinity” em James R. Newman, ed. The World of Mathematics [Simon and Schuster, 1956], III, 1598), Cantor também criou um algoritmo que gera uma seqüência infinita de números transfinitos diferentes, isto é, uma infinidade de infinitos. Tenho que ter fé nisso. A matemática está além de mim. Acho que é um argumento um pouco semelhante a Prova de Gödel.

*tradução aproximada de Nobodaddy, termo utilizado por William Blake para referir-se ao deus cristão.

Brendan Myers – “O culto aos deuses não é o que importa” (texto e comentário)

Saudações.

Esta semana alguns textos interessantes emergiram no horizonte blogosférico que costumo olhar e tive de pensar na viabilidade de traduzir ao menos dois deles – traduzir textos, por mais que seja algo importante (sim, precisamos ter coisa boa, de alto nível, atualizada e interessante em Português), já não é meta deste espaço, ou pelo menos, não é meta minha – e terminou que traduzi um rapidinho que vos apresento agora. Bem, sobre os textos e a frequência de publicações cá, estamos pensando em ter uma espécie de BlogTalkRadio ou coisa assim (mesmo gravar “programas” no SoundCloud) e postar cá – para viabilizar uma maior fluidez de conteúdo no blogue em vistas do curto tempo (a ideia não é ter os tais dos “PodCasts” mas a de ter uma espécie de programa de comentários mesmo); mas enquanto isto não acontece vamos adiante.

O texto é do filósofo canadense Brendan Myers e apresenta uma visão que, em um primeiro momento, lembrou-me conclusões parecidas vindas do “Comment peut-on être païen?” do francês Alain de Benoist (escrito nos anos 70). Mas foi uma impressão de primeiro momento mesmo, de título – pois, aqui se verá muito mais uma visão Humanista – no sentido moderno mesmo (farei uns poucos comentários sobre isto depois do texto – na verdade, há muito a comentar e minha economia de palavras é um tanto quanto circunstancial) – aqui não há a atmosfera “nietzscheana”, ou melhor, heideggeriana do filósofo francês e todas suas implicações morais e políticas. Mas mesmo com esta diferença crucial e séria talvez, de fato, haja um terreno comum, como espero indicar abaixo. Então, sem mais delongas, eis o texto (o original, em inglês, está aqui – por favor confira):

Brendan Myers

O culto dos deuses não é o que importa.

(por Brendan Myers)

O sagrado, devo dizer, é o que age como parceiro na busca por aquilo que é mais alto e profundo nas coisas: o real, o verdadeiro, o bom e o belo.

Brendan Myers. ‘Circles of Meaning, Labyrinths of Fear

Eu normalmente não vejo presságios ou outras mensagens dos deuses da forma como muitos outros pagãos dizem que fazem. Eu não estou particularmente interessado em ritual, magia ou feitiçaria. Eu não sinto auras, eu não sinto as energias, não leio cartas de tarô ou lanço as runas. Na verdade, cerca de 10 anos atrás mais ou menos, eu bati em cima de uma das proposições mais libertadoras e transformadoras que já entraram na minha mente, que é que a adoração dos deuses não é o que importa. O que, então, eu ainda estou fazendo na comunidade pagã? E, se a adoração dos deuses não é o que importa, então o que é?

Pessoas e relacionamentos importam. A terra importa. Vida, sua e minha, importa. Arte, música, cultura, ciência, justiça, conhecimento, história, paz, e qualquer outra coisa semelhante que enriquece suas relações com o mundo e com as pessoas, também importa. A medida em que a vida é digna de ser vivida importa. Morte, sua e minha, importa. E pensar sobre essas coisas é o que importa também.

Meu caminho é o caminho de um filósofo, e é um caminho espiritual. É sobre encontrar respostas para as perguntas mais altas e mais profundas que a humanidade enfrenta, e encontrar as respostas por meio de minha própria inteligência. É sobre não esperar a palavra descer de quem quer que seja. Nem da sociedade, nem dos pais, nem dos políticos ou governos, nem de professores, nem de religião, nem mesmo dos deuses. Neste sentido é uma atividade humanista, mas é uma atividade que eleva a humanidade de alguém para uma esfera mais alta. Isto é o que importa. Este foi o caminho de todos os grandes filósofos através da história. Este foi o caminho dos grandes predecessores pagãos como Hipátia, Diotima e Platão; e também o caminho de predecessores mais recentes como James Frazer e Robert Graves. Este é o caminho do conhecimento; e conhecimento é iluminação, e conhecimento é poder.

Algumas pessoas, e alguns grupos religiosos, podem ver isto como hybris. Mas eu vejo isto como um verdadeiro chamado da humanidade. Venho trabalhando por décadas para criar uma visão filosófica de mundo que seja rigorosamente racional mas ao mesmo tempo reconhecidamente espiritual, altiva, acessível a qualquer um, e genuinamente útil. Se tiver trabalhado-a bem, será meu legado (embora também queira comprar uma terra na qual construirei um templo. Mas esta é outra história).

Isto não deveria ser controverso, mas é. Ano passado, um número de indivíduos fizeram uma pouco caridosa interpretação de um comentário descartável de mim, e concluíram que eu estava de alguma forma depreciando-os pessoalmente. Alguns até mesmo requereram minha saída forçada da comunidade pagã. Então, vamos ver novamente a sentença de que “o culto dos deuses não é o que importa”. Isto não é o mesmo que a sentença “os deuses não existem”. Isto diz que existindo os deuses ou não, eu terei outras preocupações primárias. Pois há outras coisas que importam também – e algumas destas outras coisas importam mais. E algumas destas outras coisas que importam mais são sagradas. E algumas destas coisas sagradas que importam mais são coisas que têm de ver com o reino humano: tal como amizade, justiça e integridade. Assim, o caminho é um caminho humanista, mas também já um caminho espiritual.

Suponhamos que os deuses existam. Então relacionar-se com eles é o mesmo que relacionar-se com quem quer que seja. Há uma forma de mediação que ainda ocorre em um momento, talvez não muitas vezes quanto deveria, na qual eu contemplo uma certa deusa céltica que não nomearei aqui. Minha visão dela é fortemente panteísta, e como a vejo, falar de si mesma e falar da terra é quase a mesma coisa. Ela também personifica certos valores morais e certas relações que eu penso serem importantes. Há uma tigela em cima de uma das minhas estantes na qual ponho uma oferenda a ela cada vez que eu tenho cerveja ou vinho em casa. E por sua vez, gosto de imaginar que ela cuida de mim. Mas se pensares sobre isto, é um tipo de prática religiosa muito minimalista. Não há nenhum lançamento de círculos, nenhum levantamento de energias, nenhum canto e nenhuma invocação. O que há é apenas eu, meu fazendo isto, e falando a ela mesmo uma vez ou outra.

Mas em meu relacionamento com Ela, eu não me curvo. Não obedeço. Eu não “cultuo”. Talvez isto seja uma das últimas resistências de minha formação católica, mas para mim “cultuar” significa uma absolutamente inquestionável afirmação de autoridade da deidade. Eu não terei isto na minha vida. Se fores sábio, não terás também. Os deuses, se existem, são apenas pessoas que por acaso vivem no outro lado. E serão amigos para mim, ou estranhos, o mesmo para qualquer um de vós.

Eu fui iniciado no primeiro grau de uma certa linhagem de Wicca Alexandrina. Eu também segui o caminho druídico, co-fundei uma comunidade druídica chamada “A Ordem do Carvalho Branco” (“The Order of the White Oak”), e em 2001 eu até segui este caminho até a Irlanda. Tenho sido um membro da comunidade pagã por mais de vinte anos. Então não estou chegando a isto como um diletante, ou um amador. Eu uma vez ofertei meu segundo grau mas não encontramos tempo para fazer o ritual, e nada veio daí. Mas OK. Agora tudo que realmente quero fazer na comunidade pagã é escrever livros, falar sobre ideias neles, tocar guitarra, ajudar em eventos, e “dançar-cantar-festejar-fazer-música-e-amor” com gente boa. Eu quero ajudar a criar uma cultura espiritual que seja intelectualmente inquisitiva, artisticamente florescente, ambientalmente cônscia e socialmente justa.

E isto, também, é o que importa.

 [fim do texto do sr. Myers]

Voltei. Farei uns breves comentários sobre poucos pontos do texto, conforme o compreendi.

