Saudações.
Bem, o desdobramento prático em política, de concepções pagãs sempre fora uma espécie de eco que rondou este blogue. Desde os tempos que Rodrigo Leão escreveu aqui – nossos posts sobre o Eurocentrismo, e sobre o problema da Identidade Nacional, etc. giravam em torno disto. Neste quesito, desde uns anos, eu realmente percebi que tinha muito a ler para formar uma opinião suficientemente robusta para pensar com clareza a relação do mundo religioso que abraço, no geral a concepção Tradicional Indo-europeia refletida no Ibero-celtismo, com os movimentos e posturas políticas de nosso tempo. É uma tarefa séria que se feita levianamente, pode gerar frutos azedos e mal formados. Minha natural tendência regionalista e minha teimosia em ver a Identidade Brasileira, como incontornavelmente problemática devido aos vários e díspares “Brasis” e da imposição midiática de uma identidade fluminense como “Nacional”, entre outras tantas coisas, afastaram-me de tomar posicionamentos mais concretos em relação a muita coisa.
Bem, talvez por causa de um tópico numa das maiores comunidades de Paganismo do Orkut, alguém enviou-me um e-mail, recentemente, perguntando minha posição em relação aos pagãos brasileiros (especialmente os vinculados ao Reconstrucionismo, que algumas vezes desenvolvem certo grau de Etnicismo) apoiarem movimentos políticos de cunho Nacionalista. A resposta a esta pergunta, se inseriu num conjunto mais amplo (e talvez mais sistemático) de umas coisas que pretendo escrever, e que venho neste post registrar o roteiro que tenho em mente. Organizar as ideias. Desde que ministrei uma disciplina, semestre passado, que na verdade foi um curso de Introdução geral à Política dado de uma ótica, que talvez pudesse chamar sem injustiça, de “tradicionalista” (tanto que alunos Comunistas quase saíram magoados comigo, assim como liberalistas radicais) que tive de parar para analisar a vacuidade de uma formação política embasada em boa parte dos pagãos com quem convivo/convivi aqui no nosso estado. Isto, obviamente, reflete em grande parte, a aversão à Política (em nosso país, tão doentia e sujamente corrupta) por parte das pessoas comuns e honestas; por outro lado, reflete o igual desejo (compartilhado por mim, por exemplo) de não misturar as águas em demasia, pelos riscos que gera à prática espiritual, trabalho em prol da religião e aos laços naturais (os virtuais nem tanto); além de menor interesse propriamente dito. Sem contar que, para pessoas ocupadas e espiritualizadas, o tempo livre é mias naturalmente dirigido ao trabalho em prol da religião e do culto, mais do que para atividades de promoção política-ideológica.
Ora, mas há pessoas e pessoas.
Há pessoas que estão menos dispostas naturalmente a empregarem seu tempo na reconstrução de hinos em línguas antigas, ou ao estudo de fórmulas e rituais, como reavivá-los, etc. Há pessoas que querem outro tipo de ação, militância, etc. Nada mais normal, e para gente como eu, nada mais lógico e preferível. Há artesãos, agricultores e produtores; há guerreiros, militantes e aventureiros e há professores universitários, sacerdotes e peritos em poesia. Além de que há pessoas que têm em si duas “classes” desta; outras, bem mais raras, que podem mover-se bem entre as três. E há “párias”; sim, as há! Daí que a necessidade de encarar a política numa dimensão mais espiritualizada varie, assim como as próprias visões políticas, variantes tanto pela formação do sujeito, quanto pela sua disposição interior, natureza, “classe”.
Daí que não faz sentido dizer um modo único, uma visão única de um modo único para todos os Neopagãos. Há visões e batalhas que não são para todos, e não há problema algum nisto. Ao contrário, esta me parece a ordem natural das coisas. Pois além da diferenças entre as naturezas das pessoas, há diferenças nas crenças das pessoas. Enquanto religiões, somos uma minoria, e uma minoria composta por diversas mundivisões, ideologias, valores morais, teologias, etc. Muitas vezes que podem conflitar entre si, inclusive. Imaginemos o caso seguinte: o religioso A defende a Homossexualidade e é militante convicto desta causa, e ativista constante; o religioso B é o tipo de sujeito que não vê motivos para ser contra, aceita em certa medida mas não é lá militante; e o religioso C é contra o Homossexualismo reconhecido estatalmente e acredita que este comportamento deve permanecer “marginal”. Tanto A, como B e C são pagãos. Provavelmente de religiões de matriz indo-europeias diferentes (principalmente A e C). E numa manifestação e contramanifestação estariam em lados opostos (B provavelmente estaria tomando um sorvete na esquina ou passeando num parque). Mesmo que os três sejam pessoas do mesmo caráter, “classe”. Ou seja, uma igualdade de disposições naturais não implicam numa igualdade de visões políticas, pois o direcionamento da moção (apesar do impulso, força motriz, ser a mesma) pode ser determinado por forças externas (condicionamentos e experiências pessoais, educação – o que inclui religião, etc.) ou internas mesmo, se houver, de fato, alguma influência genética, como alguns sugerem.