Antes, o sr. Myers tece sua participação num grupo de filósofos Humanistas – traçando Hipátia, Diotima e Platão como estando no mesmo grupo. Isto é o levantamento de um precedente e a indicação de que tal visão estaria, de alguma forma, em conformidade com a Tradição (ou ao menos, com a tradição da Filosofia Pagã). O caso do pertencimento de Platão neste grupo (de “Humanistas-quase-ateus”, digamos) é obviamente complicado e creio que o sr. Myers talvez tenha se complicado. A postura de Platão no diálogo “Leis”, por exemplo, em relação ao ateus não é “humanista” em nada, assim como sua concepção de uma sociedade tradicional na “República”. O “Humanismo”, na época, era associado sim aos Sofistas (Protágoras mesmo, o maior; vd. W. K. C. Guthrie “Os Sofistas”) e a toda a onda que alguns helenistas chamaram de “Iluminismo Grego” da época Clássica, numa espécie de “pré-Liberalismo” ou “Utilitarismo/Pragmatismo” (vd. F. S. C. Schiller “Plato or Protagoras?”). Ou seja, o que mais identifica como Humanismo e “Pragmatismo” no mundo clássico, está mais para quem Platão abertamente criticou e enfrentou (vd. U. Zilioli “Protagoras and the Challenge of Relativism” e o clássico de F. M. Cornford “Plato’s theory of knowledge”). Platão estava mais para um “conservador” tradicionalista (e bem religioso) que, apesar de muito influenciado pelo Pitagorismo, o era também pelo mundo de Esparta. Gente famosa (me refiro ao finado K. Popper no “Open Society and its enemies”) levou estas diferenças a nível reducionista (e anacrônico, convenhamos), criando uma oposição radical entre Totalitarismo e Democracia e colocando Platão justamente no campo dos totalitários, junto com nazistas e hegelianos… Bem, não que isto seja completamente o caso, mas serve para ilustrar que, mesmo diante de uma literatura da área, ver Platão como um “Humanista” (“humanista-quase-ateu”) é algo complicado e há muito mais gente e, creio eu, passagens em seus textos que o levem a ser melhor posto/visto como o opositor, se não ao Humanismo, pelo menos ao grosso do Pensamento Moderno. Sobre Diotima, apesar de Filosofia Antiga ser minha praia, conheço pouco e sobre Hipátia talvez haja melhor alinhamento ideológico, de fato. Particularmente, tenho lá minhas reservas da imagem “ateísta” que a mídia ocidental pintou da filósofa recentemente (por conveniência, mal compreensão do Neoplatonismo ou mera propaganda ideológica para lutas contemporâneas secularistas), mas enfim.

Isto me faz pensar que não se trata apenas de Platão, se trata de traçar uma linha ideológica uniforme, quase simplista, entre um grupo tão diverso e controverso como o dos filósofos com posições e compreensões tão diversas sobre o que são e como enxergam sua própria atividade e a dos seus predecessores. No mundo tradicional indo-europeu, o caminho do “filósofo” é uma espécie de “dissidência” ou caminho paralelo ao do sacerdote, com zonas de aproximação e contato, como de diferença. E pensarmos nos pormenores deste caminho, hoje, aqui e agora, é sem dúvida, fascinante (para os que possuem esta natureza, pois). E este é o primeiro ponto que me chamou atenção no texto do sr. Myers – este chamado à reflexão é primoroso. Onde está o filósofo na visão de mundo pagã hoje? De onde parte seu caminho? Do sacerdócio? Da guerra? Da atividade produtiva manual? De todas? Qual a natureza do filósofo, qual seu habitat? As ágoras virtuais do nosso tempo? A metapolítica? Os ermos e montes distantes da civilização? Ou o enebriamento quase hedonístico da imersão na fluidez do mundo contemporâneo?

Mas isto não é o grosso do texto. É uma justificativa geral para explanar o porquê do culto (e toda a parafernália litúrgica) não ser o que realmente importa. Talvez isto reflita a percepção de que, mais do que os detalhes de pronúncia das nomes divinos e fórmulas litúrgicas, é a dimensão “cultural”, a integridade espiritual (de mundivisão, cultura material e imaterial) que importa enquanto sustentáculos e vigas-mestras do Paganismo. Se esta é a percepção do sr. Myers, então de fato, há uma possibilidade de um diálogo com o que Alain de Benoist têm martelado faz décadas já, e de alguma forma, se faz ponte com uma “tradição” que passa por Evola e Nietzsche. Isto é incrível, se realmente for o caso – pois trataria, muito provavelmente, de um importante nexo entre correntes que nem sempre enxergam seus vínculos, de um lado a visão intelectual pagã anglófona, mais liberal e abertamente imersa na Modernidade (ou Hiper-Modernidade) e de outro a visão intelectual pagã mais “tradicional”, de cariz bem menos liberal e abertamente crítico da Modernidade. Ambas correntes tendem a emanações políticas diversas, em alguns casos, quase antagônicas – mas que, caso esteja eu compreendendo corretamente, estão já dando sinais da compreensão da integralidade espiritual sob a égide do Paganismo – do todo além do formalismo ritual.

Benoist insiste (desde o final dos 80) que, em termos políticos, não basta uma “nova” corrente política, é necessário uma “nova” cultura – e o projeto da Nouvelle Droite francesa é, de certa forma, uma efetivação de um centro para, digamos, instigação social deste projeto não mais político, mas cultural (além de intelectual) e talvez mesmo, civilizacional. Mesmo em termos mais racionalistas e pragmáticos (e por caminhos nem sempre fáceis) há quem chegue a conclusões próximas (estou com o “All Things Shining” de H. Dreyfus e S. D. Kelly em mente); eis a noção da organicidade que nos aponta à recuperação, de fato, do Paganismo: suas mais variegadas manifestações culturais vivas (música, dança, pintura, vestimentas, poesia, filosofia, política, teoria social, língua, etc.) em consonância interna que harmoniza a dissonância melodicamente (e dialéticamente?) no tempo e no espaço; eis a passagem para a transcendência do “fake”, do pseudo-paganismo, a retomada do mundo e sua efetivação (a Volta do Deuses de Heidegger), pois. Daí que está fora de cogitação que isto tudo também importa, creio que estejamos todos de acordo – o problema é decidir quem importa mais que quem.

Talvez seja isto – há uma boa chance de não ser. Mas antes de finalizarmos aqui, pensemos por um momento mais a sentença “o culto dos deuses não é o que importa” que exprime a coisa. Ora, seria este um pensamento “tradicional” ou em conformidade com a visão de mundo antiga? Para algumas pessoas, mais imersas no turbilhão liquefeito de nossa época, esta pergunta sequer faz sentido – elas não compreendem sequer o termo “tradição” em toda sua dimensão metafísica, atendo-se mais ao sentido corriqueiro “do que é ultrapassado, obsoleto”. Por que deveria estar em conformidade com o tradicional – isto por acaso é uma conditio sine qua non? Bem, mesmo para estes sujeitos é importante apontar um sentido – vamos lá, pois. A importância da conformidade com tradição reside pelo modo disto agir como uma espécie de “metro” que aponta para uma derivação legítima da visão de mundo antiga, e não de uma “pseudo-derivação” (de origem cristã, digamos), de uma derivação de aparência, mas não de ser. Ou seja, serve como uma espécie de marca identificável/confiável. Isto quer dizer que mesmo para aquele que deprecia o valor do tradicional, estar em conformidade com este é uma espécie de garantia primeira de que não se está sendo “enganado” – de que há uma unidade ôntica na diferença fenomênica. Este é um ponto que me soa razoável. Agora, claro, se o sujeito não está minimamente disposto a sustentar algum nível de coerência com o passado (mesmo que seja discursiva e de “rótulo”), aí a coisa desanda…

Agora voltando a pergunta – realmente o culto aos deuses “não importaria”? Bem, eu costumo pensar que, e até agora não vi evidências para suspeitar deste pensamento, na visão antiga de mundo, o que realmente “não importa” é o que poderíamos chamar de “teologia”, ou de “ortodoxia” – um conjunto de opiniões ou crenças pessoais tidas como corretas, seja cristalizadas em forma de dogmas ou de coisas do tipo. O culto público – sua formalidade solene e sua dimensão cívico-sócio-cultural – me parece que importava sim. Em Roma mesmo (o exemplo mais conhecido), o sujeito podia ser ateísta em seu íntimo, não prestar a mínima atenção para as ritos domésticos e tal, mas deveria mostrar reverência e participar das cerimônias cívicas – sob pena de perseguição. Ou seja, o abrandamento em relação ao aspecto privado da crença nos aponta para a concepção de que isto, talvez, não seja o que importa – no entanto, a severidade em relação à observância do culto cívico, nos aponta na direção contrária.

Entre os Celtas temos indicações interessantes de que havia certa visão parecida. Pegarei só duas (mas há mais). Primeiro, e mais famoso, o culto público é ele próprio concebido como afirmador último da pertença do indivíduo a uma mesma comunidade religiosa/civil/política – sendo o ostracismo, o banimento do culto público, como Júlio César nos relata no “Bello Gallico”, tido como pior que a morte (ao menos entre os Gauleses). Outra indicação preciosa é uma passagem da literatura medieval irlandesa que nos diz que os Druidas diziam que “faziam o céu, a terra e o mar” (Senchus Mór, logo na “Introdução”) com seus sacrifícios e ritos – de acordo com o modelo Indo-Europeu de um sacrifício cosmogônico fundacional – cuja repetição acreditava-se assegurar a ordem do mundo (é o ancestral comum do conceito hindu de ŕta – termo cognato do latino ritus), que se manifesta no mundo humano, na ordem sócio-cultural e psicológica dos indivíduos e no mundo natural no reforço da ordem cósmica assegurada primordialmente pelos deuses. Cumprindo o rito uma tripla função de ordenação ante o “caos”, a ordenação “interna” ao sujeito (psíquica, imagística, etc.), “externa” ao sujeito (comunitária, social, cultural, identitária) e a “independente” – esta mais difícil de ser levada à sério pelas nossas mentes modernas – na própria ordenação do mundo “manifesto”, natural, fenomênico (ou na forma como percebemos, acredito eu).

Não é difícil achar passagens na Grécia ou na Índia que apontam para a importância do rito e ao mesmo tempo, outras que demonstram certa “menor importância” das crenças pessoais. O modelo de explicação de que a importância tradicional tende a residir nos aspectos ortopráticos e não nos aspectos ortodoxos (Orotodoxia x Ortopraxia) talvez seja uma manifestação da mesma questão. Nestes termos, temos evidências de que a Ortopraxia (fazer as coisas corretas, em conformidade com a ordem tradicional/costume) importa, mas a Ortodoxia (ter as crenças corretas) nem tanto.

Não sei se isto seria justamente o contrário do que o sr. Myers (e talvez mesmo o sr. Benoist) está nos dizendo. Suspeito que o sr. Myers tenha em mente o modelo cultual new ager/esotérico/maçônico básico do tipo Wiccan (como ele deixa entender ao falar que não “lança círculos” ou “eleva energias”) que pressupõe um grupelho oculto, quase marginal, em um local desconhecido e obscuro – cujo culto não gera ou não está entrelaçado (pelo menos não tão claramente) às dimensões comunitárias/cívicas/políticas e culturais/identitárias mais gerais. Se esta visão estiver correta, ela parece referir-se ao culto que está dissociado dos demais aspectos totalizantes e orgânicos da existência (música, vestes, valores, política, identidade, etc.) – e de fato, sendo nestes últimos aspectos onde as vigas-mestras residem… isto torna o rito supérfluo, um mero desfile de fantasias e faz-de-conta, “burguês”, um mero adorno. Em relação ao sr. Benoist, me parece que este vê antes, a “artificialidade” da reconstrução litúrgica de práticas tão fragmentadas e extintas e mesmo a inadequação de certas práticas (como certos tipos de sacrifícios) ao espírito de nossa época, que independente de gostarmos ou não, absorveu algo dos valores cristãos – daí a visão geral de que “quem se cultua” é irrelevante (ou antes, é uma questão teológica, “escolástica” – e como tal de respaldo filosófico questionável), desde que a estrutura moral e visão-de-mundo pagãs estejam lá (de fundo). Aqui o pressuposto é que a ordem do mundo é assegurada pela ação, pela moral (isto ecoa a noção aristotélica de virtude como hábito) – a parafernália litúrgica para a adoração é contingente… O problema é que temos uma espécie de relação cíclica, uma espécie de círculo vicioso: o rito consolida a mundivisão/moral e esta consolida o rito; se aceitamos que a moral/mundivisão sobrevive sem o rito (sendo auto-suficiente), nem precisa ser reforçada por ele, OK.

Se considerarmos esta independência completa da moral/mundivisão da atividade litúrgica em si, ou ainda a visão de “culto” intimista superficial, como uma espécie de “fuga”, então aumentamos muito a tendência para concordar com a sentença de que o “culto aos deuses não é o que importa”. Mas se suspeitarmos de que tal independência é questionável e ainda por cima entendermos que “culto aos deuses” refere-se ao sentido mais tradicional e organicamente integrado do termo (sendo um termo enredado em implicações amplas  – o sentido de piedade religiosa antigo), a tendência para concordar diminui.

Particularmente, estou convicto de que o rito (ou o rito bem feito) ainda persiste com sua força de estruturação/ordenação da realidade – das relações e dos laços, seja na experiência estética que eleva (mesmo que momentaneamente) o caráter, seja na instigação metafísica da excelência e dos valores tradicionais. Neste sentido o rito é importante, é um configurador da realidade (seja de nós mesmos, seja de nosso relacionamentos, nossa identidade, seja de nossa produção, etc.) um eixo vertical que se espirala unindo – há algo ali que transcende a pira, as fumaças sagradas e os hinos solenes. Perceba, estou falando desde a perspectiva meramente mortal – o que o rito é a importância dele para os deuses, existindo eles ou não, é outra coisa e que em momento algum aqui eu trouxe. Outro ponto importante, é que afirmar a importância do rito não é afirmar sua superioridade – dizer que importa (tanto quanto), não é dizer que importa mais. No fim, talvez esteja simplesmente repetindo M. T. Cícero (De Nat. Deo.) de que a piedade religiosa (a observância das cerimônias e do culto) é uma Virtude – e como tal, filosoficamente justificável, com fim em si – independente da contrapartida divina…

Agora claro, independente de concordarmos ou não, é fato que precisamos elevar qualitativamente nossas fileiras, precisamos de música de qualidade, artesanato de qualidade, vivência saudável e verdadeira, e claro, de intelectuais pensando nossas sendas também – como já havíamos apontado antes. A própria construção de alternativas filosóficas dentro do Paganismo é extremamente importante. Eis um chamado importante, como que de um trompete de guerra ao longe.

O Carnux chama!

Bem, paremos por aqui. E tu leitor, o que achas? Críticas? Sugestões? Discordâncias, acordâncias? Por favor, utiliza a caixa de comentários, pois.

Laicismo e Pseudo-Laicismo

Saudações.

Laicismo, Laicismo, quanto não ouvimos e reforçamos a necessidade de um Estado Laico, o quão nos iramos, xingamos, discutimos etc. por isso? Eis a bandeira de salvação que une os mais diferentes sujeitos contra um inimigo comum – faz com que o dito de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” faça sentido no quotidiano. Basta uma olhadela nos fóruns e listas, seja de pagãos, orientalistas, esotéricos, etc. para ver quanto a palavra “laico” aparece; não é uma simples histeria coletiva ou coisa assim, isto é fato. Sim, mas o que vim cá falar sobre? Coisa simples – alertar-nos para uma reflexão simples: somos laicistas de verdade, de ocasião ou apenas pseudo-laicistas?

Explico.

Por ‘laicista de verdade‘ me refiro a posição de que o Estado e a Religião, em hipótese alguma devem ter mecanismos de “engendramento” – mesmo quando a Religião maioritária seja a nossa. É fácil ser laicista quando a Religião dominante não é a nossa. Queres ver? Imagina, divaga por um minuto, em um mero exercício de pensamento, que vives numa comunidade relativamente ampla onde todos os sujeitos são da mesma Religião que tu, alguns mais piedosos outros menos, mas todos unidos nos costumes e ritos sagrados de forma a constituírem uma relação de identidade comum profunda e alimentarem a noção de que a piedade religiosa é importante comunitariamente, podendo ser um aspecto de elevação da moral e da ação humana para valores e atos mais nobres. Agora imagina que um líder desta comunidade, um prefeito, digamos, ao tomar posse tivesse a possibilidade de tomar um juramento sagrado diante dos deuses e de acordo com os costumes religiosos da comunidade, sob o qual colocaria sua conduta pública; cofiarias mais em tal sujeito que fizesse este juramento (pela sua dimensão religiosa/sagrada – afinal, não se brinca com o sagrado, por definição) e que demonstrasse seriedade em relação aos assuntos religiosos? Seria este um procedimento comunitariamente mais importante e signtificativo?

Um laicista de verdade, responde não.

Para quem tendeu a dizer “sim”, não é de assustar – eis a quê a maioria das pessoas tendem; não é algo que devesse envergonhar alguém. Não é difícil achar ateus birrentos que com alguma conversa deixam escapar que o que querem na verdade, ou antes, que seria melhor haver de fato um Estado Ateu que um simplesmente Laico. Como o Estado Ateu é uma utopia distante (exceto se um regime comunista nos moldes clássicos marxistas fosse implantado), então fica-se com o mais próximo – o “Estado Laico”. É a ideia básica de que “se eu não posso, então que ninguém mais possa”. Mas isto não é fácil de se admitir, pois, fazê-lo é admitir que se trata de uma questão de Ideologia, não de “Justiça Social” como se propagandeia – passa a ser compreensível, uma vez admitido, o queixume dos “Evanjas” que creem que um engendramento religioso tenda a diminuir as ingerências do Estado, ou a corrupção dos políticos, o que os políticos levem mais a sério o que fazem na política por temerem ao seu deus, etc. No caso das religiões abraâmicas (pelo menos no caso concreto do Cristianismo), talvez haja um por menor: a divisão estrita entre o que é de “Deus e o que é de César” (desenvolvida teologicamente na noção das “Duas CIdades” de Agostinho de Hipona) leve sempre a uma distância entre o Sagrado e o Político que não existiu, por exemplo, na época do Império Romano pagão. Tradicionalmente, as sociedades Indo-Europeias não foram “laicistas”, de modo algum, da menor tribo galaica do ocidente Ibérico à Índia foram, se não, “teocráticas”, ao menos politcio-religiosamente engendradas – vendo-se a Religião como que iluminando os melhores e mais nobres aspectos da Política (e não a degeneração do contrário, claro). Não é necessariamente “errado” que um, por exemplo, ásatruar queira viver numa sociedade ásatruar, onde seus filhos tenham uma educação alinhada com os preceitos de sua fé/costumes e com uma política que reflita e externalize a concepção religiosa de soberania e tribo/comunidade. O problema não é o evangélico (que é gente, ser-humano) viver em uma sociedade evangélica e com uma política e educação religiosa deles – o problema é a imposição disto numa sociedade onde não existam apenas evangélicos, ou seja, o “supremacismo” religioso totalitário em uma sociedade pluri-religiosa; como seria “problema” para um evangélico viver numa sociedade ásatruar.