Por estas e outras é que, penso, não se deve esperar uma postura política uniforme, única e universal dos pagãos, pelo simples fato de assim o serem. E mesmo de temas “tabus”, considerados como retrógrados, politicamente incorretos, danosos, etc. E por isto que qualquer coisa que seja falada, recomendada, será de fato útil, e realmente informativo (no sentido aristotélico de “forma”) para alguns. Daí que me parece mais produtivo para todos, falar de termos gerais e históricos – de modo a inspirar cada um ler, debater, formar sua própria opinião dentro de sua visão religiosa. Isto é válido em parte, confesso, pois há pessoas que não estão lá dispostas a “pensar” sobre isto, ou pensar por si mesmo. Isto é normalíssimo, e não deveria causar espanto e reprovação para um pagão (pelo menos para os Tradicionalistas).
A questão é que, x ou y, w ou z, ou que seja, quando chega uma eleição temos de tomar uma posição. E uma tomada de posição requer um mínimo de reflexão. Mesmo decidir não votar e tal requer reflexão. E o ser humano parece gostar de sentir que sua decisão tem a sanção religiosa, de que ela está de acordo com a moral religiosa, que é justa/correta, que permite excelência, elevação, iluminação, salvamento do planeta, salvação da alma, etc. É a tendência legítima de integralidade, de coerência.
Então o que pretendo tratar aqui neste blogue, quando o tempo e as circunstâncias possibilitarem? Bem, primeiramente gostaria de indicar uma lista geral de leituras em Política que me parecem importantes para os meus conterrâneos. Depois, há tempos que penso nisto, gostaria de fazer um breve “tour” nos movimentos políticos pela história da Parahyba, visando justamente identificar o que foi mais arraigado nas regiões do estado (monarquismo x republicanismo, a resistência e a promoção dos ideias iluministas-maçons, etc.) e oferecer (a mim mesmo também, claro) maior consciência da história política local (claro que um tanto quanto superficialmente, afinal isto é um blogue e já decidi há tempos que preciso escrever posts menores aqui); depois tratar das reais opções de voto, e dos movimentos de hoje sob uma perspectiva do que há de mais comum entre as religiões de matriz Indo-europeias: justamente a concepção comum de ordenamento social Indo-europeu. Talvez alguém advogue que tal visão tradicionalista não seja válida para religiões como a Wicca e alguns ramos do Neodruidismo. É um ponto discutível de fato, mas em todo caso, ambas religiões tiveram/têm sim grande influência desta herança, seja na organização do corpo sacerdotal (em graus), etc. que me é suficiente.
Talvez isto tudo não seja apresentado, necessariamente, nesta ordem.
Espero responder sobre minha visão quanto ao Nacionalismo, especialmente a como isto se configura aqui no Brasil, em algum momento disto tudo. Provavelmente com um post próprio. Irei logo postar uma lista breve e simples de títulos importantes politicamente, no meu ver, para os conterrâneos pagãos.
Lista de indicações básicas.
- Indicações prévias: muito das literaturas clássicas Indo-europeias, seja de epopeias, carmina ou pequenos tratados, é importante. Vários fornecem o contexto-base ou a fundamentação religiosa de muitas concepções. Seja o Rig-Veda, Trabalhos e os Dias de Hesíodo, o Taín, etc.
- Heráclito de Éfeso. Fragmentos. É um texto fácil de ser achado em várias traduções relacionadas aos chamados filósofos originários ou “pré-socráticos”; primeiramente: não é um texto de política! Mas é um texto importante, por vislumbrar (nos fragmentos mais relacionados a moral e mundivisão) parte da arcaica (e diria quase que Divina) moral aristocrática, e do estado de espírito elevado, apesar da escrita obscura e gnômica.