Este tipo de coisa, aparece mesmo na educação de nossos filhos. E pare ser franco, não creio muito no “mito” da liberdade real da escolha religiosa/ateia dos filhos – na verdade, acho hilário como alguns pais ateus que conheço, desejam ardentemente e se esforçam para que seus filhos sigam seu ateísmo ao mesmo tempo pintando uma máscara social de que não doutrinam ideologicamente os filhos, apenas para ficarem bem na fita. E mesmo que não doutrinassem a educação dos filhos numa sociedade dominada religiosamente, mesmo que “oficialmente” laica, a própria imposição da religião maioritária, mesmo que não seja de forma proselitista, mas nos símbolos e detalhes, gera uma situação que expõe a fragilidade da questão e o conflito ideológico. Os pais, pelo menos é como percebo, se sentem na “obrigação” de doutrinar em casa, como que gerando uma resposta contra-doutrinária ao que é imposto fora de casa por professores ou escolas de aparência laica, mas essencialmente confessionais. E aí, para não prejudicar ou dissocializar a criança, é necessário todo um jogo de cintura discursivo que requer muitos neurônios e uma sensibilidade quase sobre-humana.

As vezes suspeito, ecoando uma frase do filósofo Alain de Benoist, que o “ideal” seria termos opções. Que existisse a possibilidade de haver cidades confessionais, laicas e ateias dentro de um mesmo país, para que as pessoas, caso descontentes com o modo de vida da cidade x pudesse ir para a cidade y mais próxima. Que houvesse, pois, uma cidade “evangélica” onde lá pudessem viver evangélicos mais ou menos do modo como desejam, assim como houvesse cidades “célticas”, “ásatruars”, “wiccans”, “atéias” mais ou menos como há quilombos e regiões nativas protegidas pela Federação e relativamente abertas para suas próprias “constituições” tradicionais. E claro, para os que realmente desejam e para evitar “bairrismos” demasiados, os grandes centros cosmopolitas – laicos e multiculturais, pluri-religiosos, como, de certa forma, já são nossas grandes capitais. Que existissem opções simultâneas e reais para os que assim as desejam (e que não são poucos). Isto, talvez, amenizasse o impulso de dominação e o conflito velado ou explícito que consome muito da energia política que é desviada de temas de maior envergadura geopolítica-estratégica, ao mesmo tempo que oferecesse a real opção para as pessoas viverem de modo mais integral (e feliz, talvez) suas crenças/descrenças sem importunarem/incomodarem tanto os demais. Mas realmente não sei se isto seria tão bom quanto às vezes suspeito.

O Laicismo como conhecemos é um fruto tipicamente ocidental (bem “italiano” neste caso) da baixa Idade Media e do Renascimento, como que numa reação justa ante os exageros e excessos da teocracia católica totalitária. Marsílio de Pádua, o própria Dante e mesmo Maquiavel, e no posterior desenvolvimento do Liberalismo inglês por Locke (aproveitando certos ecos de Occam sobre o tema) foram quem nos prepararam o terreno para este Laicismo como o conhecemos usualmente, como que uma espécie de reação a um trauma ou ameaça. E no caso dos Liberais, a ideia básica é que para assegurar que não ocorram excessos “totalitários”, na instrumentalização da Religião pela Política (ou o contrário) é que o Laicismo se mostra como a opção mais racional e preservadora das liberdades de crença individuais. Claro, isto pressupõe o modelo liberal, atomizado, de Sociedade. Daí maturou-se a ideia de que somente um Estado isento da Religião poderá melhor respeitar e assegurar a pluralidade religiosa da totalidade das pessoas modernas, e a visão de que uma sociedade “teocrática”, necessariamente, é repressora e opressiva para com as religiões diferentes da “oficial” (a da maioria absoluta da população) ou para com os ateus, violando a liberdade de crença/descrença pessoal. O problema é que, no mundo real, não é tão simples assim.

Uma religião exclusivista e totalitária, como já tratamos aqui, nunca descansará até converter todos e acabar com as alternativas. Endogenamente, pela sua própria natureza, estas religiões não convivem nem conviverão “em paz” com as demais religiões, sua “paz” será sempre estratégica e provisória, ou a “paz” dos cemitérios. Daí que mesmo a Laicidade do Estado não seja uma barreira eternamente quando se tem estes sujeitos em maioria – num regime democrático, a maioria pode sim rever as cláusulas basilares de uma constituição ou apoiar alguém que o faça, fazer uma nova constituição não é tão difícil quanto parece… uma olhadela na história recente já é o suficiente para ter isto claro. Já por outro lado, Estados nominalmente engendrados por uma religião “oficial” podem ter minorias religiosas relativamente “prósperas” e “saudáveis” (apesar de que continuarão como “minorias”). Antes que alguém me entenda mal: não estou dizendo que devamos deixar este país se tornar um “teocracia” oficialmente, não! Devemos mesmo lutar contra privilégios religiosos na esfera pública e contra a confusão/favorecimento de religiões por parte do poder público – antes, estou alertando para que uma carta magna “laica” pode  não querer dizer muito e mesmo permitir que nasça uma “teocracia” não-oficialmente (a parte do “oficial” pode ser somente a cereja do bolo, um detalhe último) ou que uma “teocracia” oficial não quer dizer, necessariamente, a aniquilação completa e definitiva de toda as minorias religiosas ou dos ateus. Afinal, olhemo-nos de perto, somos a minoria da minoria. Qualquer senso relevaria facilmente que o brasileiro comum, em sua maioria, seria favorável a “cristianização” oficial do país ou ao menos acreditaria que a Religião (cristã) moralizaria o país e/ou as condutas dos políticos, pois ao menos ameaçaria-os com um castigo pós-morte. Eis o porque da populaça manter-se apática (e mesmo magistrados) quando, por exemplo, a prefeitura de Campina Grande (aqui na PB) direciona mais dinheiro para financiar eventos religiosos de Evangélicos do que para outros.

O fato é que, diante de uma “ameaça” religiosa dominadora/totalitária, cabe as minorias religiosas se apegarem a “tábua da salvação” do Laicismo – mas isto é feito (por muita gente, mesmo que inconscientemente), meio que estrategicamente, por circunstância, como que uma resposta diante da conjuntura atual. Este tipo de “laicista”, é o que chamei de “laicista de ocasião“. É o sujeito que crê que viver numa sociedade onde sua religião fosse a maioria (de mais de 95%), ter algo da Política ecoando noções de sua religião não seria tão “ruim” assim, ou mesmo fosse “preferível”; mas que diante da impossibilidade prática disto e sob a ameaça de uma religião intolerante, vê-se que “forçado” a advogar um Laicismo, mesmo não sendo, estritamente e filosoficamente, “laicista”.

Eu mesmo, confesso meu delito de opinião, que gostaria muito de ter a experiência de viver em um comunidade religiosamente uniforme e de viés tradicional iberoceltista (e mesmo projeto ter algo disso no futuro) – e talvez só com esta experiência adquirisse uma convição real sobre a defesa da Laicidade de verdade ou não. Daí que estou mais para o grupo dos laicistas de ocasião, infelizmente, tenho de ser sincero. Mas, pelo fato de ter consciência clara disto, não me vejo como um “pseudo-laicista” – aquele que por ignorância de si ou má fé se diz “laicista de verdade” sem o ser. Creio que para as grandes metrópoles ocidentais, multiculturais e pluri-religiosas em essência, a saída política é um Laicismo rigoroso, disto não tenho dúvidas. Mas não creio que deva ser “proibido” que algumas pessoas vivam religiosamente do modo como creem ser melhor sem que imponham isso aos demais. Nos EUA, por exemplo, a existência radicalmente apartada dos Amish, por exemplo, não é algo que gere lá desestabilização nacional ou coisa assim. Acredito que haja um direito à diferença e a escolha de se viver à parte (desde que não traga problemas de ordem militar) que mereça ser respeitado integralmente. É algo de desconfortável de admitir, mas o faço de face levantada.

Mas, e tu leitor, és um “laicista de verdade”, ou de “ocasião” ou um pseudo-laicista?