- Platão. República. Talvez um dos textos mais clássicos e expressivos de uma visão tradicional que se pode pensar. Claro, com exceção de certas pitadas de inovação pitagórica (e purismo eleático) aqui, e do trato epistemológico (basicamente concentrado nos livros VI e VII) acolá. Acredito que deve ser um livro lido minuciosamente.
- Aristóteles. Política. É outro texto clássico, infelizmente não tão lido nem estudado quanto a República de Platão. A visão de Aristóteles é bem importante para os pagãos de hoje, devido a seu Naturalismo, da compreensão da organização cívica/política como desenvolvimento natural. Ele defende alguns pontos de vista, considerados como “terríveis” e “absurdos” (um dos melhores termo é “heréticos”) para a mentalidade moderna politicamente correta e, especialmente, pós-Iluminista (especialmente no primeiro livro), que independente de acordo com o autor ou não, dever ser visto.
- Marco Túlio Cícero. De Re Publica. Outro ótimo texto para sentir a atmosfera moral e rígida da atividade política sadiamente aristocrática no contraste com formas decadentes de poder concentrado, etc. É um texto que carrega uma mensagem emotiva importante para os aristocratas de espírito.
- Maquiavel. O Príncipe. É um marco por mostrar a introdução da moral mercantilista, que por princípio dissocia claramente os propósitos políticos dos princípios religiosos e morais, e legitima a arbitrariedade desenfreada do monarca. Claro, apresenta informações importantes para a realpolitk despudorada
- Francis Bacon. Novum Organum. Não é um texto “político”, mas é crucialmente importante para os pagãos por ser o marco do plantio, em solo preparado previamente pelo cristianismo desde muito, da semente bipartida da necessidade do homem dominar, explorar e subjugar completamente a Natureza – apesar de propor a retomada de um método empírico para o conhecimento científico – destruir os velhos ídolos…
- John Locke. Dois tratados sobre o Governo. É um texto clássico e que apresenta uma gama de sementes que combinadas com Adam Smith, geram o grosso do Liberalismo. Para os pagãos, aqui há a defesa pela liberdade religiosa, liberdade individual e influência mínima do Estado nas questões privadas do sujeito. A defesa da propriedade privada, julgamento por júri, organização parlamentar, etc. São desdobramentos importantes deste pessoal (em parte, olhando para o mundo antigo, para Aristóteles, Estoicos e Ecléticos romanos) combinados com o que se desenvolvia na França.
- Jean-Jacques Rousseau. Discurso sobre a desigualdade entre os Homens e o Contrato Social. Outro texto clássico. É extremamente importante, por mostrar claramente a mentalidade Iluminista e a fundamentação da noção revolucionária republicana francesa. O Discurso é um texto chave para compreender a noção de “bom selvagem” que fora utilizada Romantismos à fora, e muitas vezes entraram “subterraneamente” no Paganismo, na exaltação dos ancestrais étnicos. Além, claro de lançar a semente contra todo tipo de desigualdade como sendo injusta e ilegítima (e claro, para se questionar qualquer estrutura hierárquica…). Já o Contrato Social, entre os diversos pontos de importância, (já ao fim, se não me falha a memória) é importante por demonstrar que mesmo entre “liberais”, a existência de uma Religião Civil (tratada de modo meramente político, pragmático e de cima para baixo) ou “secularizada” (por mais contrassenso que pareça) tem lá suas vantagens sociais e políticas.
- Georg W. F. Hegel. Filosofia da História. É um dos textos que influenciou boa parte da literatura “séria” (“levada à sério”, serio termo) de cunho místico e ocultista (do final do séc. XIX até quase meados do séc. XX) que buscava aí legitimar a noção de propósito da história para a grandiosidade atual, ou ainda por vir. E é precisamente na noção da grandiosidade ainda por vir (na Revolução), e no desenvolvimento dialéctico da História que reside o ponto mais evidente (mesmo para qualquer leigo que tenha lido Hegel) da influência deste texto sobre o Marxismo. Para os pagãos, Hegel ainda coloca a tal noção de “espírito Absoluto” que se desenrola no curso da História e reconhece certos “Gênios” dos povos em ação, personalizando as etnias, num modo de fazer história que sumiu faz tempo. Um certo apego a triplicidade das coisas e uma teoria metafísica estranha. Não se enganem, ele acreditava que o Cristianismo Protestante da Alemanha era o supra-sumo do desenvolvimento religioso até então. Hegel é uma leitura terrível, pela sua prolixidade, hermeticidade forçada, e linguagem nem sempre logicamente compreensível. Daí que é bom lê-lo com tempo e paciência.