Comentário acerca do “Sobre a Antiga Religião” de Varg Vikernes

Varg Vikernes

Saudações!

Neste blog, vez ou outra, faço questão de tratar de temas que me chamam atenção ou que, no meu ver, precisam ser comentados de modo a trazer uma reflexão mais ampla para meus conterrâneos. Claro, nem sempre se alcança o objetivo, mas enfim. Hoje venho cá tratar de um texto super interessante e que, no meu ver, merece comentários. Mas antes de fazê-lo gostaria de indicar dois grandes blocos de pensamento que compõem o contexto no qual escrevo.

Radicalismo x Paganismo.

Uma sondagem rápida no meio pagão mostrará claramente que boa parte dos sujeitos com discursos mais radicais, de alguma forma, estiveram ligados à subcultura de Heavy Metal Extremo no passado – e geralmente, assumiram naqueles tempos viés extremo/radical no comportamento. Há uma espécie de fetiche, do “malzão”, de ser respeitado ou algo assim em torno disto e quando aliado à condição juvenil, tem-se a mistura perfeita. O pessoal do meio relembrará bem a oposição mortífera entre o “poser” e o “true“, entre o underground e o mainstream, o peso da ideologia e o cultivo de um puritanismo estético/musical/ideológico sério. Eu próprio experimentei isso na minha adolescência. Há quem diga – já ouvi bem dito – que o sujeito até sai do radicalismo, mas o radicalismo teima em não sair do sujeito. Considerando a diversidade e diferença natural entre as pessoas (e mesmo considerando os pagãos mais cultuais e os mais religiosos, para usar uma distinção do gardneriano Gus diZerega), é óbvio que não há, necessariamente, problema algum com gente radical – a existência disto está em conformidade com a Natureza. Sempre houveram radicais, sempre há radicais e sempre haverão radicais. O problema, ou melhor, o que pode causar problema, é um certo sentimento que pode emergir daí, um sentimento de que há “eleitos”, mais “puros” de acordo com a condição subjetiva de aderência radical, de acordo com a “fé” – eis a base clara do que tenho chamado aqui de Exclusivismo, isto sim, característica definidora do semitismo religioso, comum ao Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. É o que Jan Assmann, mais ou menos, coloca como sendo o sentimento originário do que chama de Distinção Mosaica e cujos frutos de violência radical são amplamente documentados, no Cristianismo por exemplo, por Michæl Gaddis. Daí, fica mais claro ver certa diferença entre Radicalismo e Exclusivismo, uma vez que o senso comum é bombardeado constantemente para considerar que o Radicalismo é fonte de todas as mazelas de origem religiosa, turvando nossa visão para identificarmos as duas coisas como sendo uma só. Seria, pois, o Radicalismo engendrado no Exclusivismo direcionado por uma motivação totalitária/dominadora a real fonte das violências intolerantes históricas; e como no geral, o Paganismo não ofereceu/oferece exemplos sistemáticos de Exclusivismo, há quem sugira que não oferece (nem oferecerá) exemplos sistemáticos de violência intolerante e persecutória (fundamentalista). Ou seja, estaríamos, pelo menos em teoria, livres de extremistas fundamentalistas. Antes que algum engraçadinho diga que Roma perseguiu os cristãos ou que Atenas condenou Sócrates, sendo claros exemplos de violência persecutória pagã, cabe lembrar que ambos os eventos se deram muito mais por motivos políticos do que por qualquer outra coisa (o mesmo com a proibição do Druidismo – reduto “ideológico etnicista” fomentador do independentismo gaulês, ou com a destruição do Templo de Jerusalém, igual reduto de “resistência” à Romanitas).

No entanto, aquele radicalismo nutrido e “aperfeiçoado” nos anos do Metal Extremo, uma vez tornado latente e dorminhoco, pode despertar ante as circunstâncias ideológicas do Paganismo. Quando a comunidade (neo)pagã ao nosso redor não oferece lá muitos elementos de coesão e identidade grupal, antes mostrando-se mais afinada com movimentos de ordem política de Minorias (feminismo, gayzismo, etc.) do que com o pensamento e visão de mundo dos pagãos antigos, aí é que as condições para este despertar do elemento radical aumentam. E logo, naturalmente, se forma o Nós e o Eles dentro deste conjunto. E para aprofundar ainda mais – eis que no horizonte despontam sinais de que, de fato, há uma separação interna. E isto nos leva ao próximo tema.

Reconstrucionismo x Neopaganismo.

Eis que leio isto e depois isto. Somando com toda uma tendência que tenho acompanhado ao longo dos anos do Paganismo do Leste Europeu e da Rússia, assim como das organizações religiosas mais sérias e admiráveis da Europa, além de bem sucedidas (como o ΥΣΕΕ, o pessoal do Romuva, etc.), realmente a diferença salta aos olhos. Eu, anos atrás, estava plenamente convicto de que (no que melhor conheço, pois) o Reconstrucionismo Céltico e o Neodruidismo (assim como o tal do Xamanismo Celta) eram abordagens diferentes (metodológicas e discursivas) de uma mesma coisa. Talvez como trilhas diferentes para um mesmo lugar. E o principal, por isto mesmo, podiam e deviam estar lado a lado lutando juntos em prol de um crescimento e benefício comum. Houve (tenho isto registrado em e-mails) gente famosa do Reconstrucionismo Céltico estadunidense com quem conversava na época que afastou-se/decidiu encerrar a conversa comigo por haver eu sustentado esta visão (e talvez por haver elogiado em demasia a ordem neodruídica ADF). Na época, pareceu-me um comportamento sectário, improdutivo e me trouxe até certa má impressão sobre a pessoa. Hoje, suspeito que a pessoa – com anos e mais anos de experiência e vivência no meio (neo)pagão a mais que eu – sabia o que fazia.

As diferenças entre Reconstrucionistas e Neopagãos só aumentaram desde então, ou talvez tenha sido minha percepção delas. Em termos de preferências políticas, concepções da sociedade, ética e moral, família, comportamento sexual e visão de gênero, na própria concepção da vivência religiosa – e como constatei na prática, mesmo as pessoas leigas, que nada sabem das diferenças ideológicas, tendem a dissociar os grupos. E não é à toa que mais gente chega nesta questão (por exemplo, aqui - continuando – e aqui) tendendo a dissociar-se do rótulo “(neo)pagão”, a ter vergonha (da aparência, comportamentos, ao que são associados) ou desdém dos ditos “(neo)pagãos”. Não por mero “nariz rebitado”, mas por real prejuízo na vida e imagem pessoal/profissional/intelectual/amorosa ao ser associado/identificado com este povo. E isto é sério, muito sério mesmo (no mundo profissional, uma simples “googleada” mostra quem és). E não adianta “blá-blá-blá” sobre “sociedade hipócrita e mimimi” – no final, as contas ainda precisam ser pagas.

Voltando, para mim, a questão é que, historicamente, o que geralmente é chamado de Paganismo sempre teve espaço para quase tudo, pelo menos quando sob um governo político centralizado (ou dentro de uma hierarquia); pensar em como o termo hoje pode englobar este “quase tudo” em vistas da maior tendência “a separação” consciente (e justificada) de um parcela, é que é o ponto. Considerando isto como outra questão de fundo é que chego ao texto do sr. Varg Vikernes.

O texto de Varg Vikernes

Varg Vikernes, para quem não conhece, é o sujeito na frente do grupo Burzum, que foi Black Metal e hoje não sei bem como é definido o estilo musical (estou super desatualizado no mundo do Metal Extremo, desculpa-me, ó leitor). O sujeito ficou “famoso” por uma série de feitos nos anos 90: queima de igrejas na Noruega e o assassinato de um sujeito por desavenças juvenis e uma trágica paranoia, como ele próprio admitiu mais tarde. Recentemente, escreveu um ótimo (sim, eu achei) livro sobre feitiçaria e religião na Escandinávia Pré-cristã o que, pelo menos para mim, elevou minha consideração sobre o sujeito. Lembro-me, se não me falha a memória ainda no finalzinho dos 90, de ter ouvido pela primeira vez falar neste sujeito quando escutei o disco Filosofem, quando descobria as bandas de Black Metal norueguesas e sempre o tive como uma figura um tanto quanto “folclórica” até que em determinado momento soube de sua inclinação/simpatia pelo “real satanismo de nossa época” (como disse certa feita um sujeito) o Nacional-Socialismo. Afinal, somos formados para “tolerar” tudo, menos isto. Que há uma tendência “fascista/nazi” em parte do que se chama de Paganismo, creio que já não seja novidade para ninguém. Há sim, já de tempos que escrevo aqui sobre a questão do Nacionalismo (iniciamos a problemática com a questão da Identidade, Eurocentrismo, etc.) e a dimensão “política” do Paganismo, o que de alguma forma é a ligação com estes movimentos políticos e que me fez estudar algo de suas raízes. O problema é quando alguns tentam reduzir esta ala de simpatias “fascistas/nazi” existentes em partes do movimento com o Reconstrucionismo, opondo-o ao Neopaganismo, New Age, Libertário, Ultramoderno, etc. Que há zonas de intersecção, disto não tenho dúvida, mas a extrapolação destas zonas para um modelo reducionista e simplista, dual e maniqueísta é o problema – e pensando bem, é uma das teclas que mais tenho tocado neste blog. Abre brechas para críticas incisivas e nos fragiliza enquanto grupo, sem contar que pode gerar mal-entendidos de ordem mais séria, interna e externamente.

O texto que venho cá comentar foi-me passado pelas redes sociais e fui até o original na página virtual do Burzum verificar. É um texto bem recente, fizeram uma tradução em português que suprime alguns parágrafos, por isto recomendo a leitura do original; mas, caso tenhas dificuldade em ler na língua inglesa, o jeito é recorrer à tradução. Bem, vou pedir que antes que prossigas a leitura cá, leia o texto lá – é este “A Antiga Religião” (portuguêsoriginal).

Supondo agora que lestes, posso melhor expor meu comentário. Vou fazer pequenos recortes e tecer comentários, afinal o tempo é curto e faz tempo que planejo escrever de forma mais breve e menos prolixa aqui. No geral, é um texto provocador, diria até, polemista. Lembrando que uma polêmica boa é aquela que causa debates inflamados, revolta as pessoas, gera o confronto. O texto tem endereço certo e constantemente lembra isto e, claro, se utiliza de certos recursos para inflamar os endereçados. Por exemplo, para alguém que “briga” pelo termo “pagão” ser chamado de “cristão” é particularmente ofensivo, então – ao invés de chamarmos o sujeito (pagão) humanista ou modernista de “humanista” ou “modernista”, chamamo-lo de “cristão” (aproveitando-se do fato de haver várias áreas de contato causal ou ideológico entre o Cristianismo e o Humanismo Moderno), que neste contexto é mais ofensivo. Há algo ali feito para desagradar claramente certas pessoas, marcar uma diferença, erguer um muro – não é um texto diplomático, é mais um que pergunta: “afinal, estás conosco ou contra nós?”. Este tipo de postura é algo que se vê igualmente em certos círculos radicais de política quando situações limítrofes se apresentam e ação é requerida – é uma pergunta e um convite para sair de cima do muro, tomar partido. Considerando isto – o que podemos ver de intensão no texto e do modo como foi composto – estamos melhor contextualizados para compreendê-lo e aproveitar o que há de útil.

Sendo franco, e correndo o risco de desagradar muito por isto, creio que o texto possua dois erros grosseiros, mas que fora estes, traz uma mensagem importante no seu todo – apesar de escrita de um modo polemista e aparentemente “rancoroso”. Coloco o texto como que em seguida ao do filósofo Julius Evola sobre o Neopaganismo que aqui já comentamos. Há algo de profundo e de correto, mas, há também deslizes. Pelo menos os que percebo como tal são grosseiros e espero conseguir apontá-los satisfatoriamente aqui.

De fato, há um “hippiesmo” desagradável que se infiltra no Neopaganismo, justificado pelo mundo anglófono – nos EUA e no Reino Unido, os movimentos dos anos 60 também significaram uma reabertura para “Religiões Alternativas”. Desde o começo deste blog que eu tenho criticado isto – que antes chamei de “paganismo de shopping” ou de “fim-de-semana”, a visão superficial e de “moda” de caminhos sagrados.  Mas que nem sempre fica clara para nós aqui na América do Sul (como creio que não fique para parte da Europa). Aqui tem-se o pessoal “espiritualista” que é xamanista, pagão, reikiano, crente nos poderes dos cristais-azuis-trazidos-pelos-extraterrestres, das terapias alternativas, holismo, pró-maconha etc. estes são os simpáticos e new agers que exalam certo hippiesmo e no fundo, acreditam que tudo se resolva com Paz e Amor numa comunidade igualitária e planetária de seres humanos felizes, abraços, cachimbos, de espíritos evoluídos, ecológicos e brilhantes de mãos dadas. Não deixa de ser uma espécie de messianismo utópico psicodelicamente esfumaçado. Daí haja uma subcultura de pacifismo doentio (doentio tanto quanto o seu o oposto, a “beligerância patológica”), cultura de consumo de drogas ilícitas para fins recreativos, uma tendência a misturar Índia com nativo-américa+europa+árabe+áfrica+tudo-que-não-seja-cristão, visual e comportamento “alternativo”, numa espécie de pequeno-burguesismo-esquerdista de Facebook. No Neopaganismo mesmo, o nível de incentivo à promiscuidade, descompromisso, individualismo (lembrei de outro artigo de Gus diZerega), materialismo disfarçado e confusão do ultra-modernismo (eu não uso mais “pós-modernismo”) com fabulações românticas sobre o mundo antigo é de assustar; e não são poucos os momentos em que um estudioso do Mundo Antigo se pergunta se este povo realmente crê-se sabendo algo deste Mundo. Quando não, temos (isto é mais comum ao povo das grandes cidades e de classe média alta) uma espécie de visão de Hobby-RPGística da religião, montada em torno de fantasias e romances (agora, filmes e séries televisivas), Otakus e cia. Tendo isto em mente, fica claro que o apontamento “zombaria da Antiga Religião” não é uma fala solta, sem base ou fundamento – há algo de muito sério nisto.

Nesta direção conflui o ponto de separação – acredito e advogo EU – entre as religiões étnicas/reconstrucionistas tradicionalistas (ou seja, um paganismo/politeísmo que tenta, de fato, recuperar uma visão de mundo Antiga, pré-moderna da forma mais integral possível) e o que mais usualmente se chama de Neopaganismo, mas que deveria ser mais estritamente endereçado a Wicca et similis (que absorve e fomenta visões e concepções modernas como Igualitarismo, Humanismo Moderno, Feminismo, Gayzismo, Remodelação familiar, etc.). Claro, de dois, surge um três. De modo que dentro desta divisão (entre tradicionalistas e “modernos”) há graus e prováveis zonas de intersecção/meios. Há Wiccans que se aproximam muito de um perfil tradicionalista (há até quem diga, que a BTW de fato, é sim, tradicionalista e conservadora – e até é acusada de homofóbica!) e há reconstrucionistas (por exemplo) que cultivam algo do Humanismo moderno, estando (filosoficamente) muito próximos de Liberais/Libertários ateus.

Para não demorar mais do que já estou fazendo, vamos aos dois pontos que acredito estarem errados no texto do sr. Vikernes.

No entanto, essa é a Filosofia de Vida Pagã: deixar com que somente os saudáveis, os fortes, os moralmente bons e bonitos sobrevivam. Somente os cristãos apreciam crianças deformadas ou geneticamente defeituosas que não deveriam ter direito a viver, crescer ou se reproduzir, fazendo com que destruam nossas propriedades genéticas ao longo do tempo. (…) Acho que esses “pagãos” percebem que não são pagãos, mas – como eu já disse – apenas um punhado de cristãos. Você não pode ser pagão e antirracista.

1) O primeiro é esta redução, como apontada por mim num texto “velho”, de que “verdadeiros pagãos são racistas”. Isto, como já demonstrei lá (e aqui e aqui), não procede historicamente. Hoje, anos depois, acrescentaria que há uma terrível confusão entre os sentidos de “raça” na Antiguidade e o sentido que a coisa adquiriu depois do Gobineau, Postivismo e Darwinismo, como já expus cá numa “discussão” com um neonazi nas caixas de comentários. No geral, os neonazis confundem e se utilizam de um elemento super-moderno/não-tradicional (a noção de Raça biologicista, darwinista, positivista) julgando ser algo antigo, por não compreenderem a noção clássica da Eugenia (acreditando se tratarem da mesma coisa do que aconteceu no III Reich alemão), confundindo a experiência de Esparta como norma, trocando a exceção pela regra, e negando o aspecto metafísico da “raça” – a Casta, esta sim, uma visão tradicional (neste sentido, o perenialista Frithjof Schuon tem um livro interessante no assunto). Mesmo gente “conhecida” deste pessoal, como Julius Evola os criticara por isso. Por mais que se possa defender, com uma base considerável, que o primeiro movimento intelectual de massa antirracista surgiu com o Cristianismo (um de pequenas dimensões talvez tenha sido o Estoicismo – este de origem pagã e anterior; um texto que traz uma visão interessante sobre o a origem cristã do antirracismo é esse), o máximo que se pode defender de forma consistente é que “verdadeiros pagãos tendem a ser etnicistas” e não “racistas”. Esta diferença é crucial e basilar e minimizá-la é um salto declarado no anacronismo. Aqui há um “wishful thinking” dos racistas em relação aos antigos, que possuíam uma visão muito mais espiritual e metafísica que a moderna e materialista sobre o tema. Agora claro, se o sr. Vikernes está utilizando “racista” aqui no sentido mais amplo e difamatório que os antirracistas fazem questão de utilizar talvez algo possa ser contornado, mas no geral é o que me parece ser o primeiro erro sério.