- Ter um texto do próprio Karl Marx que sumarize seus pontos de vista de forma sistemática é e acessível é algo complicado. O ponto é que para compreender o atual estado político das coisas, é crucial compreender o Comunismo e o Socialismo (já boiando de alguma forma, em teóricos franceses da Revolução Industrial e do Sindicalismo). A obra do sujeito é vasta (e por incrível que pareça, pelo número de marxistas e esquerdistas existentes, pouco lida… sério, pude constatar isto mesmo entre professores Comunistas nos departamentos de Humanas que frequentei e frequento) e leva um tempo danado e disposição (espero que tenham mais que eu) para lê-la. Sugiro começar pelos Manuscritos Econômicos-Filosóficos, Manifesto Comunista e Salário, Preço e Lucro. O ponto é que hoje, é igualmente importante ler as derivações do Marxismo, (estranhamente, em grande parte, filo-judaica, ou sionista) como as teorias da Escola de Frankfurt, etc. O pano de fundo de muita coisa “rebelde” que aconteceu na segunda metade do século XX, do Ateísmo Existencialista, ao Feminismo, à Revolução dos Costumes, Pacifismo Hippie-Drogas, etc. E o quanto que isto veio a baila – subterrânea e, às vezes, fragmentariamente – no Neopaganismo e New Age, não preciso nem dizer. Muita coisa, pode não estar diretamente ligada a Karl Marx, como coisas do tipo Microfísica do Poder de Michel Foucault, ou mesmo contrapôr-se à ele, mas o tem como uma referência de algum modo.
- Há um caldo de textos díspares entre si, mas com elementos que podem ser tomados em comum num sentido prático, de vários pensadores do final do séc. XIX e começo do séc. XX. Nietzsche, Thoreau, etc. cuja importância para o Neopaganismo ainda não fora avaliada adequadamente. Neste caldo, será colocado ou extraído, dependendo das preferências ideológicas, literaturas diversas, de Évola a Heidegger, de Huxley a Mircea Eliade, de Guénon a Capra, etc.
- Para os pagãos que pretendem entender boa parte dos desenvolvimentos de “Centro” dos últimos 30 anos (de Centro-Esquerda e/ou Centro-Direita), de caráter um tanto quanto liberal-socialista, recomendo dois clássicos modernos: John Rawls. Uma Teoria da Justiça e Robert Nozick. Anarquia, Estado e Utopia.
- Hans Jonas. Princípio Responsabilidade. Apesar de minha reserva com o autor (filho de um ativo sionista), considero este um dos textos mais fundamentais em política para os de religião Indo-europeia hodiernamente. Aqui é resgatado a imbricação ética-política e fundamentada grande parte da noção realmente Verde – e não Melancia (“verde por fora, vermelho por dentro”) que permite repensar e adaptar sistemas políticos e éticos com demandas ambientalistas justas (nada de hippismo-cannabico-verdista-porra-louca) e para nós, permite repensar a relação dos processos sociais de produção com os teologicamente imanentes – sem contar, pois, a crítica ao Marxismo/Comunismo (de um ponto de vista ambientalista/ecológico) presente neste texto é das mais devastadoras que vi, se não a mais (há uma crítica do Liberalismo-Econômico também, mas com beeeem menos impacto). Sem contar que o texto passa em revista boa parte das visões éticas da Filosofia e suas implicações com o Ambiente, apesar de que por isto, o texto requer do leitor um bom conjunto de conhecimentos prévios da tradição filosófica para uma compreensão efetiva. Obviamente que de um ponto de vista Tradicionalista pagão, o texto tem lá seus problemas, mas são poucos se comparado a que dá para reflexão. O texto é de 1979 e impressiona o leitor moderno em algumas de suas suposições, que terminaram se conformando.
Enfim, sugerir bem mais textos, mas isto me parece razoável para um começo e indicação num blogue. Resta tratar a literatura propriamente sobre Mitologia Comparada e cultura Proto-indo-europeia. Há muita coisa na internet, grátis, leitores. Muita mesmo. Como há porcarias lixos diversos, daí que a informação precisa é a chave em tempos internéticos como esse que vivemos, uma palavra, pode levar-te as fontes boas ou afastar-te delas, numa mar de brumas confusas e dispersão mental.
Inté!