(…) Você não pode ser Pagão e homossexual, ou mesmo tolerar a homossexualidade. (…)

2) Aqui talvez seja o erro mais grosseiro. Então, os pederastas gregos e romanos não eram “pagãos”? E mesmo aqueles mercenários gauleses que em longos anos fora de casa em campanhas marciais, conforme Ateneu registrou, tinham lá suas licenciosidades homossexuais também não eram pagãos então? A questão aqui é que há duas confusões por parte do sr. Vikernes. A primeira é tomar uma parte pelo todo. Explico: de fato, entre os germânicos (e especialmente entre os Escandinavos), homossexualismo era algo abominável – tanto que alguns códigos jurídicos registram que o simples insulto a alguém de, digamos, “baitola”, dava ao ofendido o direito de tentar matar o ofensor. De modo que podemos fazer a afirmação, nos moldes do politicamente correto, de que foram sociedades, como se diz, homofóbicas. Do fato de ter sido assim, tão extremado e forte, entre os germânicos não implica que fosse assim para com todos os demais povos Indo-Europeus, ou seja, houve uma espécie de generalização apressada no raciocínio do sujeito. Por outro lado, não quer dizer que a Antiguidade fosse completamente “pró-gay” como tentam pintar alguns foucaultianos militantes do gayzismo. Não, de modo algum, a coisa nunca fora bem vista (para a tristeza de alguns, pois; na Irlanda, suspeitas de comportamento homossexual eram condição legal para a mulher pedir divórcio do marido, por exemplo) – o que acontecia é que algumas sociedades arrumaram modos menos conflituosos (e traumáticos para os gays) de arranjar as coisas no seu tecido social hierárquico. Por exemplo, um gay rico e aristocrata poderia viver sua licenciosidade e promiscuidade relativamente bem na Roma imperial, no entanto, ele sendo um aristocrata, estava submetido hierarquicamente a Res Publica – regulada na lei do dever sagrado de gerar filhos para a pátria e estabelecer/dar continuidade à família/linhagem. Daí que havia os sujeitos que casavam e faziam um filho por “formalidade” – convenção social, dirão alguns; mas também não precisavam “esconder”, pôr no armário, sua opção sexual. Pelo menos não como fora com a cristianização.

No geral (com possíveis exceções de estratos sociais, épocas e lugares específicos), da Índia à Ibéria, o mundo Indo-Europeu não foi de incentivar o homossexualismo mas também não o foi de reprimir de modo tão enfático quanto o feito pelo mundo judaico-cristão. E isto porque o Mundo Antigo fazia um grande diferença entre coisas que nossa sociedade (e os gayzistas) tratam como sendo uma. E isto nos leva a segunda confusão. Uma coisa é comportamento homossexual outra a feminização/desvirilização; a confusão é justamente tomar uma coisa pela outra e ambas como idênticas. O sujeito que nega sua condição natural e passa a travestir-se a comportar-se como uma mulher, de fato, até onde eu saiba, foi não só alvo de terríveis escárnios, quanto de reprovação social e exclusão (e pensando no caso germânico hoje, talvez, um travesti ásatruar seja tão tosco como um judeu nazista). Mesmo no âmbito religioso, há quem argumente – no caso da Grécia mesmo – que a existência esporádica de um sacerdote travestido e eunuco em um culto de mistérios femininos é muito mais uma influência “Oriental” que produto do Indo-Europeísmo. Em todo caso, para uma ética e visão de mundo guerreira (ou dominada pela classe aristocrática e guerreira) é perfeitamente compreensível o eventual escárnio pela feminização e, de alguma forma, compreensível o “desconto” para com aqueles que (apesar de não apresentarem um comportamento sexual majoritário) não deixam de ser bravos na guerra, leais e pessoas de palavra. Achar que as duas coisas eram uma só, que todo “gay” era visto, necessariamente, como uma espécie de travesti contemporâneo decadente é uma incorreção. Estas são as características gerais deste segundo erro grosseiro.

Encerrando

Estes são os que me parecem ser os 2 grandes erros do texto do sr. Vikernes – as generalizações “retóricas” presentes no texto entendo mais como elementos de polêmica e não as levo tão à sério. Mas, como disse, há algo de importante aí – o apontamento para a via tradicional, da ética heroica, da vivência mais integral e não afeita ao mundo ultra-moderno. Esta é uma via (e as pessoas tem o direito de preferí-la e propagandeá-la), mas talvez não a única via – e precisar onde estão os limites nisto é o que nos leva a mais duas questões, i) de que se, de fato, o Neopaganismo e os Reconstrucionismos são dois rios separados que se unirão num futuro maduro, se são dois rios separados que possuem uma mesma fonte mas que correrão separados, ou se são dois rios separados e com fontes próprias, completamente independentes desde o início e até o final. E ii) a da natureza e lugar do “radicalismo” dentro de nossas fileiras. Espero que tenha ficado claro. Em todo caso, é bom não cairmos numa “fiscalização” da ortodoxia alheia e muito menos deixemos que surja um Exclusivismo nos moldes abraâmicos entre nós.

Comentários?

Mais reflexões metafísicas

Saudações!

Vir cá, numa noite véspera do fim do ano civil, rapidamente para escrever sobre coisas sérias é um risco complicado. Pois, a possibilidade de deslize e prolixidade é grande. E vindo de minha pessoa, muito grande. Mas cá estou para escrever o último posto do ano civil de 2012. Um ano realmente interessante e de cabeça erguida para mim e os meus, mas que que talvez tenha registrado a minha menor presença virtual desde então; daí que o blog esteve meio que “abandonado” em várias ocasiões. O futuro deste blog está enevoado, ou talvez seja a claridade demasiada do Sol destas bandas que tem nos feito fechar os olhos e recuar o olhar. Com o andar da carruagem, saberemos.

Bem, e sobre o que venho tratar? Como título diz, de algumas questões metafísica, então começarei e tentarei ser breve. A questão sobre a existência dos deuses e sua real natureza é uma questão antiga da qual já esboçamos algumas considerações neste blogue. Percebendo, ao longo dos anos, que alguns conhecidos tendem a se perder por elas (claro, há outros fatores externos que ajudam muito – relacionamentos, “traumas” oriundos destes, mudanças de “galeras” – sim tem gente fraca que é muito de “maria vai com as outras”  - pseudo-crises existenciais de médio-burguês, mimadismo e complexos de armário, etc.), chegam ao ateísmo, chegam ao agnosticismo, chegam ao cristianismo ou aos mais diversos “locais”. Ainda bem, eis um movimento natural e muitas vezes salutar. Mas em alguns casos (e não tão poucos quanto pensava), é resultado de confusão mesmo – interpretações e leituras estranhas, senso crítico direcionado, falta de vivência e experiência real, síndrome de abstinência (ou mesmo aversão) das matas e bosques, montes e colinas, do mato. Em relação a questão da existência divina, hoje, ainda insisto em dizer aos meus conterrâneos que conhecer a literatura greco-romana é importante, para discordar dela, atualizá-la ou qualquer outra coisa. É difícil para alguém de nossa época (e especialmente para os meus colegas estudantes de filosofia), cercado constantemente do saber científico e do status intelectual do ateísmo (sim, ser ateu traz mais prestígio intelectual e, de longe, mais status e credibilidade – faz parecer “inteligente”), reestabelecer uma visão tradicional e ir além do simples fideísmo nos seus discursos de ordem (poli)teológica.

Pensando nestas questões, vim cá compartilhar umas visões. Particularmente, creio que ainda haja um grande edifício filosófico a ser feito, uma espécie de exegese da tradição platônica e dos contributos mais diversos ao longo do curso da civilização ocidental. O platonismo, enquanto projeto filosófico, sofreu dois grandes ataques sérios, no meu ver – um na época medieval, quando servia de base para a teologia católica (isto é realmente engraçado e cretino, não posso deixar de notar – o cristão mais se vangloria de sua teologia, que só fora possível graças a usurpação e alteração deste paganismo). Não, não falo de Tomás de Aquino, pelo mesmo motivo que não iniciei pelo próprio Aristóteles. A Teoria das Formas (TF) e outras “ferramentas” platônicas, por mais que fosse criticadas e colocadas de lado pelo aristotelismo, por um lado foram quem o proporcionaram e mesmo se incrustaram em algumas partes deste último (a parte “psicológica” do aristotelismo, se compreendi bem o De Anima, tem lá seus débitos ao platonismo). No meu ver, o primeiro grande golpe contra o platonismo foi mesmo com Guilherme de Occam. Toda a tradição filosófica, que depois ficou conhecida como Empirismo, de alguma forma ou de outra, esteve ligada a certo “golpe” da navalha occamiana – e é de notar que tanto Occam, quanto Roger Bacon (que influenciou consideravelmente o rosacruz e esotérico Francis Bacon) e George Berkeley foram monges católicos franciscanos.

O outro grande golpe, veio da tentativa de rejeição radical do pensamento metafísico por parte de filósofos que não se enquadram claramente como cientificistas, empiristas, etc. (e daí que não parte bem de Kant – um cientificista, admirador confesso do alquimista Newton) Há a redução, um tanto quanto evidentemente simplista, de que toda metafísica é, de alguma forma, platonismo – e que este, por haver “suportado” algo da teologia cristã, é um albo natural para o qual se reduzir todas as mazelas metafísicas de séculos de especulação filosófica. Então, é só jogar fora este platonismo e está tudo resolvido. Isto é exposto, mais conhecidamente, por Nietzsche. Mas, como o cientificismo moderno não é uma alternativa confiável, resta o niilismo e a busca por uma certa inspiração no “pré-platonismo” para superá-lo (daí a visão “trágica” do bigodudo alemão). O problema, é que temos que considerar que tal “pré-platonismo” é “desmetafísico” – o que é obviamente falso, pois mesmo que defendamos que sejam “anti-platônicos”, possuem pontos de concordância e um substrato imaginário comum que atrelam seus pensamentos ao caldo do metafisicismo tradicional Indo-Europeu. Daí que, ou rejeitamos a redução de que toda metafísica, de alguma forma, é platonismo e permitimos “beber” nas metafísicas não-platônicas (e aqui teremos de traçar claramente os limites do platonismo para com as demais visões religiosas tradicionais, seja na Índia, etc. Para com o mundo aristocrático Indo-Europeu, etc.) ou, para sermos coerentes com o projeto de abandono radical do pensamento metafísico, desistimos do pré-platonismo (e ficamos somente com o nihil – mais ou menos, a opção dos Existencilistas do tipo Sartre).

Isto se traduz, no que tange a concepção dos deuses, na questão da continuidade deles e noutras questões metafísicas velhas para o pagão moderno. Qual o significado metafísico da retomada e renascimento do politeísmo e da “volta” ao mundo Antigo? Qual a dimensão filosófica, ontológica, deste movimento? Pensando hegelianamente, seria um movimento histórico, algo como um Zeitgeist, direcionadamente para um síntese final? Ou, descartando completamente qualquer tentativa de encontrar sentido na história, ou seja, qualquer forma de historicismo, o que seria? Uma mero reflexo do declínio da sociedade e valores burgueses, uma espécie de teimosia humana diante do progresso e da aproximação do “Fim da História”? Uma loucura de doidos que ainda não atentaram para as maravilhas e verdade do Libertarianismo ateísta ou do Comunismo ateísta? Por que estes doidos levam à sério estas mitologias e ignoram a mitologia mais… mais.. (mais o quê?) do cristianismo?

Particularmente, desconfio do que nossa intelligentsia nos apresenta como modelo – a proposta da sociedade “esclarecida”, livre da superstição da religião (ou que tenha uma religião perfeita, final, avançadíssima), justa, feliz, científica (quase que completamente robótica) que nos é vendida pelos ideólogos ateus e que é tido como parâmetro do intelectualmente correto e louvável, na Academia, na Mídia, nos bares. Este me soa o mesmo projeto do Iluminismo, da Razão emancipatória que afugenta as trevas da Ignorância – ambos, como que característica do pensamento moderno, operam em uma concepção linear e progressiva do tempo (a linearidade é herança cristã – mais até que judaica – a “ascensão” do progresso é uma crença cegamente “religiosa”, mítica, sem muitos embasamentos racionais que soa realmente estranha quando quem a defende critica ferozmente este tipo de crenças).

Muitos de nós serão levados a pensarem metafisicamente no modo que nos foi talhado, e por isto, tenderemos a dar importância a questões que talvez não sejam tão cruciais quanto seremos levados a pensar. Darei um exemplo radical. A própria questão da existência real dos deuses é, hoje, posta de modo “contaminado”. Para o pensamento cristão esta questão é crucial – pois, para o modus operandi do cristianismo, é necessário ter a crença certa, não basta agir corretamente, mas crer corretamente. Por mais que fazer boas obras (para os católicos, ao menos) seja importante, é crucial aceitar o Christus – ou seja, ter a crença pessoal correta, sua (e do conjunto de dogmas e concepções de mundo deste “discurso feito carne”) “aceitação” verdadeira, exclusiva e radical, é condição sine qua non para todo o projeto escatológico religioso cristão. Isto muda o eixo da relação e torna muito mais subjetivo e interno (e talvez, mais inconsciente), o modo de ação da experiências religiosas e dos discursos metafísicos. E claro, este eixo mudado, empena as lentes para enxergar dados, e claro, interfere no resultado do processamento destes. O mundo antigo pensou esta questão, sim claro! Mas a importância dada a ela, no conjunto geral da concepção da religião, não foi a mesma. É dentro desta mesma concepção ortodoxa (do grego “orthos” correto, “doksa” opinião, crença) que um ateu se surpreende ao saber de uma religião “sem deus” (me refiro ao modo como alguns se referem a uma grande religião oriental) ou de saber que houveram imperadores romanos e filósofos que “ateus” ou agnósticos, participavam e incentivam as religiões tradicionais. Daí recorrem ao velho argumento de que tais sujeitos enxergavam as benesses de coesão social e instauração de valores por parte da religião como mais importantes que a verdade de seus postulados metafísicos ou do seu discurso em geral. Ou seja, davam um desconto à metafísica, em troca da importância cultural da religião. Não é só isso. Se meu exemplo acima estiver correto, o modo de pensar do cristianismo (que dá ênfase a questões que não eram tão enfáticas) interfere também – seja na nossa concepção de relação para o com divino (nas orações, rituais, etc.) seja no próprio modo de concebê-lo.

Pensemos. Muitas destas perguntas foram feitas já antes, e mesmo algumas respondidas por pagãos do mundo antigo e estão sendo postas aqui mais como uma provocação para a pesquisa e reflexão do que para qualquer outra coisa. Como nossa religião “explica” as outras religiões e suas manifestações? Ela precisa explicar, quais as vantagens e desvantagens disto? Os deuses sempre existiram de fato? Como os percebemos e quais evidências temos? Como devemos encarar a a tradição mítica e a literatura tradicional? Como os deuses permitiram a queda de seus templos? Quão interessados estão nos novos templos que reerguemos a eles? Eles interferiram/interferem nas vidas e história mesmo daqueles em que neles já não creem (como nos Lusíadas)? Afinal, interferiram na História humana? Saíram do mundo e agora estão voltando (Heidegger)? Vivem dentro de nós, como arquétipos psíquicos somente? Como valores e símbolos? Devemos simplesmente repetir a “fé cega” por apego à tradição? E que mal há nisso, o que nisto nos limita e o que isto nos propicia? Qual o sentido disto tudo, deste rito, destas vestes, destes símbolos? Como isto é parte de nossa identidade? Que representa para nós? Que importância isto tem para nos encontrarmos e identificarmos em nós mesmos, nos nossos antepassados e na comunidade mais ampla? Quais nossas forças, quais nossas fraquezas? Com que estamos, para quem somos indiferentes, para quem estamos e contra quem estamos? Até onde estamos dispostos a ir?

Então, repensar certas questões metafísicas (claro, isto não é para qualquer um – a visão mais tradicional é que um especialista talvez seja necessário para auxiliar algumas pessoas, seja no percurso de encontro de uma resposta, seja na própria compreensão da pergunta) é algo que, cedo ou tarde, teremos de fazer. Rever a dimensão do que pode, se algo, ser salvo do platonismo hoje, do que os sistemas filosóficos concorrentes podem trazer, do que temos de novo de fato, do que temos de ceder à ciência e do que temos de reinventar/produzir. Temos de revisar a história da filosofia (e talvez o próprio modo de enxergarmos a História que nos foi contada) sob o prisma indo-europeu de hoje, eis o projeto. Eis um fronte da batalha onde não basta apenas ser corajoso, mas ter habilidade e um saber profundo, verdadeiro. Qualquer deslize será utilizado contra nós. Há quem ache que é parte da justificação intelectual – como que se ainda precisássemos, como se as dadas pela Tradição pré-cristã não fossem mais válidas – para deixarmos a coisa mais “respeitável” ante os olhos da intelligentsia de nossa era. Eu penso que isto é refletir a visão cristã de que o cristianismo “superou” os antigos – coisa que obviamente não acredito nem vejo motivo algum para acreditar. Há quem ache que nada disso é necessário, não há necessidade alguma de justificar-se intelectualmente. Há quem ache muita coisa. Fato é que já há quem esteja o fazendo, Brendan Myers tem desenvolvido sua visão filosófica que tem sido chamada de “Existencialismo Pagão”, Alain de Benoist tem levado às conclusões (invariavelmente pagãs) Heidegger e Nietzsche, em uma abrangência espantosa, produzindo uma reflexão profundamente enraizada e atual; entre outros. Ou seja, precisamos de mais intelectuais que saibam identificar as armadilhas e “contaminações”, que se ponham na ponta da lança, na vanguarda do horizonte acinzentado de concreto, gritos e plástico das nossas sociedades. Que possam avançar posições estratégicas, marchando em um passo valente.